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Matilde |
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Rosa Araújo
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Outras páginas web sobre a autora O Universo Poético de Matilde Rosa Araújo Matilde Rosa Araújo:
Lucilina e Antenor http://www.ipn.pt/literatura/matilde.htm
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| Matilde Rosa Araújo
nasceu em Lisboa em 1921. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letra da Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do Ensino Técnico Profissional em Lisboa e noutras cidades do País, assim como professora do primeiro Curso de Literatura para a Infância, que teve lugar na Escola do Magistério Primário de Lisboa.
Tem exercido a sua actividade profissional, como professora, na cidade do Porto. Autora de livros de contos e poesia para o mundo adulto e de mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças, a sua temática centra-se em torno de três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto. Tem-se dedicado, ao longo da sua vida, aos problemas da criança e à defesa dos seus direitos. É autora de alguns volumes sobre a importância da infância na criação literária para adultos, sobre a importância da Literatura Infanto-Juvenil na formação da criança e sobre a educação do sentimento poético como mais-valia pedagógica.
Recebeu os seguintes prémios no domínio de Literatura para a Infância Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian ex-aequo com Ricardo Alberty, em 1980; Prémio atribuído pela primeira vez, para o melhor livro estrangeiro (novela O Palhaço Verde), pela associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, em 1991; Prémio para o melhor livro para a Infância publicado no biénio 1994-1995, pelo livro de poemas Fadas Verdes, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1996.
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O Livro da Tila – poemas para crianças, 10ª edição, Livros Horizonte, 1986; O Palhaço Verde – novela infantil, 5ª edição, Livros Horizonte, 1984 (ilustrações de Maria Keil); História de um Rapaz – conto infantil, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986 (ilustrações de Maria Keil); O Cantar da Tila – poemas para a juventude, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986 (ilustrações de Maria Keil); O Sol e o Menino dos Pés Frios – contos, 7ª edição, Livros Horizonte, 1986; O Reino das Sete Pontas – novela infantil, 2ª edição, Livros Horizonte, 1986 (ilustrações de Manuela Bacelar); Os Quatro Irmãos – 2ª edição, Livros Horizonte, 1983 (ilustrações de Ana Leão); História de uma Flor – conto infantil, 1ª edição, Faoj; O Sol Livro – textos para o ensino, 1ª edição, Livros Horizonte, 1976; Os Direitos da Criança Livros Horizonte – 1ª edição, Unicef, 1977; O Gato Dourado – contos infantis, 3ª edição, Livros Horizonte, 1985 (ilustrações de Maria Keil); As Botas de Meu Pai – contos infantis, 2ª edição, Livros Horizonte, 1981 (ilustrações de Maria Keil); Camões, Poeta Mancebo e Pobre – divulgação, 1ª edição, Prelo Editora, 1978; Baladas das Vinte Meninas – poema infantil, Plátano Editora, 1978 (ilustrações de Cristina Malaquias); Joana-Ana – conto infantil, Livros Horizonte, 1981 (ilustrações de Maria Keil); A Escola do Rio Verde – 2ª edição, Livros Horizonte, 198l (ilustrações de Romeu Costa); O Cavaleiro Sem Espada – Livros Horizonte, 1979 (ilustrações de Maria Keil); A Velha do Bosque – Livros Horizonte, 1993 (ilustrações de Ana Leão); A Guitarra da Boneca – Livros Horizonte, 1983 (ilustrações de Evelina Coelho); As Crianças, Todas as Crianças – Livros Horizonte, 1976; A Infância Lembrada – Antologia – Livros Horizonte, 1986; A Estrada Fascinante – Livros Horizonte, 1988; Mistérios – Livros Horizonte, 1988 (ilustrações de Alice Jorge); Rosalina Foi à Feira – Livraria Arnado, 1994 (ilustrações de Fernando Saraiva); O Chão e a Estrela – Editora Verbo 1997 (ilustrações de Paulo Monteiro); As Fadas Verdes – Livraria Civilização, 1994 (ilustrações de Manuela Bacelar); "A Fonte do Real", in Soares, Luísa Ducla (org.), A Antologia Diferente – De que São Feitos os Sonhos, Porto, Areal, (1986), pp. 30-32; Voz Nua, Lisboa, Horizonte, 1986; "A menina do pinhal", in AAVV, Histórias e Canções em Quatro Estações – Primavera. Lisboa. Lisboa Editora. 1988, pp. 9-24; O Passarinho de Maio, Lisboa. Horizonte, 1990; O Chão e a Estrela, Lisboa, Verbo, 1994; A Estrada Fascinante, Lisboa, Horizonte, 1988 (ensaio).
