Matilde 

 

 

 

 

 

Rosa Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sobre a AUTORA

OBRA

SOBRE a obra

PRÉMIOS

TEXTOS online

Entrevista

 

 

 

 

 

 

Outras páginas web sobre a autora 

O Universo Poético de Matilde Rosa Araújo
Comentário de José António Gomes, Colóquio / Letras
http://www.ipn.pt/literatura/matilde1.htm

Matilde Rosa Araújo: Lucilina e Antenor
Oferece acesso à obra integral com ilustrações. 
http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/7308/capamat.htm

http://www.ipn.pt/literatura/matilde.htm

 

 

 

 

 

 

 

Matilde Rosa Araújo nasceu em Lisboa em 1921. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letra da Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do Ensino Técnico Profissional em Lisboa e noutras cidades do País, assim como professora do primeiro Curso de Literatura para a Infância, que teve lugar na Escola do Magistério Primário de Lisboa.

Tem exercido a sua actividade profissional, como professora, na cidade do Porto. 

Autora de livros de contos e poesia para o mundo adulto e de mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças, a sua temática centra-se em torno de três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto. 

Tem-se dedicado, ao longo da sua vida, aos problemas da criança e à defesa dos seus direitos. 

É autora de alguns volumes sobre a importância da infância na criação literária para adultos, sobre a importância da Literatura Infanto-Juvenil na formação da criança e sobre a educação do sentimento poético como mais-valia pedagógica. 

 

Recebeu os seguintes prémios no domínio de Literatura para a Infância

Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian ex-aequo com Ricardo Alberty, em 1980; Prémio atribuído pela primeira vez, para o melhor livro estrangeiro (novela O Palhaço Verde), pela associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, em 1991; 

Prémio para o melhor livro para a Infância publicado no biénio 1994-1995, pelo livro de poemas Fadas Verdes, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1996.

 

 

 

Obra

O Livro da Tila – poemas para crianças, 10ª edição, Livros Horizonte, 1986;

O Palhaço Verde – novela infantil, 5ª edição, Livros Horizonte, 1984 (ilustrações de Maria Keil); 

História de um Rapaz – conto infantil, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986 (ilustrações de Maria Keil); 

O Cantar da Tila – poemas para a juventude, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986 (ilustrações de Maria Keil); 

O Sol e o Menino dos Pés Frios – contos, 7ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Reino das Sete Pontas – novela infantil, 2ª edição, Livros Horizonte, 1986 (ilustrações de Manuela Bacelar); 

Os Quatro Irmãos – 2ª edição, Livros Horizonte, 1983 (ilustrações de Ana Leão); 

História de uma Flor – conto infantil, 1ª edição, Faoj; O Sol Livro – textos para o ensino, 1ª edição, Livros Horizonte, 1976; 

Os Direitos da Criança Livros Horizonte – 1ª edição, Unicef, 1977; 

O Gato Dourado – contos infantis, 3ª edição, Livros Horizonte, 1985 (ilustrações de Maria Keil); 

As Botas de Meu Pai – contos infantis, 2ª edição, Livros Horizonte, 1981 (ilustrações de Maria Keil); 

Camões, Poeta Mancebo e Pobre – divulgação, 1ª edição, Prelo Editora, 1978; 

Baladas das Vinte Meninas – poema infantil, Plátano Editora, 1978 (ilustrações de Cristina Malaquias); 

Joana-Ana – conto infantil, Livros Horizonte, 1981 (ilustrações de Maria Keil); 

A Escola do Rio Verde – 2ª edição, Livros Horizonte, 198l (ilustrações de Romeu Costa); 

O Cavaleiro Sem Espada – Livros Horizonte, 1979 (ilustrações de Maria Keil); 

A Velha do Bosque – Livros Horizonte, 1993 (ilustrações de Ana Leão); 

A Guitarra da Boneca – Livros Horizonte, 1983 (ilustrações de Evelina Coelho); 

As Crianças, Todas as Crianças – Livros Horizonte, 1976; 

A Infância Lembrada – Antologia – Livros Horizonte, 1986; 

A Estrada Fascinante – Livros Horizonte, 1988; Mistérios – Livros Horizonte, 1988 (ilustrações de Alice Jorge); 

Rosalina Foi à Feira – Livraria Arnado, 1994 (ilustrações de Fernando Saraiva); 

O Chão e a Estrela – Editora Verbo  1997 (ilustrações de Paulo Monteiro); 

As Fadas Verdes – Livraria Civilização, 1994 (ilustrações de Manuela Bacelar); 

"A Fonte do Real", in Soares, Luísa Ducla (org.), A Antologia Diferente – De que São Feitos os Sonhos, Porto, Areal, (1986), pp. 30-32; 

Voz Nua, Lisboa, Horizonte, 1986; "A menina do pinhal", in AAVV, Histórias e Canções em Quatro Estações – Primavera. Lisboa. Lisboa Editora. 1988, pp. 9-24; 

O Passarinho de Maio, Lisboa. Horizonte, 1990; 

O Chão e a Estrela, Lisboa, Verbo, 1994; 

A Estrada Fascinante, Lisboa, Horizonte, 1988 (ensaio).

