Sophia de Mello Breyner Andresen

 

       

 

       

 

       

 

       

       

       

 

 

 

 

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  Biografia
 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen é, sem sombra de dúvida, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos – um nome que se transformou, em sinónimo de Poesia e de musa da própria poesia. 

Sophia nasceu no Porto, em 1919, no seio de uma família aristocrática. A sua infância e adolescência decorrem entre o Porto e Lisboa, onde cursou Filologia Clássica. 

Após o casamento com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, fixa-se em Lisboa, passando a dividir a sua actividade entre a poesia e a actividade cívica, tendo sido notória activista contra o regime de Salazar. A sua poesia ergue-se como a voz da liberdade, especialmente em "O Livro Sexto".

Foi sócia fundadora da "Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos"e a sua intervenção cívica foi uma constante, mesmo após a Revolução de Abril de 1974, tendo sido Deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista. 

Profundamente mediterrânica na sua tonalidade, a linguagem poética de Sophia de Mello Breyner denota, para além da sólida cultura clássica da autora e da sua paixão pela cultura grega, a pureza e a transparência da palavra na sua relação da linguagem com as coisas, a luminosidade de um mundo onde intelecto e ritmo se harmonizam na forma melódica, perfeita, do poema. 

Luz, verticalidade e magia estão, aliás, sempre presentes na obra de Sophia, quer na obra poética, quer na importante obra para crianças que, inicialmente destinada aos seus cinco filhos, rapidamente se transformou em clássico da literatura infantil em Portugal, marcando sucessivas gerações de jovens leitores com títulos como "O Rapaz de Bronze", "A Fada Oriana" ou "A Menina do Mar". 

Sophia é ainda tradutora para português de obras de Claudel, Dante, Shakespeare e Eurípedes, tendo sido condecorada pelo governo italiano pela sua tradução de "O Purgatório".

 

   

 

   

 

 

 

 

   

 

   

 

   

 

   

 

  Poesia online

Biografia

Retrato de uma princesa desconhecida

Exílio

As Amoras

Poesia

Liberdade

Pátria

Data

Cantar

Porque

A anémona dos dias

São Tiago de Compostela

Cidade

O poema

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

Porque

 

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

 

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

 

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

 

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.

 

 

“No Tempo  Dividido e  Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79

 

   

 

   

 

   

 

   

 

 

A anémona dos dias

  

Aquele que profanou o mar

E que traiu o arco azul do tempo

Falou da sua vitória

 

Disse que tinha ultrapassado a lei

Falou da sua liberdade

Falou de si próprio como de um Messias

 

Porém eu vi no chão suja e calcada

A transparente anêmona dos dias.

 

“No Tempo  Dividido e  Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 67

 

   

 

 

 

   

 

 

 

   

 

 

   

 

 

 

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino

Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule

Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos

Para que a sua espinha fosse tão direita

E ela usasse a cabeça tão erguida

Com uma tão simples claridade sobre a testa

Foram necessárias sucessivas gerações de escravos

De corpo dobrado e grossas mãos pacientes

Servindo sucessivas gerações de príncipes

Ainda um pouco toscos e grosseiros

Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente

Para que ela fosse aquela perfeição

Solitária exilada sem destino

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos

Perdida por silêncio e por renúncia

Até a voz do mar se torna exílio

E a luz que nos rodeia é como grades

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas

no verão. 

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.

 

   

 

 

   

 

   

 

 

   

 

   

 

 

   

 

 

Poesia

 

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

Liberdade

 

Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

Pátria

 

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exatidão

Dum longo relatório irrecusável



E pelos rostos iguais ao sol e ao vento



E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas



— Pedra rio vento casa 

Pranto dia canto alento 

Espaço raiz e água 

Ó minha pátria e meu centro



Eu minha vida daria

E vivo neste tormento

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

Data

 

Tempo de solidão e de incerteza

Tempo de medo e tempo de traição

Tempo de injustiça e de vileza

Tempo de negação



Tempo de covardia e tempo de ira

Tempo de mascarada e de mentira

Tempo de escravidão



Tempo dos coniventes sem cadastro

Tempo de silêncio e de mordaça

Tempo onde o sangue não tem rasto

Tempo da ameaça

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

Cantar

 

Tão longo caminho

E todas as portas

Tão longo o caminho

Sua sombra errante

Sob o sol a pino

A água de exílio

Por estradas brancas

Quanto Passo andado

País ocupado

Num quarto fechado



As portas se fecham

Fecham-se janelas

Os gestos se escondem

Ninguém lhe responde

Solidão vindima

E não querem vê-lo

Encontra silêncio

Que em sombra tornados

Naquela cidade



Quanto passo andado

Encontrou fechadas

Como vai sozinho

Desenha as paredes

Sob as luas verdes

É brilhante e fria

Ou por negras ruas

Por amor da terra

Onde o medo impera



Os olhos se fecham

As bocas se calam

Quando ele pergunta

Só insultos colhe

O rosto lhe viram

Seu longo combate

Silêncio daqueles

Em monstros se tornam

Tão poucos os homens

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

São Tiago de Compostela

Assim pudesse o poema
Como a pedra esculpida
Do pórtico antigo
Ter em si própria a mesma
Compacta alegria
Cereal claridade

Ante o voo da ave
Do espírito que ergue
Os pilares da nave

In Ilhas, Obra Poética III, p. 298

 

   


 

   

 

 

   

 

  Biografia

 

Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-te na luz, no mar, no vento.

"No Tempo Dividido e Mar Novo",

1985: 82

 
   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

1944

 

   

 

 

 

   

 

 

 

   

 

 

 

   

 

 

 

O poema


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Livro Sexto (1962)


   

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

 

 

Obra 

 

 
 

Poesia

Poesia, Coimbra, ed. da autora (3ª ed., Lisboa, Ática, 1975), 1944.

Dia do Mar, Lisboa, Ática, 1947.

Coral, Porto, Livraria Simões Lopes (2ª ed., ilustrada por Escada, Lisboa, Portugália,1968, 3ª ed., s.l., s.d.), 1950.

Tempo Dividido, Lisboa, Guimarães Editores, 1954.

Mar Novo, Lisboa, Guimarães Editores, 1958.

Cristo Cigano, ilustrado por Júlio Pomar, s.l., Minotauro (2ª ed., Lisboa, Moraes, 1978), 1961.

Livro Sexto, s.l. [Lisboa], Salamandra, 1962.

Geografia, Lisboa, Ática (3ª ed., Lisboa, Salamandra), 1967.

Antologia, Lisboa, Portugália (5ª ed., aumentada com prefácio de Eduardo Lourenço, Porto, Figueinhas), 1968.

Grades - Antologia de Poemas de Resistência, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1970.

11 Poemas, Lisboa, Movimento, 1971.

Dual, Lisboa, Moraes Editores (3ª ed., Lisboa, Salamandra, 1986), 1972.

O Nome das Coisas, Lisboa, Moraes Editores (2ª ed., Lisboa, Salamandra, 1986), 1977.