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| Textos
online
BALADA DAS VINTE MENINAS FRIORENTAS
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E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas.
Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.
Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.
A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antas, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida. Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.
Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez cm quando.
Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia. Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.
Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.
Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.
Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada. Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Olhei o retratinho dela na caderneta. Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades. – Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras. E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.
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O MENINO DOS PÉS FRIOS
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BALADA DAS VINTE MENINAS FRIORENTAS
Verso Aqui Verso Acolá, organização de Natércia Rocha
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Lucilina tinha cabelos verdes das folhas de lucialima e olhos negros e brilhantes iguais a amoras. Por vezes, estava feliz e cantava com uma voz fina como se fosse uma flauta encantada.
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[...] O Livro da Tila (1ª ed., 1957; 18ª ed., 1986) desvela o universo de uma infância, em parte eufórico, feito de pequenos deslumbramentos perante o mundo e a natureza, expresso ora por um sujeito da enunciação infantil/juvenil, ora por uma voz adulta que observa o real e as relações que a criança com ele estabelece. Este universo está presente na restante obra poética de Matilde, atingindo um encanto muito especial em A Guitarra da Boneca (1983). Este livro revela uma sensibilidade particular relativamente ao mundo infantil, visível no modo como se apoia em múltiplas referências ao brinquedo e ao jogo simbólico, às histórias tradicionais e às canções infantis, a lengalengas e outras rimas popularizadas entre as crianças, e a um fascinante mundo de animais humanizados. Atento a este imaginário e ao seu potencial poético, às facetas ignoradas mas comoventes da condição animal, ao pulsar da vida nos mais obscuros recantos naturais, o sujeito poético constrói um universo onírico e sedutor. Este parece, por vezes, transportar-nos às origens da vida, reconduzindo-nos à percepção da nossa condição biológica e humana, num mundo feito à medida dos seres que o habitam, conto acontece no poema «A Sombra» (A Guitarra da Boneca, p. 28) e em vários momentos de As Fadas Verdes (1994). Este olhar descobridor, que pesquisa «debaixo da sombras, simultaneamente virgem, como o da criança, e sábio como o de um adulto experimentado e sensível, é o olhar capaz de dar vida às coisas mais banais. Revela o mistério rias coisas e das criaturas desdobrando se num conhecimento inteligente sobre a vida, cujo único segredo é uma atenção apurada ao que os ritmos ria desumanizacão tendem a fazer esquecer. [...]
José António Gomes,
in Colóquio / Letras
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Entrevista
O facto de ter
estudado em casa, com professores particulares, até à ida para a
universidade, fê-la ter uma educação pouco comum à generalidade das
nossas crianças? Tendo em conta
esse tempo em que aprendeu em tutoria (ensino doméstico) e os muitos
anos de professora na rede pública (ensino de massas), qual lhe parece
o de maior eficácia na aprendizagem? No seu livro Segredos
e Brinquedos (2000) considerava-se uma "professora de meninos,
meninos do meu amar". Teve sempre essa ligação fraterna com os
seus alunos? José António
Gomes, ao analisar em vários textos a sua produção literária,
defende que nela há três grandes temáticas: a infância dourada, a
infância agredida e a infância como projecto. Pode-me falar de cada
uma delas? É uma escritora
com um "olhar dorido sobre os socialmente desafortunados e simpatia
pelos mais fragilizados". Como vê essa sua constante chamada de
consciência? Um crítico literário
dizia que a sua escrita ficcional tinha uma "tonalidade didáctico-moralizante". E sobre a eterna
questão das relações entre realidade e ficção; a sua escrita
reflecte a sua experiência de vida? Na introdução
de uma das suas antologias, A Estrada Fascinante (1988), diz que
a organizou para "todos aqueles que procurem junto da infância e
da adolescência uma responsabilidade pedagógica através da
literatura". Considera que a literatura pode ser uma boa fonte na
tarefa pedagógica dos professores? Não é apenas um
instrumento de lazer? Numa outra
antologia, Todas as Crianças (1979), afirma: "oxalá estas
páginas ajudem a encontrar a infância". Acha que conseguiu
encontrar a infância, esse "segredo do Homem" de que falava
João Santos? Na sua poesia é
nítida a ligação que mantem com a Natureza. Num poema chega a
falar na "cor do silêncio... e verde é o silêncio" Passemos aos
nossos dias. Como a vê a Educação? Não é das que
comunga da ideia de que os jovens lêem menos hoje em dia? Uma das mudanças
tem a ver com o facto de muitas escolas proporcionarem um contacto
directo com os escritores...
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