 

 

 

 

 

 

 

 

Textos online

 

A FITA VERMELHA

O MENINO DOS PÉS FRIOS

BALADA DAS VINTE MENINAS FRIORENTAS

LUCILINA E ANTENOR

 

 

 

 

 

 

 

 



A FITA VERMELHA

Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. 

E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas. 

 

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

 

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

 

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antas, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

 

O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida. Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

 

Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez cm quando.

 

Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia. Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.

 

Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.

 

Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos. 

 

Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. 
Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste.

A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital.

Olhei o retratinho dela na caderneta.

Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora!

Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.

– Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras.

E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.

 

 

 

O MENINO DOS PÉS FRIOS

Era uma vez uma casa. Muito grande. Com um tecto altíssimo, nem sempre azul. Uma casa enorme onde habitava uma grande família: uma família tão grande que, por vezes, não julgavam os seus membros que se conheciam. E se deviam amar.

Houve um menino que entrou nesta casa estava ela toda branca. No chão tapetes de neve, cristais de água de uma brancura que estremecia. E as próprias árvores escorriam essa brancura. E frio. Iluminava-a uma estrela tão brilhante que, sobre o tecto, parecia que poisava sobre as nossas mãos.

Ora um dia, em que fazia anos em que esse menino entrara nessa casa, outro menino por ela andava com frio. Pelo chão, pelos milhões de cristais, caminhavam os seus pezitos enregelados. Tanto frio que nem podia
olhar a estrela brilhante. Nem os milhões de cristais que pisava.

Uma mulher chorava a um canto dessa casa. E era triste essa mulher. Estava triste e cansada. Na casa nem tudo era belo. Ali estava aquele menino cheio de frio. E, como ele, tantos meninos.

E, já há quase dois mil anos, um menino entrara na asa, que ficou mais clara com a luz brilhante do tecto. O menino entrou só para dizer uma palavra pequenina: AMOR.

Então essa mulher perguntou ao menino dos pés frios:

– Tu não tens a tua casa?

O menino olhou a mulher triste e ficou triste. Ambos estavam tristes. E disse quase envergonhado que não.

– Tu não tens roupa? Sapatos? Um lume? Pão?

A cabeça (tão linda!) do menino ia abanando sempre a dizer não. A mulher triste começou a ter vergonha.
Então ela consentia que na sua casa, na casa de todos, de tecto nem sempre azul, houvesse um menino sem roupa, sem lume, sem pão? Ela consentia uma coisa assim? E os outros também?

Escorregaram-lhe pela face já enrugada duas lágrimas transparentes. De água. Água como a que tombava do tecto, como a que se estendia nos mares.

E perguntou mais ao menino:

– E para onde vais? Eu dou-te qualquer coisa para o caminho...

O menino olhou para ela admirado. Não lhe disse para onde ia. Observou-lhe apenas:

– Tens duas gotas de água nos teus olhos que reflectem o céu azul e a lâmpada do tecto. Não sentes?

A mulher deixou cair pelo rosto enrugado as duas lágrimas. A pele, então, ficou-lhe mais lisa. E ela tornou-se menos curva. Ergueu-se. Estendeu, sorrindo, os dois braços ao menino. E disse:

– Fica. Perdoa.

E o menino ficou. Nos seus braços. Encostado ao seu peito. Com os pés aquecidos sobre o campo de neve.

E a mulher entendeu que não adiantava chorar ao canto da casa. E o seu vestido era uma bandeira. E o seu coração uma flor. Com o menino a seu lado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BALADA DAS VINTE MENINAS FRIORENTAS

Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.

 

Verso Aqui Verso Acolá, organização de Natércia Rocha

 

 

 

 

 

Lucilina tinha cabelos verdes das folhas de lucialima e olhos negros e brilhantes iguais a amoras. Por vezes, estava feliz e cantava com uma voz fina como se fosse uma flauta encantada. 

 

 



Vinha escutá-la um animal que não era cavalo de corrida, nem burro humilde, nem lince da Malcata, nem um gamo da serra de Peneda. Muito menos uma ave dos céus. 


Estranha figura que a olhava com um olhar cheio de ternura branca e lavada. Tinha o nome de
Antenor

 

 

 

 

Sobre a obra

 

[...] O Livro da Tila (1ª ed., 1957; 18ª ed., 1986) desvela o universo de uma infância, em parte eufórico, feito de pequenos deslumbramentos perante o mundo e a natureza, expresso ora por um sujeito da enunciação infantil/juvenil, ora por uma voz adulta que observa o real e as relações que a criança com ele estabelece. Este universo está presente na restante obra poética de Matilde, atingindo um encanto muito especial em A Guitarra da Boneca (1983). Este livro revela uma sensibilidade particular relativamente ao mundo infantil, visível no modo como se apoia em múltiplas referências ao brinquedo e ao jogo simbólico, às histórias tradicionais e às canções infantis, a lengalengas e outras rimas popularizadas entre as crianças, e a um fascinante mundo de animais humanizados.