Poemas Escolhidos, Lisboa, Círculo de Leitores, 1981.

Navegações, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda (2ª ed., Lisboa, Caminho), 1983.

No Tempo e Mar Novo, 2ª ed., revista e ampliada, Lisboa, Salamandra, 1985.

Antologia, Porto, Figueirinhas, 1985.

Ilhas, Lisboa, Texto Editora, 1989.

Obra Poética, vol. I, Lisboa, Caminho, 1990.

Obra Poética, vol. II, Lisboa, Caminho, 1991.

Obra Poética, vol. III, Lisboa, Caminho, 1991.

Obra Poética I, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.

Obra Poética II, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.

Musa, Lisboa, Caminho, 1994.

Signo - Escolha de Poemas, Lisboa, Casa Pessoa, 1994.

O Búzio de Cós e Outros Poemas, Lisboa, Caminho, 1997.

 

Prosa

Rapaz de Bronze (O), Lisboa, Minotauro (2ª ed., Lisboa, Moraes, 1978), 1956.

Menina do Mar (A), Porto, Figueirinhas (17ªed., 1984), 1958.

A Fada Oriana, Porto, Figueirinhas (l2ªed., 1983), 1958.

Noite de Natal, Lisboa, Ática, 1960.

Contos Exemplares, Lisboa, Moraes (23ªed., prefácio de António Ferreira Gomes, Porto, Figueirinhas, 1990), 1962.

Cavaleiro da Dinamarca (O), Porto, Figueirinhas (21ª ed., 1984), 1964.

Os Três Reis do Oriente, desenhos de Manuel Lapa, s.l., Estúdio Cor, 1965.

Floresta (A), Porto, Figueirinhas (16ª ed., 1983), 1968.

Tesouro, Porto, Figueirinhas, 1978.

Contos: 1979, ilust. de Vieira da Silva, Lisboa, Galeria São Mamede, 1979.

Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Salamandra (3ªed., Lisboa, Texto Editora, 1989), 1984.

Árvore (A), Porto, Figueirinhas (3ª ed., 1987), 1985.

Era Uma Vez Uma Praia Lusitana, Lisboa, Expo 98, 1997.

 

Ensaio

"A poesia de Cecíla Meireles", Cidade Nova, 4ª série, nº 6, Novembro, 1956.

"Poesia e Realidade", Colóquio - Revista de Artes e Letras, nº 8, 1960.

"Hölderlin ou o lugar do poeta", Jornal de Comércio, 30 de Dez., 1967.

O Nu na Antiguidade Clássica, (col. O Nu e a Arte) Lisboa, Estúdios Cor (2ª ed., Lisboa, Portugália; 3ªed. [revista], Lisboa, Caminho, 1992), 1975.

"Torga, os homens e a terra", Boletim da Secretaria de Estado da Cultura, Dezembro, 1976.

"Luís de Camões. Ensombramentos e Descobrimentos", Cadernos de Literatura, nº 5, 1980.

"A escrita (poesia)", Estudos Italianos em Portugal, nº 45/47, 1982/1984.

 

Traduções pela Autora

A Anunciação de Maria, de Paul Claudel, Paris, Aster, 1962.

O Purgatório, de Dante, Lisboa, Minotauro, 1962.

"A Hera", "A última noite faz-se estrela e noite" (Vasko Popa); "Às cinzas", "Canto LI", "Canto LXVI" (Pierre Emmanuel); "imagens morrendo no gesto da", "Gosto de te encontrar nas cidades estrangeiras" (Edouard Maunick), O Tempo e o Modo, nº 22, 1964.

Muito Barulho por Nada, de William Shakespeare (inédito), [1964].

Hamlet, de William Shakespeare, Porto, Lello, 1965.

"Os reis Magos", tradução de um poema do Eré Frene, Colóquio - Revista de Artes e Letras, nº 43, 1967.

Quatre Poètes Portugais: Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, 2ª ed., Lisboa, Presses Universitaires de France e Fundação Calouste Gulbenkian, 1970.

A Vida Quotidiana no Tempo de Homero, de Émile Mireaux, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. [1979].

Ser Feliz, de Leif Kristianson, Lisboa, Presença, 1980.

Um Amigo, de Leif Kristianson, Lisboa, Presença, 1981.

Medeia, de Eurípedes (inédito) [199-].

 

Registo Áudio

DECLARAÇÕES E LEITURA DE POEMAS PELA AUTORA

"25 de Abril de 1974" - Significado cultural e declamação de Mário de Andrade: "Canção de Sabaú", Rádio Difusão Portuguesa, 9 de Mai., 1974.

"Declamação do poema 'No nosso e no vosso coração'" (Manuel Beira) e declaração sobre a "beleza", Rádio Difusão Portuguesa, 7 de Set., 1974.

Declaração sobre a literatura portuguesa depois de 25 de Abril. (Com Melo e Castro e Vasco Graça Moura, gravado em 28-5-1980 pela Rádio Sueca e posteriormente difundido pela Rádio Difusão Portuguesa.), 1980.

Declaração sobre o Dia Mundial da Criança, Rádio Difusão Portuguesa, 30 de Mai., 1980.

Declaração sobre o significado do uma condecoração, Rádio Difusão Portuguesa, 10 de Jun., 1980.

Sophia de Mello Breyner Andresen diz Navegações, (7''), MVSARVUM OFFICIA, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1983.

"Sophia de Mello Breyner - Personalidade humana e literária: o significado da sua poesia", Rádio Difusão Portuguesa, 25 de Abr., 1985.



POEMAS DITOS OU CANTADOS

"Cantata da Paz", cantada pelo Padre Fanhais (escrita por Rui Paz), Rádio Difusão Portuguesa, 1991.

"Porque", cantada pelo Padre Fanhais (escrita por Francisco Fernes), Rádio Difusão Portuguesa, 1991.

Signo - Escolha de Poemas , (Declamação dos poemas da antologia por Luís Miguel Cintra), Lisboa, Casa Pessoa, 1994.

"A paz sem vencedor...", Som da Poesia, (dito por Isabel Machado) nº 3, Jan., http://www.pagina.de/somdapoesia , 1994

"Sem Título", Som da Poesia, (dito por Isabel Machado) nº 5, Mar./Abr., http://www.pagina.de/somdapoesia , 1994

ANTOLOGIAS EM QUE ESTÁ REPRESENTADA

CRESPO, Ángel (org. e trad.), Antología de la Nueva Poesía Portuguesa, Madrid, Adonais, 1961.

LONGLE, Jean R. (org. e trad.), Contemporary Portuguese Poetry, (edição bilingue) Nova Iorque, Harvey House In., 1966.

TELLES, Sérgio (org.), Encontros, Lisboa, Centro do Livro Brasileiro, 1970.

MEYRELLES, Isabel (org. e trad.), Anthologie de Ia Poésie Portugaise du XIIe au XXe Siècle, Paris, Gallimard, 1971.

