1930 Autoportrait 

Óleo sobre tela,   54x46 cm

S/ assinatura, s/ data

Colecção privada, Paris

 
  Biografia    
  Retrato por Arpad Szenes    
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Biografia

 
 

 

 

 

Vieira da Silva nasceu em 1908, filha única de Marcos e de Maria Vieira da Silva (na fotografia ao lado). 

Não foi à escola, vinham ensiná-la a casa. Entre 1919/1927 estuda desenho com Emília Santos Braga; pintura com Armando Lucema, professor da Escola de Belas Artes; posteriormente estuda por iniciativa própria Anatomia, frequentando o curso leccionado pelo professor Vilhena, de Belas Artes, leccionado na Faculdade de Medicina. 

Filha única, criança solitária é a família que a remete para a observação para não cair em aborrecimento. «(...) Diziam-me: Uma menina inteligente não se aborrece. Olha. Olha. Olha para os livros. (...) para a árvore, (...) para o pássaro. (...) ouve música. Ouve o barulho. (...) ». (Jean-Luc Daval, 1994, p.95).

No mundo dos livros, da cor, dos sons encontra refúgio nas horas em que se sente completamente sozinha e profundamente triste. A imaginação está no seu olhar. O conhecimento dos livros e da vida, a partir destes, leva-a a configurar outras coisas. Existe uma continuidade em si. Era persistente. A sua obra viria a ter o poder dessa revelação.

Não tinha amigos, mas desde muito cedo, apenas com dois anos de idade, viaja pela Europa juntamente com os pais. A Suíça, Paris, Bretanha, Inglaterra são paragens obrigatórias. Irá conhecer a cultura e o povo do Brasil mais tarde.

Os marcos fundamentais da sua infância foram  , as constantes viagens a música e a biblioteca do avô materno, Silva da Graça, o fundador do jornal O Século, de tendências liberais.

Fechada no seu espaço individual, cedo toma consciência da sua integração num grupo de maior dimensão quando, na biblioteca do avô, estabelece contacto com informações que chegavam através de panfletos, documentos, programas.

Será, nesta mesma biblioteca, que Vieira da Silva estabelecerá contacto com outras culturas. É através dos livros que descobre a Pintura Ocidental. Tinha liberdade para frequentar teatros e concertos.

Desde a mais tenra idade estuda piano e a própria família incentiva-a a desenvolver o interesse pela a música. Esta é uma paixão que a acompanha toda a vida. O som da música acompanhará o seu acto de pintar. 

A sua curiosidade leva à exploração de vários estilos musicais. Analisa obras, interpretações, estuda e aprofunda conhecimentos com leituras complementares.

O conhecimento da música proporcionará à pintora, a capacidade de integrar diversos agentes pictóricos, nos seus traços abstractos e sempre se Verificará uma aproximação entre a música e a pintura.

Entretanto o ambiente do país, e em Lisboa, era de tensão e de fortes emoções. A conjuntura política, o próprio governo, inspirava instabilidade e os confrontos entre monárquicos e republicanos eram permanentes.

No seu apartamento, de portas encerradas, observa toda os tumultos, e conflitos em que as angústias eram quase permanentes. Ao fazer referência a estes momentos diz: «Vivi muito desenraizada. É verdade, tinha uma casa em Lisboa, família, talvez hábitos até, mas nunca sabia o que o dia seguinte me traria.» (Guy Weelen, 1992, p.18). Qualquer imprevisto, ou acontecimento repentino, desmuronava projectos que na ocasião eram feitos. Projectos não eram possíveis, o futuro mostrava-se instável. A incerteza, as agitações e os sinais que anteviam desastres passíveis de imaginar (ex.: objectos fora do seu lugar, os tinidos dos lustres), antecediam a cruel e fria morte.

Esta figura temível era destruidora prematura de gestos, vozes, amizades acabadas de fazer, transformando as recordações num grande manto de pequenos e fragmentados retalhos da vida diária.

«O amanhã tinha forma de interrogação suspensa!». (Guy Weelen, 1992, p.18)

O facto do ambiente familiar não ter sido afectado pelos conflitos políticos contribuiu para o seu equilíbrio psicológico, apesar do passado ficar impresso na memória mais profunda.

 

 
   

Aos vinte anos Vieira da Silva escolhe Paris para estudar.É na "cidade das luzes" que realizará a maior parte das suas obras, mas, na sua memória, Lisboa permanece como "cidade dos primeiros encantos".

