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Outras páginas Web
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Teresa
Salema (nome literário de Teresa Maria Loureiro Rodrigues Cadete) nasceu
em Lisboa, em 23 de Outubro de 1947. Concluídos os estudos liceais,
partiu para a Alemanha Federal e, posteriormente, para Berlim Ocidental,
onde, na Universidade Livre, se licenciou em Estudos Germanisticos,
Ciencias Politicas e Ciencias da Comunicaçlo. Ë actualmente Assistente
de Cultura Alemã na Faculdade de Letras de Lisboa. Para além de diversos textos cientiflcos na área da sua especialidade, publicou anteriormente Entre Dois Países, 1978, (sob o nome de Teresa Rodrigues Cadete) e Nós. Outros 1979, (em colaboração com Casimiro de Brito). Educação
e Memória deAndré Maria S. - obteve em 1981 o Prémio de Ficção de Originais Portugueses
instituido pela Associaçlo Portuguesa de Escritores com o patrocínio do
Instituto Português do Livro, sendo o respectivo júri constituído por
Augusto Abelaira, José Palla e Carmo e Manuel Frias Martins.
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TERESA
SALEMA, EDUCAÇÃO E MEMÓRIA DE ANDRÉ MARIA S. - TRÍPTICO, PUBLICAÇÕES
DOM QULXOTE, LISBOA, 1982 Edição
patrocinada pelo INSTITUTO PORTUGUÊS DO LIVRO
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Ester - Texto 1
Ester - Texto 2
Ester - Texto 3
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Ester - Texto 1 A
mãe de Ester também regou gerânios nas janelas. Apagou os traços do
rosto para os filhos, penteou as tranças castanhas à filha, pôs-lhe limão
na ponta das sardas e acenou submissa à decisão do pai em fazer estudar
apenas os primogénitos. Muito
cedo, Ester anichou-se no sofá da sala com uma pilha de clássicos
proibidos, à frente de todos. Quando cresceu mais, foi trabalhar para a
biblioteca municipal, entre janelas g6ticas no centro da cidade, junto à
catedral. Alugou uma mansarda perto do quartel americano. Amava as casas e
jardins onde vivera, porém despediu-se sem tristeza quando a mãe, viúva,
foi morar longe com os irmãos e embalar os netos. Conheceu
um estudante de medicina numa festa de verão e fim de exames. Sentaram-se
junto à água e ele contou-lhe que iria para os continentes debelar as
febres. A música doía, suave e cor de rola, cansada com a mistura de álcool
vulgar no copo de plástico, salsicha no cartão, bocejos de beat, uma
ponta de mostarda. Quase de manhã, tiraram os sapatos junto ao rio e
olharam, mudos, os primeiros remadores de sábado. Fizeram confidencias.
Ester encostou as mãos ao queixo, os cabelos de Bert caíam junto aos
joelhos que abraçava. Sorriram-se. A respiração unia-os, cada vez mais
espaçada. Viram que era dia e tremeram um pouco. Bert aconchegou-lhe o
casaco nos ombros. Ela estendeu as mãos para o levantar e subiram em
passo grave à mansarda. Partiu
sete dias depois. Quando Ester descobriu novos sinais, inchaço e besourar os mamilos, sangue parado, não teve náuseas nem receou o que diriam vozes na cidade.
TERESA SALEMA, EDUCAÇÃO E MEMÓRIA DE ANDRÉ MARIA S. - TRÍPTICO, PUBLICAÇÕES DOM QULXOTE, 1982, p. 15
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Continuavam
a juntar palavras no sábado à noite. Ester inclinava a cabeça nas mãos,
ouvia. Herdámos da velha família um feitio de autoridades, temos de
combate-las. Confesso:
é mais rápido punir que explicar. E
dentro de meses vão para a escola, como vamos ensiná-los a obedecer a
professores irracionais, alguns deles militares reformados. Não
exageres, isso era antigamente. Nem
tudo são extremos, já os fazemos sentar uma hora por dia em jogos mais
calmos. As
vossas teorias todas não ocultam o tempo que não dão aos filhos em
casa. A
mãe de Kati, viva e negra, cabelo ao alto e vestido justo desde o exame
do marido. Repousada, reage. O pai de Jef, olhos oceânicos e tristes
flutuando sobre a barba castanha. Porque
anda o teu filho tão agressivo nas últimas semanas, Ester, falta de pai? Verdade?
Os grupos consolidam-se e o amigo Jef nem sempre está quando ele deseja;
nem sempre a mãe chega a horas, hasteando o casaco de couro para que a
veja dobrar o portão. Em casa tem-na calma, nos joelhos, e não chega? Um
instante, Ester tem saudade das famílias pioneiras e cimentadas na dureza
da terra, velha ilustração onde a avó cultivava de espingarda em punho,
a mãe montava cavalos bravios por ela laçados, todos necessários a
todos. Mas estamos na cidade ‘e já não somos família; porque não.