WEISSBORT, Daniel e Hélder Macedo (eds.), Modern Poetry in Translation: Portugal, Salisbury, Wilts, Compton Press, 1972.

SALVADO, António (org.), Antologia da Poesia Feminina Portuguesa, s.l., Edições J. F., s.d. [1973].

GOLUBEVA, E.(ed. e trad.), Portugal'skaia Poeziia XX Veka, Moscovo, Khudozhestvennaia Literatura, 1974.

MENERES, Maria Alberta e E. M. de Melo e Castro (orgs.), Antologia da Poesia Portuguesa (1940-1977), Lisboa, Moraes, 1977.

MACEDO, Hélder e E. M. de Melo e Castro (orgs. e trads.), Contemporary Portuguese Poetry - An Anthology in English, Manchester, Carcanet, 1978.

CRESPO, Ángel (org. e trad.), Antología de la Poesía Portuguesa Contemporánea, 2 vols., Madrid, Ediciones Júcar, 1982

SEELS, Marianne (trad.), Smaken Av Oceanerna, (em sueco), Kristianstads, Fibs Lyrikklubb, 1982.

SENA, Jorge de (ed.), Líricas Portuguesas I, 3ª série, 3ª ed., Lisboa, Portugália (1ª ed., 1958), 1984.

WILLIEMSEN, Augusto (trad.), Ik Verheerlijk het Verlend Niet, Dertienhedendaadse Dichters uit Portugal, (em neerlandês), Amsterdão, Meulenhoff, 1985.

Translation: Portugal, vol.XXV, Primavera, Nova Iorque, 1991.

AMARAL, Fernando Pinto (org.), Antología de Poesía Portuguesa Contemporánea, trad. Eduardo Lagagne et alia, Cidade do México, Universidade Nacional Autónoma do México, 1999.

VIDAL, Joaquim (org. e trad.), Malgré les ruines et la mort: Soixante ans de poésie portugaise, Paris, La Différence, 1999.

Publicações em Revistas e Jornais Estrangeiros

"Sophia de Mello Breyner Andresen", Mundus Artium, trad. Jean R. Longland, vol. 7, nº 2, 1974.

"An autumn morning in the Palace at Sintra", Mundus Artium, trad. Alexis Levitin, vol. 11, nº 1, 1979.

"Portrait of an unknown princess", Mundus Artium, trad. Alexis Levitin, vol. 11, nº 1, 1979.

"Translation", Chelsea Review, (não se apurou o nome do tradutor,) nº 41, 1982.

"Seven poems", Mundus Artium, trad. Lisa Sapinkopf, vol. 14, nº 2, 1984.

"Assassination of Simonetta Vespucci", New Orleans Review, trad. Lisa Sapinkopf, vol. 11, nº 2, Summer, 1984.

"The small square", The Times Literary Supplement, trad. Ruth Fainlight, 30 Dez., 1994.

"The house by the sea", The Literary Review, trad. Alexis Levitin, vol. 38, Summer, 1995.

"Portrait of an unknown princess" e "Morning walk", (não se apurou o nome do tradutor,) The Prague Revue, nº 5, Winter-Spring, 1998.

 

Primeiras Edições

"Poesia" ["Senhor", Poesia I], Cadernos de Poesia, nº 1, 1940.

"O vidente e outro Poema" ["O vidente", Poesia I], Aventura - Revista Bimestral de Cultura, nº 1, Maio, 1942.

"Poema" ["Sinto os mortos", Poesia I], Variante, Inverno, 1943.

"Aos outros dei aquilo que não eram" ["Saga", No Tempo Dividido], Unicórnio - Antologia de Inéditos de Autores Portugueses Contemporâneos, Maio, 1948.

"Soneto a Eurídice" [Idem, No Tempo Dividido], Unicórnio - Antologia de Inéditos de Autores Portugueses Contemporâneos, Maio, 1951.

"As Três Parcas" [Idem, Mar Novo], Europa - Jornal de Cultura, nº 1, Jan., 1957.

"Assassinato de Simoneta Vespucci" [Idem, Coral], Estada Larga (Antologia do Suplemento "Cultura e Arte" de O Comércio do Porto, editado por Costa Barreto), nº 3, Porto, Porto Editora, s.d. [1963?].

"Poema" [Idem, Geografia], O Tempo e o Modo, nº 12, 1964.

"Manuel Bandeira" [idem, Geografia], Colóquio - Revista de Artes e Letras, nº 41, 1966.

"Camões e a Tença" [Idem, Dual], Ocidente - Revista Portuguesa de Cultura, nº 415, vol. LXXXII, Novembro, 1972.

"Cíclades" [Idem, O Nome das Coisas ], Nova - Magazine de Poesia e Desenho, ed. Herberto Hélder, Inverno, 1975.

"Poeta em Lisboa" ["'Fernando Pessoa ou Poeta em Lisboa'", O Nome das Coisas]; "A civilização em que estamos" ["O rei de Ítaca", O Nome das Coisas], Critério - Revista Mensal de Cultura, nº 6, Abr., 1976.

"Destruição" ["Tempo de não", Ilhas], Loreto 13 - Revista Literária da Associação Portuguesa de Escritores, nº 1, Jan., 1978.

"Persona" [Idem, Ilhas]; "Fragmento de Os Gracos" [Idem, Ilhas] - Colóquio-Letras, nº 56, 1980.

"Tão Grande a Dor"; "Salgueiro Maia"; "Fidelidade"; "À Maneira de Horácio" [Musa], Jornal de Letras, 23 Fev., 1994.

 

Poemas não incluídos na Obra Poética

"Juro que venho pra mentir"; "És como a Terra-Mãe que nos devora"; "O mar rolou sobre as suas ondas negras"; "História improvável"; "Gráfico", Távola Redonda - Folhas de Poesia, nº 7, Julho, 1950.

"Reza da manhã de Maio"; "Poema", A Serpente - Fascículos de Poesia, nº 1, Janeiro, 1951.

"Caminho da Índia", A Cidade Nova, suplemento dos nº 4-5, 3ª série, Coimbra,1958.

"A viagem" [Fragmento do poema inédito "Naufrágio"], Cidade Nova, 5ª série, nº 6, Dezembro, 1958.

"Novembro"; "Na minha vida há sempre um silêncio morto"; "Inverno", Fevereiro - Textos de Poesia, 1972.

"Brasil 77", Loreto 13 - Revista Literária da Associação Portuguesa de Escritores, nº 8, Março, 1982.

"A veste dos fariseus", Jornal dos Poetas e Trovadores - Mensário de Divulgação Cultural, nº 5/6, 2ª série, Março/Abril, 1983.

"Oblíquo Setembro de equinócio tarde", Portugal Socialista, Janeiro, 1984.

"Canção do Amor Primeiro", Sete Poemas para Júlio (Biblioteca Nacional, cota nº L39709), 1988.

"No meu Paiz", Escritor, nº 4, 1995.

"D. António Ferreira Gomes. Bispo do Porto"; "Naquele tempo" ["Dois poemas inéditos"], Jornal de Letras, 16 Jun., 1999.