Lisboa é retratada, na sua pintura labiríntica, com uma minuciosa e extraordinária descrição. A luz branca, espelhada nos azulejos que revestem as superfícies dos antigos edifícios desta cidade, é evocada numa composição que sugere rimas, ritmos, assemelhando-se a uma "partitura orquestral".

Esta luz branca é, em parte, diminuída pela névoa em tons de cinzento de Paris, pela bruma que se mistura com outras cores que complementam: azuis e ocres.

O próprio Cézanne reconhecia que o cinzento era a tonalidade a que o pintor devia ser sensível, pois não o sendo não poderá ser considerado pintor. Este tom, esta cor, é aquilo que reúne todas as cores, incluindo o branco.

De Portugal absorve em todos os sentidos e sob todas as perspectivas, a luz, as estações, os cheiros, as cores.

«Já não podia progredir em Lisboa. A pintura que fazia já não me satisfazia. Não sabia como fazer nem o que fazer. Tinha começado a fazer escultura o que me foi muito útil porque me deu um contacto com o real. Reproduzia o que via, era capaz de esculpir uma cabeça. Isso deu-me confiança.» (Jean-Luc Daval, 1994, p.96)

A sua partida para Paris tem como intuito encontrar-se a si própria; pintar tanto o espectáculo que a rodeava (de acordo com os meios de que disponha) como tudo o que era inesperado, a multiplicidade de acontecimentos e as suas contradições. 

 

 

Em Paris, em 1928,  na Academia La Grande Chamière, Maria Helena Vieira da Silva conhece Arpad Szenes, ao lado de quem viveu, durante cinquenta e cinco anos. 

 

    Em Paris, 1960
   

Partilhando uma cumplicidade profunda e intensa no amor pela pintura, as suas obras e vidas interligam-se intimamente em respeito e admiração mútua. 

Sobre eles, dizia Mário Cesariny: «Arpad Szenes e Vieira da Silva são a mais bela história de amor e pintura que jamais conheci». (Eurico Gonçalves, 1992, p.7)

   

 

 

 

 

 

 

 

"Um dia em Yevre"; foto de Vieira da Silva e Arpad Szenes: 

por Maria do Carmo Galvão Teles.

 

   

 

Entre 1929 e 1932 participam ambos nos cursos de Bissière na Academia Ranson. Bissière encontra nas obras destes dois artistas, o seu prolongamento ontológico. A proposta estética de Arpad não se diferencia em muito da de Vieira da Silva.

Apesar de terem estilos diferentes existe em ambos um respeito pela pureza dos meios de expressão seleccionados para o acto de pintar.

Vieira da Silva inicia a partir de 1935, a realização de pinturas abstractas cujas concepções originais a posicionaram como uma das pintoras de vanguarda.

Abandona temporariamente Paris, pois procura reflectir e precisa de solidão. É neste período que volta a Portugal. É igualmente nesta altura que António Pedro organiza uma exposição sua, na galeria U.P. e constata-se que os seus quadros são os primeiros quadros modernos que em Portugal se expõem desde Amadeu Sousa Cardoso.

 

   

 

Quando em 1956 o governo de Salazar nega a nacionalidade portuguesa a Arpad Szenes, então em situação de apátrida, o casal decidiu-se pela naturalização francesa. Portugal com esta atitude não só perdeu uma pintora como repudiou mais um grande nome da sua cultura.

A França é por excelência a pátria que a adoptou, que fez o seu nome atingir ressonâncias de nível internacional, pois Portugal, sua pátria natal, pouco fez por ela e o que fez, fê-lo  tardiamente - apenas nos útimos anos e depois da sua consagração internacional, o país acordou e demonstrou algum interesse, nomeadamente através da criação da Fundação Arpad Szenes -Vieira da Silva que assume a tarefa, de recolha e junção das obras de Vieira da Silva.

 

 

   

O seu falecimento a 6 de Março de 1992, deixou um e irreparável  vazio na pintura deste século.  

Sepultada junto a Arpad e a sua  mãe, num cemitério próximo de Loire, na França, deixa para a  posteridade os seus quadros, alguns dos quais estão expostos  na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva.

