Sobre a autora
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Rosa Alice Branco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

«Percebo, logo existe a realidade». Poderia ser este o lema da poeta Rosa Alice Branco. Autora de um trabalho académico sobre a teoria da percepção do filósofo inglês do século XVIII, George Berkeley (A Percepção Visual em Berkeley Como Operação Interpretativa. Prefácio de Fernando Gil. Porto: Fundação Engenheiro António Almeida, 1998), Rosa Alice Branco parece uma vez mais confirmar em seus poemas a ideia pessoana (em Caeiro) de que se não é poeta: vê-se, O pro­blema de que se ocupa a filósofa do conhecimento e da estética no trabalho citado (originalmente, uma tese de mestrado orientada por Fernando Gil) é por ela formulado nestes termos: Se, como no pensamento materialista de Berkeley, se admite que a matéria não existe, como vemos o que vemos?

 

A resposta cabal a esta pergunta sobre a teoria da visão de Berkeley não se encontra, porém, no ensaio filosófico, antes na poesia e na poética de Rosa Alice Branco. Em um sugestivo ensaio de refle­xão estética intitulado O Que Falta ao Mundo Para Ser Quadro (Porto: Limiar, 1997), Rosa Alice Branco concluíra que a construção do mundo reside no olhar humano. O que funda este saber, em que o «olhar humano» é a metáfora perfeita dos sentidos da percepção, encontra-se nos seus poemas, desde Animais da Terra (Porto: Limiar, 1988) passando por Monadologia Breve (Porto: Limiar, 1991), A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos (Porto: Limiar, 1994), O Único Traço do Pincel (Porto: Limiar, 1997), Da Alma e dos Espíritos Animais (esta última colecção ainda inédita). Vemos o que vemos, diz a poeta em todos os seus poemas, porque no olhar materializamos a realidade. Mesmo quando não vemos, é a percep­ção dessa negatividade que nos ilumina o ser. «Olho pela janela e não vejo o mar», lê-se no primeiro da bela sequência de três poemas oferecida a Porto 2001 e significativamente intitulada Retrato Puído nas Entranhas. E na discursividade inventiva desse primeiro poema e dos restantes segue a constru­ção da existência do quotidiano nas palavras, que «são as primeiras a chegar» — a manhã, a relva, o lume, o pão, o jornal, a saliva, o papel, as gaivotas. A sequência encerra com o olhar da poeta poisado no rio mas a deixar-lhe «fingir» o mar. [...]

Maria Irene Ramalho, in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento,
Porto 2001: 142

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Palmeiras inclinadas. Ao longe o casario. É na água que o vejo, que sinto a cidade acordar.

Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas, os pés a caminho. As margens alargam quando estou perto, mas do outro lado as mulheres não reflectem o rosto ou mesmo a sua ausência.

São matéria do verbo fazer e caminham junto ao chão, na curva da noite para o marido. Gastos os sonhos por usar. Descorado pano que ficou ao sol. Nelas a cidade não acorda, não regressam os barcos à tardinha.

Vêm pela beira dos caminhos, a tristeza amável, a raiva cega e às vezes um sorriso que sacode os ombros porque até a tristeza tem um custo, uma esperança na sola do sapato. Vejo-as todos os dias e é como se a vida me atasse os pés, me anelasse os dedos. Como eu, outras mulheres olhando o rio, desbordando o pano, descozendo a sopa. Ama-se o homem que vira a esquina connosco e sabe que não podemos fingir que a ferida está fechada. As casas acendem.

E na água que vejo a sua luz descendo o rio. As mulheres passam em silêncio para as casas, atravessam a pele — deixam um retrato puído nas entranhas. Olho o rio e não sei fingir que finjo tanto mar.

 Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento,
Porto 2001 p. 147