 

Entrevistas

COELHO, Alexandra Lucas, "No jardim de Sophia", Público, 12 Jun., 1999.

COELHO, Eduardo Prado, "Sophia de Mello Breyer Andresen fala a Eduardo Prado Coelho", ICALP Revista, nº 6, Ago./Dez., 1986.

COIMBRA, Sérgio, Independente, 13 de Out., 1995.

COSTA, Soledade Martinho, Diário de Lisboa, 31 de Jan., 1979.

FRANÇA, Elisabete, Diário de Notícias, 24 de Nov., 1994.

GUERREIRO, António, Expresso, 15 de Jul., 1990.

LEMOS, Vergílio de, Ler, nº 7, Círculo de Leitores, 1989.

LEMOS, Vergílio de, Oceanos, Julho, 1990.

PASSOS, Maria Armanda, Jornal de Letras, 16 de Mar., 1982.

PEREIRA, Miguel Serras, Jornal de Letras, 5 de Fev., 1985.

SIGALHO, Lúcia, Vida Mundial, 31 de Mai., 1989.

SILVA, Sérgio S., Semanário, 7 de Jan., 1989.

TOMÉ, Luís Figueiredo, Diário de Notícias, 20 de Dez., 1987.

VASCONCELOS, José Carlos de, "Sophia: a luz dos versos", Jornal de Letras, 25 de
Jun., 1991.

ZENITH, Richard, Translation: Portugal, vol. XXV, Primavera, Nova Iorque, 1991.

 

Na Comunicação Social

"Sophia de Mello Breyner na A.P.E.": "A liberdade, para mim, não é unilateral: abrange o respeito pela liberdade dos próprios inimigos", O Século, 15 de Abr., 1976

"Respeito pelo pluralismo e defesa total da liberdade de criação e expressão", Diário de Notícias, 15 de Abr., 1976.

"O direito à cultura é um direito fundamental.", A Capital, 30 de Abr., 1977.

"Os julgamentos de Moscovo", A Capital, 27 de Jul.,1978.

"Porque apoio Eanes", O Jornal, 28 de Nov., 1981.

"Mário Soares estará sempre onde estiver a liberdade", Revista do Povo, Janeiro, 1986.

"Tenho esperança mas não confiança", Diário de Notícias, 1 de Jan., 1990.

"Falar do que vi", Ler, Círculo de Leitores/Instituto Português do Livro e da Leitura, Ago./Set., 1990.

"Sophia contra o Acordo Ortográfico", Jornal de Letras, 25 de Jun., 1991.

"Naquele Tempo" [sobre Mário Soares], Jornal de Letras, 7 de Dez., 1994.

 

Outras intervenções

Poesia Sempre I [Antologia de poesia portuguesa seleccionada pela Autora e Alberto de Lacerda] , Lisboa, Livraria Sampedro, 1964.

Poesia Sempre II [Antologia de poesia portuguesa seleccionada pela Autora], Lisboa, Livraria Sampedro, 1964.

[Introdução,] Catálogo da Exposição de Escada, Lisboa, Livraria São Mamede, 1979.

"Sicília", Grande Reportagem, nº 5, Ano II, 2ª série, Publicações Dom Quixote, 1991.

Primeiro Livro de Poesia: Poemas em Língua Portuguesa para a Infância e a Adolescência, ilustrado por Júlio Resende, Lisboa, Caminho, 1991.

[Prefácio], APARÍCIO, João, À Janela de Timor, Lisboa, Caminho, 1997.

 

 

 
 

 

 

   
   

 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 
Ensaística

 

Teses Académicas

AMARAL, Fernando Pinto do, "Sophia e Eugénio de Andrade", Discurso e Imagens da Melancolia na Poesia do Séc. XX [Tese de Doutoramento], Lisboa, Faculdade de Letras de Lisboa, 1997.

BORGES, Maria João Quirino, A Arte Poética de Sophia de Mello Breyner como "Arte do Ser": Os Contos como Explicação de uma Poética [Tese de Mestrado], Lisboa, Faculdade de Letras de Lisboa, 1987.

Em Torno do Conceito de "Poesia Pura": Cinatti, Sophia e Eugénio de Andrade (A poesia como investidura, iniciação e respiração) [Tese de Doutoramento], Lisboa, Faculdade da Letras de Lisboa, 1996.

CEIA, Carlos, The Way of Delphi - A Reading of the Poetry of Sophia de Mello Breyner Andresen [Tese de Doutoramento], Cardiff, Universidade do País de Gales, 1990.

KLOBUCKA, Anna, O Formato Mulher: As Poéticas do Feminino na Obra de Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Teresa Horta, Luíza Neto Jorge [Tese de Doutoramento], Cambridge/Massachusets, Harvard University, 1993.

MONTERO, Inmaculada Báez, Literatura Infantil: Sophia de Mello Breyner Andresen [Tese de Licenciatura], Santiago de Compostela, Universidade de Santiago de Cospostela, 1986.

VASCONCELOS, Maria Elizabeth de, A Harmonia da Procura: a Obra de Sophia de Mello Breyner e seu Modelo Ciclo [tese mimeografada], Rio de Janeiro, Faculdade de Letras da Faculdade Federal do Rio de Janeiro, 1980.

 

 

Outros Estudos, Artigos, Textos, Recensões e Prefácios 

 

A.V.V., "Depoimentos" [sobre a atribuição do Prémio Camões], Diário de Notícias, 12 de Jun., 1999.

ALEGRE, Manuel, "Perto da pulsação inicial", Jornal de Letras, 16 de Jun., 1999.

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AMARAL, Fernando Pinto do, "A aliança quebrada", Jornal de Letras, 16 de Jun., 1999.

BARADEZ, François, "Jardim secreto"; "Mosaísta dos nossos sonhos", Letras e Letras, 15 de Mai., 1991.

BELCHIOR, Maria de Lourdes, "Itinerário poético de Sophia", Colóquio - Letras, nº 89, 1986.

BELLINE, Ana Helena Cizotto, "Mito e história na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen", Revista de Estudos Portugueses e Africanos, nº 7, São Paulo, 1986.

BESSE, Maria Graciete, "Os percursos exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen", Letras e Letras, nº 31, 1990.

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VIANNA, Fernando Mendes, "Sophia de Mello Breyner Andresen", Revista do Livro ("Órgão do Instituto Nacional do Livro/Ministério da Educação"), nº 13, Ano IV, Rio de Janeiro, 1959,

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XAVIER, Leonor, "Sophia de Mello Breyner Andresen. 'O seu olhar ensina o nosso olhar'", Máxima, Agosto, 1999.

 

 

"Urbano Tavares Rodrigues: As Máscaras Finais" [recensão], Colóquio - Revista de Artes e Letras, nº 29, 1964.

"Sophia de Mello Breyner recebeu o Prémio Teixeira de Pascoaes" [inclui as palavras do Poeta com o título: "A palavra do poeta"], Diário de Noticias, 16 de Dez., 1978.

