Teresa Alvarez

 

 

 

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Biografia

 

Docente de Língua e Literatura Portuguesas no Ensino Secundário, Teresa Alvarez nasceu em Lisboa, em 1940. 

 

Multifacetada e sensível às questões sociais, tem desenvolvido trabalho persistente na área da toxicodependência.

 

Dividida entre a escrita e a fotografia, descobriu, recentemente, vocação na pintura.

 

Publicou "Com a Lonjura dos Equinócios" (1986) e "Em Viagem, as Árvores" (1987) na Livros Horizonte, trabalhos que completam o primeiro ciclo da sua obra poética. 

"Do Tempo e do Silêncio" é o seu mais recente título, publicado pela Caminho.

 

 

 

 

 

 

 

 

Citações sobre a obra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Textos online

 

 

Texto 1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto 1

 

Pastorale 


Rasgo as árvores até perceber
como foi
antes das vogais e
regresso a casa.

Tenho um rebanho de palavras à minha espera
Conheço-as bem
como o cajado onde me encosto enquanto
penso
Cubro os ombros de Sol e
fico-me de longe a olhar o rebanho.
As palavras correm livres pelo pasto
É com as mãos que eu as chamo
e elas vêm submissas
É com as mãos que as afasto
«Vão-se embora palavras»
Magoadas, adormecem depois.
Se uma está acordada
eu ponho-a no meu colo
e fico ali
sentada a embalá-la.

Alguém lavra, ao longe, um campo de palavras
e o arado estremece a cada consoante
E passo assim
a tarde toda a dobar-lhes os fios
cantando
enquanto dobo

Aos dias ímpares
Vem uma feiticeira e rouba-me o rebanho
para fazer rezas e ladainhas
- eu finjo que não vejo.

Por vezes
as palavras aproximam-se demais umas das
outras
e o vento chega e
põe reticências nas frases.
E é então que o rebanho estremece.
Eu levanto o cajado
e fico a desenhar lírios e urze brava
e o pasto
é agora o grande sonho que alimenta as
palavras.
Uma palavra emigrante
Vem súbita e descalça
desfazer-se em sentidos para me convencer

E eu digo
Vem-me cá, oh palavra!
de que estrada chegaste?
quantas bocas te disseram?
quem te chorou, palavra?
quem te deixou partir, sozinha e frágil?
Ela prende-se a mim
e suga-me no peito as desgastadas fomes
Inclinada
cai depois num fio de leite

Faz-se um parágrafo na tarde enfraquecida
e eu chamo o rebanho
que caminha agora em rima emparelhada
Sigo as passadas bíblicas
com o cordeiro
a baloiçar-se às costas
e é um livro que entra pelo quintal.

O título é a palavra adormecida
As aves que se recolhem ao silêncio da noite
são a pontuação
e os acentos agudo e grave
são os meus dedos com que, agora, abençoo o
rebanho.

Um deus vem
e assina com tinta invisível

Eu ponho-me ao postigo
em silêncio
a ouvir o poema.

 

in "Do Tempo e do Silêncio", Teresa Alvarez, Editorial Caminho,
Lisboa, 1998