Temos de apertar o nosso círculo para o aquecer. Um nevoeiro agudo não
cessa de agarrar, em ruas e casas, quem não leva registos. Dizer a André
que o pai volta um dia? Não
vai pó-lo a construir esse fantoche. E explica-lhe como Bert preferiu
ajudar fomes, epidemias. Dificil. Porque mesmo os amigos divididos estão
perto e podem juntar-se em casais de um dia, mesmo noite, se a alma do
filho exige, mostrando os ossos e a face quando a menina pede e tem
perguntas. Para André, tem de desenhar pois nem uma fotografia guardou de
Bert. Fácil
ironia também. Pensa em senhores pais na cidade do mundo, no baixo da
pantufa e do berro. Mas estão lá. E são aladinos de fumo e sucumbem
quando a mãe se evapora de vez e com ela a casa quente, os braços
activos, o colo em ninho. Fica só um pau erguido e oco. Ester sabe que é
assim, e contudo. Porque não aceita o convite de Jef para ir com André
morar na casa enorme desde que a mãe saiu? Porque hesita. Reconstituo-me,
Ester. Nasço
para fora de André que começa a já não me chamar toda, a procurar
imagens com maior gosto rubro e som de chocolate. Que seja o caminho que
tem de ser. Entretanto vou ensaiando. Movo os olhos escuros no espelho,
refaço a trança castanha, único resíduo das mãos da minha mãe. Não
me incomodam as sardas, visto-as com capas de linho, colares de prata
dentada. Ninguém
tem coragem de rebentar comportas; banal repetir, e seguro-me eu também
com algumas barras. Corro ainda muito risco de estalar unhas. Bebo-me nos
bares, revivo-me depois de dozes horas de facas mais que mortas, arrisco
chamas de ronda. Nem sempre posso impedir-me de fumar. Desembacio os olhos
para mãos nervosas que me interrogam e querem medir. Sou também eu a
perguntar donde vens. Reabituar-me ao amor?
TERESA SALEMA, EDUCAÇÃO E MEMÓRIA DE ANDRÉ MARIA S. - TRÍPTICO, PUBLICAÇÕES DOM QULXOTE, 1982, pp. 51, 52
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Já
não podemos voltar ao único ser que éramos? Um
dia perguntou a Ester: E se eu morro enquanto sais ànoite? Ela sorriu,
apalpou-lhe os músculos, garantiu-lhe o louvor e a força mas não o
acalmou. Iam longe os baloiços, o grupo da cidadela desfizera-se no
mergulho da escola. Anos
ora sensíveis, ora secos. Ester surpreendia-os ou a chorar num filme, ou
a castigar-se no ritmo de um jogo. —
Mamã. Na escola luta-se muito (desinfectando arranhões), mas os mais
fortes nem tem jeito para fazer um porquinho com uma castanha, assim,
meter-lhe paus de fósforo, depois colar-lhe umas pontas de feltro. E
fazem mais erros no ditado. Porque. Regressa
menos cansada da biblioteca. Travou conhecimento com um professor, ele
animou-a a retomar estudos, a dar sentido organizado aos alfarrábios que
alinha suspirando por cima dos índices. Se obtivesse bolsa. Seria. Por
enquanto não diz a Jef, inquieto cóm o tremer da folhagem dos dias. E
como sempre, prepara o jantar. —
Gosto muito da cozinha com a luz dos candeeiros, disse àprofessora que
preferia a cozinha em toda a casa. Os
leões regressados da bola engolem em colheres velozes as sopas de todas
as terras que ela retalha, mistura e coze, remexendo planos de futuro.
Como arranjar dinheiro para uma casa, mas quer André? —
Diz o que está dentro desta sopa que a professora mandou escrever
para casa a história de uma velhinha muito simpática que vivia num
sapato velho, com chaminé, e dela saía o cheiro da sopa, devia ser como
esta. Compram
bicicletas na cidade plana e sem ventos. De novo atravessam caminhos de
bosque, alongam as margens dos canais. Vão por exemplo pelo veio sul,
acabam num parque junto ao hospital. Reconvalescentes dão-se o braço,
falando baixinho, recebem com respeito a dádiva da natureza permitida.
Numa tarde assim, Ester inclina de novo a cabeça e apetece-lhe desistir
de planos. Mas não sabe. Filhos
de enfermeiras trepam nas grades de ferro enquanto as mães lá dentro
recolhem sangue e urina. No canal passam barcos de cargas várias para
territórios vizinhos, cortando a água de cobre com a quilha achatada,
sem pressa, a tarde afaga as narinas e os barcos tem janelas floridas,
cortinas, alguma roupa a secar na corda do deck. —
Gostavas de viver num barco? —
E se quando jogo à bola ela caí ao rio.
TERESA SALEMA, EDUCAÇÃO E MEMÓRIA DE ANDRÉ MARIA S. - TRÍPTICO, PUBLICAÇÕES DOM QULXOTE, 1982, pp. 61, 62.
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Educação e Memória de André Maria S. - obteve, em 1981, o Prémio de Ficção de Originais Portugueses instituído pela Associação Portuguesa de Escritores com o patrocínio do Instituto Português do Livro.
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