"Notas sobre Navegações", Prelo, nº 1, Dezembro, 1983.

[Introdução a] ANDRESEN, S. M. B., Hélder Macedo, José Luís Porfírio e A. Ramos Rosa, Menez, Lisboa, Galeria 111/Livros Quetzal, 1998.

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 

 

 

   

Sobre Sophia

 

 

SOPHIA

Da lusitana antiga fidalguia
um dizer claro e justo e franco
uma concreta e certa geometria
uma estética do branco
debruado de azul.

Sua escrita é de nau e singradura
e há nela o mar o mapa a maravilha. 

Sophia lê-se como quem procura
a ilha sempre mais ao sul.

Manuel Alegre

 

 

PARA SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Vejo-te sempre vertical num apogeu azul
em que celebras as coisas e pronuncias os nomes
com a claridade das cúpulas e das evidências solares
Em ímpetos claros vais figurando o cristal
que dos actos transferes para as palavras límpidas
(…)
És o dia a claridade do dia dominado
e de cimo em declive és o oriente amanhecendo
Frágil é o teu poder? Frágil e perfeitíssimo
(…)

António Ramos Rosa

 

 

Na poesia portuguesa e europeia, Sophia é, por certo, um dos poetas que mais perto está da pulsação inicial e mágica da palavra. E por isso a sua poesia, como toda a veradeira e grande poesia, pode ser dita, cantada e até dançada. 

Manuel Alegre
(na apresentação de Musa, 12/94)

 

 

É dessa aliança entre a misteriosa graça das musas e o exigente rigor de uma ética muito antiga que vive a escrita de Sophia, sempre bem ciente da degradação do "tempo dividido" que nos cabe, mas insistindo em celebrar o que resiste

Fernando Pinto do Amaral
Público, 24/12/94

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen est célébrée depuis un demi-siècle comme l'une des voix les plus pures de toute la poésie portugaise. On dirait que la parole poétique émane d'elle naturellement, à la fois simple et majestueuse, idéale et proche du réel.
Cette aristocrate nourrie de culture grecque, au regard plein d'images de la mer fabuleuse et de la terre aimée, qui a su admirablement chanter la grandeur de Pessoa, s'est toujours volue une amie du peuple (...) Catholique, elle a pourtant un sentiment païen, proche de celui de Ricardo Reis, de l'indifférence de la nature, de la brièveté de la vie, de la soumission nécessaire au
destin. Elle renouvelle ainsi les grands thèmes du lyrisme classique (...). 

Robert Bréchon
in Georges Le Gentil, La littérature Portugaise

 

 

Sophia de Mello Breyner, grand écrivain portugais, poète fêté dans le monde entier, va nous enchanter, d'autant plus que les éditions de La Différence ont la bonne idée de publier le texte origina de Navigations face à la traduction française.

Elle, 19/12/88

 

 

O mundo de Sophia é povoado por deuses e não por homens. Por isso, é mais fácil encontrá-lo nos vestígios e nos lugares da civilização grega do que no mundo em que habitamos. Por vezes, esta poesia chega a ser de uma profunda desumanidade:
sonhando com a perfeição, o equilíbrio e a harmonia (...) ergue-se para além do mal e da imperfeição que nos são consubstanciais e faz reviver um tempo sem mácula. (...) É aí que a poesia se dá como revelação e como relação com o Todo, como uma espécie de linguagem natural que decorre simbolicamente das coisas. (...) Impossível não sermos tocados pela força bem perceptível desta positividade. Sophia faz-nos sentir o júbilo de uma poesia que avança contra ou à margem do sentido negativo da História (...) e atribui ao poeta a sua missão original de celebração.

António Guerreiro
Expresso, 15/7/89

 

 

Sophia Andresen, ao falar de justiça, de liberdade, de plenitude, está simultaneamente a falar de ritmos; está a excluir léxico; está a incluir organizações de tecidos vocabulares por onde o pano do discurso se desfralda em tela de prodígios.

Joaquim Manuel Magalhães
O Independente, 23/2/90

 

 

Sophia publicou em 1944 o primeiro livro (Poesia), acolhido com entusiasmo pelos neo-realistas. Mas passou ao lado do neo-realismo, do surrealismo, de qualquer escola, em 50 anos de vida literária, assinalados pelo prémio correspondente da A.P.E.

Elisabete França
Diário de Notícias, 24/11/94  

 

 

Sinónimo absoluto de poesia

Dizemos «Sophia» como se esta palavra fosse sinónimo absoluto de poesia.
Dizemos «Sophia» e a nossa memória enche-se do som que as palavras têm.
Dizemos «Sophia» e de repente o ar é límpido, as águas transparentes, há sempre uma casa na falésia e o sol faz rebentar o calor na cal das paredes.
Dizemos «Sophia» e todas as flores e todos os peixes têm nome, e as crianças tornam-se mais ricas quando os encontram. Dizemos «Sophia» e não precisamos de dizer mais nada.

Alice Vieira 

 

 

Dançando num trono invisível

Ao falar de Sophia ocorrem-me duas ordens: a dos deuses e a dos homens. Ela participa de ambas. De onde o «ph» dela que todos aceitamos. Não só a sabedoria, a totalidade do saber, a claridade, aquela leveza e sentido extremo do espírito cívico e da lealdade. Vejo a Sophia dançando num trono invisível, acertando sempre quando é preciso acertar e, brincando, dizendo verdades terríveis, com a pontaria cega das crianças e dos loucos. Além disso, cozinha bem, tem umas pernas muito bonitas, faz-me sempre rir. Imagino que se Camões tivesse uma princesa preferida, ela seria a Sophia.

Margarida Gil

 

Apego às coisas essenciais

Mais do que o conhecimento, a minha mãe transmitiu-nos, desde a infância, o apego intransigente às coisas essenciais da alegria de viver: o bom pão, o bom vinho, o mar, o Verão, a luz. Essa é uma herança preciosa. Porque essa é, na verdade, a base do conhecimento e da vida.

A minha mãe ainda hoje, com 80 anos, tem uma maior avidez de mar ou de luz do que de mais livros. E vive com a mesma intensidade todas essas coisas essenciais. Sobretudo, vive com a mesma fúria cada instante. Porque ela não é depressiva ou melancólica. Pelo contrário, ela enfrenta com fúria – uma vez mais, é essa a palavra – todas as perdas. Essa forma de viver, de amar cada instante que a vida nos dá, contagiou-nos profundamente.

Maria Sousa Tavares 

 

 

Obrigado pela sua obra

O Prémio Camões é hoje, sem dúvida, o reconhecimento maior e mais nobre que um escritor de língua portuguesa pode receber na sua área linguística. A obra de Sophia, pela sua regularidade, pelo seu equilíbrio, pela sua nobreza, pela sua pureza, justifica inteiramente o prémio.