 

 

   
     

 

     

 

 

   

 

 

Retratode Vieira,

por Arpad Szenes, Lisboa, 1940

Col. Fund. Calouste Gulbenkian

   

 

     

 

     

 

   

Cronografia

 

1908 - Maria Helena nasce a 13 de Junho, filha única de Marcos e de Maria Graça Vieira da Silva.

 

1911 - 14 de Fevereiro, falecimento do seu pai em Leysin (Suíça).

 

1913 - Estadia em Londres e Hastings onde assiste a uma representação do «Sonho de uma Noite de Verão».

 

1919-1927- Estuda desenho com Emília Santos Braga e pintura com Armando Lucena, professor na Escola de Belas Artes de Lisboa. Dedica-se também a escultura.

 

1928 -Inscreve-se na «Academie de la Grande Chaumiére», em Paris, onde tira o curso de escultura de Bourdelle. A Exposição Bonnard na Galeria Bernheim Jeune é uma revelação. Visita a Itália onde se entusiasma pela pintura de Sena.

 

1929 - Estuda na academia escandinava com o escultor Despiau. Abandona definitivamente a escultura. Estuda pintura com Dufresne, Waroquier, Friesz. Pratica gravura no atelier de Hayter. Frequenta a academia de Fernand Léger e segue os cursos de Bissiére.

 

1930 - Casa com Arpad Szenes, pintor húngaro.

 

1932 - Encontro com Jeanne Bucher. Vieira da Silva descobre a obra de Torres Garcia.

 

1933 - Organização da primeira exposição individual de Jeanne Bucher na qual é apresentado "KÔ e KÔ", livro para crianças, com texto de Pierre Guéguen e ilustrações de Vieira da Silva.

 

1935 - António Pedro - escritor, pintor, encenador - organiza a sua primeira exposição na Galeria UP, em Lisboa. Vieira da Silva deixa Paris para se instalar temporariamente em Portugal.

 

1936 - Em Janeiro, Vieira da Silva e Arpad Szenes, expoem pintura abstracta, no seu atelier de Lisboa. O jornal Paris Soir inicia a publicação dos seus desenhos em simultâneo com "Madame la Grammaire" de Pierre Guéguen. No princípio de Outubro regressa a Paris.

 

1937 - Em Janeiro, expõe de novo na galeria Jeanne Bucher. Hilla Rebay adquire um dos seus quadros para a olecção Guggenheim.

 

1939 - Vieira da Silva e Arpad Szenes decidem viver em Portugal.

 

1940 - Em Junho, o casal parte para o Brasil e instala-se no Rio de Janeiro. Rapidamente estabelecem contacto com poetas e escritores brasileiros, nomeadamente com Murilo Mendes e Cecília Meireles.

 

1942 - O seu atelier torna-se um centro de reunião de jovens artistas como Ruben Navarra, que são fortemente influenciados por Vieira da Silva e Arpad Szenes. O Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro expõe as suas obras.

 

1943 - Decora com azulejos a sala do restaurante da Escola Nacional de Agronomia, "Quilómetro 44".

 

1944 - Expõe na Galeria Askanasy, Rio de Janeiro.

 

1946 - M. Kubitscheck, Presidente da Câmara de Belo Horizonte, convida Vieira da Silva e Arpad Szenes a exporem as suas obras no Palácio Municipal. A Galeria Marian Willard apresenta a sua primeira exposição individual em Nova Iorque, com a organização de Jeanne Bucher.

 

1947 - Em Março, Vieira da Silva retorna a França. Em Junho decorre uma exposição na Galeria Jeanne Bucher.

Pierre Loeb visita o seu atelier e fica interessado pela sua obra.

Permanência em Lisboa nos meses de Dezembro e Janeiro.

 

1948 - Aquisição de "La Partie d'éches" (1948) pelo Estado Francês.

 

1949 - Exposição individual na Galeria Pierre, Paris. Guy Weelen, jovem crítico, organizador de exposições em museus estrangeiros, requer uma autorização para visitar o seu atelier. Fica profundamente interessado pela obra de Vieira da Silva e de Arpad Szenes, que conhecerá uns meses mais tarde. Pierre Descargues publica o primeiro livro sobre a sua pintura, Les Presse Littéraires de France, Paris.

 

1950 - Exposição individual na Galeria Blanche (Estocolmo). Exposição de guaches com Reichel na Livraria-Galeria La Hune, Paris.

 

1951 - O Estado françês adquire La Bibliothèque (1949), depositado no Museu Nacional da Arte Moderna, Paris.