Os leitores de Sophia, e contam-se por muitos milhares, de todas as idades e de todas as formações, que conhecem a música dos seus poemas e, frequentemente, os sabem de cor, não deixarão de regozijar-se por esta decisão, que os identifica com um prémio que é de todos nós que falamos português. A Editorial Caminho, que publica a obra poética de Sophia, associa-se naturalmente a este coro de aprovações. Parabéns, Sophia, pelo prémio. E obrigado. Obrigado pela sua confiança em nós, obrigado pela sua obra.

Zeferino Coelho, Jornal de Letras, Artes e IdeiasL, 16 de Junho de 1999

 

 

 

 

 

   
   

 

 

 
   

 

 

 

 

   

 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 
   

Prémios e distinções

 
Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1964 (Canto Sexto)


Prémio Teixeira de Pascoaes, 1977 (O Nome das Coisas)


Prémio da Crítica, da Assoc. Internacional de Críticos Literários, 1983 (pelo conjunto da obra)


Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus, 1989 (Ilhas)


Grande Prémio de Poesia Inasset/Inapa, 1990 (Ilhas)


Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, 1992 (pelo conjunto da obra)


Prémio 50 Anos de Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, 1994


Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos


Homenageada do Carrefour des Littératures, na IV Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia, 1996.

 

Prémio da Fundação Luís Miguel Nava, 1998 (pelo livro O Búzio de Cós e Outros Poemas)


Prémio Camões, 1999 (pelo conjunto da obra) 


Prémio Rosalia de Castro, do Pen Club Galego, 2000

 

Prémio Max Jacob Étranger, 2001

 

Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
   

 

 

   

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

   

 

 

   

 

Homenagens

 

Oitenta rosas para Sophia

Alexandra Lucas Coelho, PÚBLICO, 06 de Novembro, 1999 

Sophia é uma forma absoluta de estar no mundo à espera das coisas belas. Cresceu entre rosas nocturnas e manhãs de mar. Escreveu desde o princípio. Lutou com a palavra, quando foi preciso. Não teve medo. Continuamos a aprender com ela. Faz hoje 80 anos.

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
"Dia do Mar" (1º ed. Ática 1947, incluído no vol. I da "Obra Poética", ed. Caminho)

Era mesmo assim, como no primeiro verso deste poema: noite escura, a jovem Sophia saía para o jardim da avó, semi-abandonado, colhia braçadas de rosas e trazia-as para casa. Punha-as numa jarra, frente à janela do seu quarto. E, enquanto escrevia, desfolhava-as e trincava-as. Não é preciso perguntar porquê: o poema diz.

O que apetece hoje, dia em que Sophia de Mello Breyner Andresen faz 80 anos, é levar-lhe uma braçada de rosas para ela pôr junto à sua janela, com vista para o jardim que Gonçalo Ribeiro Telles desenhou, e para o rio. Na casa da Travessa das Mónicas, em Lisboa, de que Sophia tanto gosta e onde vive praticamente desde que deixou o Porto e veio para Lisboa.

Foi precisamente no Porto que nasceu, na Quinta do Campo Alegre, numa casa grande, sempre cheia de irmãos - João Henrique, Thomaz e Gustavo - , de primos - entre eles, Ruben A. -, de tios, de avós, rodeada de um parque enorme, tão grande que se podia caçar.

O pai de Sophia, João Henrique, como todos os filhos primogénitos da família Andresen, caçava. As crianças andavam de bicicleta e aprendiam pássaros, árvores e flores.

O nome Andresen vem do bisavô Jan Henrik, dinamarquês chegado ao Porto no século passado para bem se suceder em negócios de navegações e vinhos.

Mas foi com o avô Thomaz, do culto e aristocrático lado Mello Breyner, que Sophia entrou na poesia, antes ainda de saber ler. Dizer de cor poemas de Camões ou de Antero era tão natural como passear num bosque, ou tomar banho no mar. A isto, Sophia chamou uma "relação vital" com a poesia.

O mar era nas férias e as férias grandes eram a Granja, a praia ao lado de Espinho onde os Mello Breyner Andresen alugavam uma grande casa branca todos os anos. Abria-se a porta da sala e era a areia.

É dos dias luminosos na praia que vem essa "coisa mais antiga" de que Sophia se lembra: "uma grande maçã vermelha" pousada em cima da mesa num quarto aberto para o mar. Uma felicidade "nua e inteira" invocada num belíssimo texto que leu em 1964, na entrega do Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores a "Livro Sexto".

Aos doze anos já escrevia mais do que lia. Quando a mãe, Maria Amélia, grande leitora, a repreendia por não ler mais, Sophia observava: "Sou escritora, não leitora." Porque não há tempo para tudo e é preciso estar livre para olhar, para saber. Sophia sempre o soube e de acordo com isso vive, diante desse real de mistério e maravilha que toda a poesia - acredita ela - procura revelar.

Entre um Verão e outro Verão estudava no Colégio do Sagrado Coração de Maria, no Porto, de que gostava "imensíssimo" e onde esteve entre os sete e os 17 anos, até ir para a Faculdade de Letras de Lisboa estudar Filologia Clássica. Desistiu nos primeiros anos e voltou para o Porto.

Foi ainda no Porto, em 1944, que publicou o seu livro de estreia, "Poesia", numa edição de 300 exemplares paga por seu pai. O volume compunha-se de uma selecção dos muitos poemas que Sophia concluíra entre os 16 e os 23 anos, a altura da vida em que escreveu mais (segundo contou em 1991 numa longa e magnífica entrevista a José Carlos Vasconcelos, para o "JL").

Mas a primeira vez que apareceram publicados poemas de Sophia foi, pela mão de Luiz Forjaz Trigueiros, em 1940, na primeira série dos "Cadernos de Poesia", revista fundada por Ruy Cinatti, Tomaz Kim e José Blanc de Portugal

Como Jorge de Sena - que Sophia conheceu numa noite de ensaio no São Carlos e que, antes da partida para o Brasil, ia almoçar a casa dela duas vezes por semana, pretexto para se porem os dois a dizer poesia... - Ruy Cinatti foi um dos grandes amigos de Sophia.

Já casada com Francisco Sousa Tavares e a viver na casa da Travessa das Mónicas, a poeta recorda - num texto belíssimo - como uma madrugada, depois de um espectáculo, ao chegarem a casa encontram Cinatti, sentado no chão com uma arca aberta, rodeado das cinco crianças - os filhos de Sophia: Isabel, Maria, Miguel, Sofia e Xavier -, a desdobrar histórias e máscaras e tecidos de Timor. Num dos regressos do poeta-antropólogo.

Era assim a casa das Mónicas nesse tempo antes da revolução: poetas, pintores, figuras da oposição, entravam às horas mais bizarras, recitavam-se poemas, conversava-se madrugada fora, contra as horas obscuras da ditadura. E no centro de tudo, Sophia, a que esperava "o dia inteiro e limpo", que havia de vir.

E veio. E no primeiro 1º de Maio que os portugueses puderam celebrar juntos como nunca em liberdade, Sophia disse: "A poesia está na rua".

Sophia, que em 1956 publicara "Mar Novo" como uma resposta poética contra o afastamento do projecto "Mar Novo" do seu irmão arquitecto João Andresen, que em 1958 apoiara Humberto Delgado, que participara na redacção de vários libelos contra o regime, estava entre os que não tinham medo. Porque era assim - explicou ela uma vez - que, então, as pessoas se dividiam: os que tinham medo e os que não tinham.

Além da poesia, deu-nos "O Cavaleiro da Dinamarca" (e todas as outras histórias que lemos em pequenos), contos, traduções magníficas de Dante ou Shakespeare. E essa forma absoluta de estar diante do mundo à espera das coisas belas. Sem medo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 
 

 

Entrevista

Maria Maia entrevista Sophia de Mello Breyner Andresen
(em Jornal de Poesia, Lisboa, 10 de Maio de 2000)


Maria: Quando estive aqui com o Fernando Mendes Vianna há dois anos, a sra falou um pequeno trecho da Odisseia em grego. Falou de memória

Sophia: Falei em grego? Eu não sei grego, só uns versos.

Maria: Falou alguns versos... a senhora é muito marcada pela visão do mundo grego?

Sophia: Sim, sim, evidentemente.

Maria: Como assim?

Sophia: É natural, não é? É muito parecido. Como na Grécia tem a mesma cor, se come azeitona, figo, azeite. É como a Itália, não?
Sabe, nós não sabemos ao certo como nos marcam as coisas que verdadeiramente nos marcaram. É como um amigo que perguntou: como fazer verso?

Maria: Não se explica.

Sophia: Eu pelo menos não explico. Só as pessoas que fazem maus versos podem explicar. O que marcou e o que fez verso.

Maria: Quando a senhora começou a escrever?

Sophia: Quando comecei escrever eu não sabia escrever. Eu tinha uma pena enorme (rindo ). Eu pedi a minha mãe papel e caneta. Escrevia uma grafia que eu tinha imaginado, imagine você...Uns desenhos de umas letras inventadas por mim. Eu contava em voz alta.

Maria: Muito criança ainda, antes de ser alfabetizada?

Sophia: É. Foi. E depois aprendi a ler e a escrever. Comecei a
escrever cedo, sim. 14 anos, 12 anos. Primeiro mal, depois melhor, não é?

Maria: E publicou com uns vinte e poucos anos.

Sophia: 23 ou 24, já não lembro mais. Primeiro livro, sim. (pausa.
Retoma decidida). Não, publiquei antes. Em revistas e coisas assim. Depois publiquei um livro. Creio que aos 24 anos.

Maria: Isso em 44. O livro Poesias, não é?

Sophia: Poesia. No singular.

Maria: Poesia. É. Depois então em 64 ganhou um prémio importante aqui em Portugal.

Sophia: Um prémio importante? Sim, foi no ano passado.

Maria: O prémio Camões, no ano passado. Mas em 1964 um livro de poesia da senhora já tinha sido premiado.

Sophia: Sim.

Maria: E sua relação com a poesia brasileira, conheceu poetas
brasileiros?

Sophia: Bem, eu acho que tive uma relação muito profunda com o João Cabral e com as coisas que ele procurava ( pausa ). Eu não pensava muito nisso. Nuca tive muita teoria. Fui sempre uma pessoa muito antiteórica. Mas encontrei muita coisa. Quando encontrei João Cabral ele disse-me assim: eu tenho muita admiração por si...que é que ele disse? ( pausa) como é que foi que ele disse? (procurando na memória) ...porque você é uma poeta que usa muito substantivo concreto.( ri ). Eu pensei: é? Mas é verdade, não é? Nos encontramos
em Sevilha. Nós fomos com uns amigos brasileiros que iam lá
convidados pelo João, para a casa dele. E o João disse: por que vocês não vêm e ficam no hotel? E fomos e ficamos num hotel lindo que o João descobriu. Era lindo, era um antigo palácio de uma família sevilhana. Já não existe, sabe? ( dando um trago no cigarro). Já destruíram ( jogando as cinzas no cinzeiro). O turismo é uma desgraça em toda parte do mundo, não é?

Maria: Vai acabando tudo, nivelando, pasteurizando... O encontro com João Cabral foi quando ele era cônsul em Barcelona, não? E a partir daí a senhora entrou em contanto com a poesia brasileira?

Sophia: Não. Eu já tinha lido o Manuel Bandeira. Já tinha lido vários poetas brasileiros. É que nesse tempo havia uma relação muito mais próxima, sabe? Porque o mundo não estava tão confuso como agora. Sai tanto livro. Sai tanta confusão. Agora um poeta se projecta, fala-se de sua obra, não é porque escreveu livros bons. É porque tem uma boa pessoa encarregada de sua propaganda.

Maria: De preparação na mídia, nos jornais. É verdade.

Sophia: Naquele tempo não. Vinha um amigo que dizia assim: - "Li ontem um poeta brasileiro extraordinário". Ele não tinha nada a ver com propaganda alguma. Mas a gente, se queria, lia o livro.

Maria: E a senhora considera importante esta relação entre a poesia portuguesa e brasileira?

Sophia: Bem, eu considero importante a relação entre toda a poesia. A portuguesa com a brasileira é importante, como é importante a relação com a poesia africana. A poesia moçambicana é óptima, não é? Porque são países que falam português. Quer dizer, tem uma experiência de linguagem falada, de uma língua só.

Maria: E agora, ultimamente a senhora fez O Búzio de Cós, o último livro publicado foi O Búzio de Cós. E continua escrevendo?

Sophia: Sim, continuo.

Maria: E o sentido do trágico? A sua poesia é trágica, no sentido
grego... A senhora se considera da mesma tradição de Fernando Pessoa?

Sophia: Não acho muito parecido com a tradição do Pessoa não. ( pausa longa ) O pessoa é um homem que para escrever renunciou a viver. Isso não se parece comigo nem com o João Cabral, não é?

Maria: A sua é uma poesia de quem vive, não é?

Sophia: Sim. É uma poesia de quem vive.

Maria: A senhora tem um artigo, um ensaio, sobre a Cecília Meirelles.

Sophia: Tenho. Foi o primeiro artigo que fiz na minha vida, não é
mesmo? Porque eu não gostava nada de artigos. Mesmo hoje em dia não gosto nada. Mas naquela época eu gostava menos, sabe?

Maria: E por que escreveu sobre a Cecília?

Sophia: Porque havia uma homenagem à Cecília e me convidaram para ir.
Então eu fiz o artigo. Correu bem. Houve muita palma na minha
intervenção. Mas a Cecília não foi, você sabe? Então aconteceu uma coisa, uma história engraçada. Ela não foi porque tinha uma amiga - agora se pode dizer porque a Cecília já morreu e a amiga também. E a amiga dela era uma mulher feia, fazia muita intriga. E disse à Cecília que éramos comunistas. A Cecília teve medo. Tratou a sério e não veio. Eu fui e também li os poemas dela. Depois ela ficou um bocado escandalizada, não é? Então a Cecília no Natal mandou uma grande caixa com frutos de natal, sabe? Frutas secas, nozes, essas
coisas de natal. Você sabe que todos os natais eu ponho na árvore de natal ainda hoje? Mas eu nunca agradeci à Cecília.