 

1952 - Em França, na região de Lille realiza a primeira exposição individual na Galeria Dupont.

 

1952/53 - Exposição individual na Galeria Redfern, Londres.

 

1953 - Prémio de aquisição na Bienal de S. Paulo.

 

1954 - Primeiro prémio de tapeçaria para Universidade Basileia. Para dedicar-se à pintura, sem quaisquer perturbações e preocupações do dia a dia, pede Guy Weelen que, amigo do casal, seja o elo entre eles e o mundo.

 

1955 - Terceiro prémio na Bienal de Caracas. No atelier de René Bertholo e Maria de Lurdes, efectua uma série de serigrafias.

 

1956 - Por decreto de 15 de Maio, Vieira da Silva e Arpad Szenes adquirem nacionalidade francesa. O estado adquire Jardins Suspendus (1955), depositado no Museu Nacional de Arte Moderna, Paris.

 

1957 - Exposição na Galeria Pórtico-Lisboa. A mãe de Viera da Silva, instala-se definitivamente em Paris. Exposição individual em Genebra.

 

1958 - Quarto prémio do Instituto Carnegie, de Pittsburgh. José Augusto França publica a primeira monografia em Portugal, Artis, Lisboa.

 

1959 - Trabalha nas gravuras destinadas à "L'Inclémence lointaine", poemas de René Char.

 

1960 - Em Março é condecorada com o grau de Cavaleiro e da Ordem das Artes e de Letras. Exposição individual em Paris na Galeria Jeanne Bucher.

 

1961 - Primeira estada em Nova Iorque. O Estado adquire "L'été ou Composition grise" (1960).

 

1963 - Em Janeiro, Vieira da Silva é distinguida com o grau de comentador da Ordem das Artes e das Letras. Grande Prémio Internacional de Pintura Bienal de S. Paulo.

 

1964 - A 7 de Fevereiro morre a sua mãe. É apresentada numa retrospectiva da sua obra pela Galeria de Arte Moderna do Museu Cívico de Turim e pelo Museu de Pintura e de Escultura de Grenobla.

 

1965 - Exposição individual na Galeria Albert Loeb, Nova Iorque.

 

1966 - A Academia de Amadores de Música de Lisboa dedica-lhe uma exposição constituída por obras existentes nas colecções Portuguesas. Recebe a encomenda para a igreja de Saint-Jacques, em Reims.

 

1967 - O Estado adquire "La Bibliothèque"(1955). Exposição individual na Galeria Jeanne Bucher, Paris.

 

1968 - A Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, adquire: Les Degrés (1964), Landgrave (1966) e L'Air du Vent

(1966). Os vitrais realizados em colaboração com Charles Marq, no Atelier J.Simon, são colocados na Igreja de Saint-Jacques.

 

1969 - A Museu Cantini (Marselha) adquire "Le Satellite", (1955). O Estado Francês adquire as maquetes para os vitrais da igreja Saint-Jacques de Reims.

 

1969/70- Exposição na Galeria S.Mamede e Galeria 111- Lisboa. Retrospectiva da sua obra exibida em alguns museus da Europa e na Fundação Calouste Gulbenkian.

 

1971 - Exposição na galeria ZEN,Porto-Museu Fabre, Montpelier.

 

1972 - Ilustrações de «O Banquete» de Platão, edição Hermann.

 

1973 - Desenho de homenagem a Pablo Neruda.

 

1978 - Documentário biográfico " Ma Femme Chamado Bicho"

 

1982 - Biografia por Augustina Bessa-Luís.

 

1985 - Morte de Arpad Szenes no seu Atelier.

 

1986 - Cartaz para a UNESCO.

 

1988 - Medalha da cidade de Lisboa. Ordem do Mérito em França. Grande Cruz da Ordem da Liberdade.

 

1989 - Inauguração do painel de azulejos no Metropolitano Lisboeta (Cidade Universitária). Protocolo para a criação da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Medelha de Ouro da Cidade do Porto.

 

1990 - Apresentação do projecto do Catálogo Raisonné.

 

1991 - Exposição Vieira da Silva na Fundação Juan March em Madrid. Vieira da Silva é promovida ao grau de Cavaleiro da Legião de Honra.

 

1992- Morte de Maria Helena Vieira da Silva em Paris no dia 6 de Março.