Maria: Foi um equívoco que aconteceu entre vocês. Lamentável.

Sophia: (Levantando-se para pegar o segundo cigarro). Foi pateta. Mas é melhor perdoar, não? ( longo silêncio. Sophia levanta-se, pega a carteira de cigarros na mesa em frente ao sofá e leva para o seu escritório, contíguo à sala onde estamos sentadas). Vou guardar para não fumar mais. Fumo muito pouco. Eu tenho muito pouco cigarro. É uma
coisa terrível, porque não se vendem cá estes cigarros. Então quando vem um amigo, me traz.

Maria: Ah! Não se vendem aqui em Portugal?

Sophia: É. E também tenho que fumar pouco, não é? Então meus amigos dizem-me assim: - "Eu mando pouco para você fumar pouco." [Espero. Depois de instantes, Sophia retorna com um cigarro, que mantém apagado.]

Maria: A fonte de sua poesia é Portugal, o mundo ou é interior?

Sophia: Daí eu não sei a diferença entre interior e exterior. Eu vejo com os olhos, ouço com os ouvidos, como com os dentes, sinto com o nariz. Quanto a minha poesia, é Portugal, é interior e é exterior.
Tenho uma parte intelectual, evidentemente. Tem uma parte de cultura, tem uma parte intelectual. Mas tem uma parte vivida, não é?

Maria: E a senhora teria uma definição para a atitude poética?
Sophia: Não, não é possível.

Maria: É fazer.

Sophia: É.

Maria: E suas fontes, referências dentro da poesia, da tradição
poética?

Sophia: ( partindo o cigarro ao meio e me oferecendo metade ) Quer?

Maria: Não.

Sophia: Eu parto aqui ( dividindo um cigarro entre 2/3 e 1/3 ) É que até aqui não se fuma ( apontando a parte do cigarro que, por incluir o filtro, focou maior). Esta parte não se fuma, não é? Se eu partir aqui ( aponta o meio do cigarro ) não fica nada (risos ).

Maria: Eu parei de fumar. Mas de vez em quando fumo um pouquinho.

Sophia (acendendo o meu cigarro e o dela) Estou muito mesquinha hoje. Estou um bocado cansada.

Maria: Quer parar?

Sophia: Não. Daqui mais um quarto de hora.

Maria: Então a senhora estava falando das referências. Eu perguntei sobre as referências poéticas da senhora.

Sophia: ( pausa, Sophia dá uma longa tragada) Pois, o que é que você chama de referências poéticas, ter lido Homero? Ter lido João Cabral?

Maria: Sim

Sophia: Eu acho que é muito mal um poeta que só lê o que escreve. Mas há muito poeta assim hoje em dia, não é? Por isso é que a literatura moderna está tão confusa...O texto mais bonito do Saramago é um artigo não muito longo que ele publicou quando teve o prémio. Ele fala da sua relação com o avô quando era pequeno. É muito bonito. É o texto mais nostálgico e mais poético que o Saramago escreveu. É um
texto que ele fala da sua própria vida. Ele fala o que os livros não falam ou se falam, falam de uma outra maneira.

Maria: Actualmente em Portugal se faz muita poesia boa?

Sophia: Há poetas bons, sim. António Ramos Rosa é muito bom, e outros bons poetas.

Maria: A senhora considera a língua portuguesa uma língua boa para se tratar de poesia?

Sophia: Eu penso que sim. Porque é uma língua que tem uma grande dificuldade em dizer tudo. Falar com tudo, não é. Não é uma língua estereotipada como é um pouco o francês e o inglês. No inglês há muita coisa compacta. O inglês é muito rico, mas tem que ser num único sentido. Em inglês deve-se começar o verso pela primeira pessoa. Eu sei porque tenho colaborado com escritores que me traduziram. Faz muita diferença. A única língua na qual se pode traduzir bem o poeta português é o italiano. Porque é a mesma organização da frase, não é?

Maria: Interessante esta relação da língua portuguesa com outras.
Porque também me parece que a língua portuguesa tem possibilidades extraordinárias.

Sophia: Sim, porque tem uma capacidade de dizer, de formar novas palavras.

Maria: Um pouco como o alemão, talvez?


Sophia: É.

Maria: O que é ser poeta hoje? Porque o mundo está tão confuso, tão fragmentário...tem lugar para o poeta hoje?

Sophia: Eu penso que tem, se ele arranja. Evidentemente que é
importante que elas encontrem o eco da sua voz. (Toca o telefone, Sophia atende, era engano)

Maria: Este livro aqui foi encontrado entre os escritos de Fernando Pessoa, O que o turista deve ver em Lisboa . Foi encontrado há uns dez anos.

Sophia: Está escrito em que língua?

Maria: Ele foi escrito originalmente em inglês, mas esta edição é
bilingue.

Sophia: Ah! Muito bom, muito interessante.

Maria: Porque ele achava que o povo português precisava ser mais respeitado dentro da Europa.

Sophia: Pois acontece uma coisa, sabe? Nós gostamos muito da Espanha, da arte espanhola. E o espanhol tem feitos extraordinários. Mas o espanhol é muito afirmativo, tem a mania de negar o outro. E eles têm feito uma política muito antiportuguesa. E eles atrás dos portugueses descobrindo a mesma coisa que os portugueses já tinham descoberto. E
é preciso lembrar que as caravelas portuguesas que iam para os descobrimentos os espanhóis saqueavam na volta e mesmo na ida.

Maria: É também muito curioso que grande parte dos poetas
contemporâneos importantes sejam poetas de língua portuguesa, não é?
O Fernando Pessoa, a senhora, o Jorge de Sena...Mesmo poetas brasileiros importantes como Jorge de Lima, João Cabral...

Sophia: Você vê como o João Cabral usa a língua portuguesa - ele usa e quer usar - muito como Camões. Aqueles poemas conhecidos do Camões, da Índia, são poemas que brincam muito com a palavra. É muito parecido com o João Cabral.

Maria: E o seu exercício poético é também brincar com as palavras?

Sophia: É, sim. Jogo. Há muita parte de jogo, sim. Eu acho que o
melhor momento da escrita do poema é quando as pessoas começam a sentir as palavras moverem-se sozinhas, sabe? E a brincarem umas com as outras. Andar a procura da rima, andar a procura do tempo, a procura da consonância, não é?

 
   

 

 

 
   

 

Outras páginas Web

http://www.editorial-caminho.pt/autores/

a_sophia_de_mello_breyner_andresen.html

http://www.liv-arcoiris.pt/bienal98/Bibliografia/paginas/andresen.html

http://portugal-info.net/people/writers.htm

http://www.ipn.pt/opsis/litera/

http://viriato.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/zlista.html

http://www.secrel.com.br/jpoesia/cguirado.html