Atento a este imaginário e ao seu potencial poético, às facetas ignoradas mas comoventes da condição animal, ao pulsar da vida nos mais obscuros recantos naturais, o sujeito poético constrói um universo onírico e sedutor.

Este parece, por vezes, transportar-nos às origens da vida, reconduzindo-nos à percepção da nossa condição biológica e humana, num mundo feito à medida dos seres que o habitam, conto acontece no poema «A Sombra» (A Guitarra da Boneca, p. 28) e em vários momentos de As Fadas Verdes (1994).

Este olhar descobridor, que pesquisa «debaixo da sombras, simultaneamente virgem, como o da criança, e sábio como o de um adulto experimentado e sensível, é o olhar capaz de dar vida às coisas mais banais. Revela o mistério rias coisas e das criaturas desdobrando se num conhecimento inteligente sobre a vida, cujo único segredo é uma atenção apurada ao que os ritmos ria desumanizacão tendem a fazer esquecer. [...]

 

José António Gomes, in Colóquio / Letras
acedível em http://www.ipn.pt/literatura/matilde1.htm 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista
por Luís Souta
in Jornal "a Página" , ano 11, nº 114, Julho 2002, p. 40.

 

O facto de ter estudado em casa, com professores particulares, até à ida para a universidade, fê-la ter uma educação pouco comum à generalidade das nossas crianças?
Nessa altura ficava muito ansiosa por ver as outras crianças irem para a escola. Tinha muita sede de comunicação, tanta como agora tenho; e de solidão, mas não daquela solidão egoísta. Como hoje, também.

Tendo em conta esse tempo em que aprendeu em tutoria (ensino doméstico) e os muitos anos de professora na rede pública (ensino de massas), qual lhe parece o de maior eficácia na aprendizagem?
Com certeza o ensino de massas, quando é feito com amor e com saber. E com condições de trabalho. O ensino em comunidade é muito importante. A escola é um lugar de convívio muito importante para a criança.

No seu livro Segredos e Brinquedos (2000) considerava-se uma "professora de meninos, meninos do meu amar". Teve sempre essa ligação fraterna com os seus alunos?
Foram eles que me deram o sangue para viver.

José António Gomes, ao analisar em vários textos a sua produção literária, defende que nela há três grandes temáticas: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto. Pode-me falar de cada uma delas?
A infância dourada é a do sonho e a da inocência, mas uma inocência sábia. A criança sente o mal mas não desconfia e vê as coisas com os olhos de quem vê pela primeira vez, é maravilhoso. Foi um deslumbramento que eu fui apreendendo e vendo ao longo da vida.
A infância agredida é terrível. Agora, a comunicação social faz, muitas vezes, tema desta infância. Os direitos das crianças estão reconhecidos mas, infelizmente, ainda há muita criança agredida. Essa é uma mágoa que vou sentindo, o saber que a criança ainda não é respeitada, amada como devia. E estou a falar de Portugal mas por esse mundo fora a guerra põe até armas nas mãos das crianças. Já no fim da "caminhada" saber tudo isto dói mais ainda.
Quanto à terceira, qualquer Estado deve olhar a infância como um projecto social comprometido, sério. Estamos a deixar de parte o lado maravilhoso do nascer e do crescer. A criança é sensível ao afecto, percebe bem quando gostam dela. Ela precisa de um amor responsável. Uma criança que cresce sem amor é uma criança quase sempre condenada. E não é necessário infantilizar a infância mas sim encontrar a sua poesia. A criança que tem uma força e uma fragilidade tão grande deve ter voz. A verdadeira raíz de uma sociedade justa, fraterna reside nos Direitos da Criança, no seu real cumprimento.

É uma escritora com um "olhar dorido sobre os socialmente desafortunados e simpatia pelos mais fragilizados". Como vê essa sua constante chamada de consciência?
Como um apelo para a justiça. Tenho visto muita infância marginalizada, e não é só marginalidade, mesmo entre os que não têm carências económicas. Há famílias que são pobres do ponto de vista humano da sensibilidade para a vida, já nem digo para a sua poesia... Há o cultivar de um certo egoísmo, eu sei que temos que nos defender, até da vida, mas se por um lado caminhamos para uma consciencialização dos direitos das crianças, para a sua efectivação, por outro lado o homem também se deixa envolver num egoísmo que o empobrece bastante. Mas é verdade que tenho podido contactar com presenças humanas comoventes de um verdadeiro entendimento da Infância e da Juventude.

Um crítico literário dizia que a sua escrita ficcional tinha uma "tonalidade didáctico-moralizante".
Didáctica, talvez, se vier a ser aproveitada nessa vertente. Moralizante, eu acho que nunca quis moralizar no sentido de impor fosse o que fosse à vida da criança, mas há na escrita um desejo de amor, de justiça e de tolerância, de poder apreender a poética da vida. Será isso moralizante?

E sobre a eterna questão das relações entre realidade e ficção; a sua escrita reflecte a sua experiência de vida?
A ficção emerge da realidade. O sol e o menino dos pés frios (1971) tem muito de alunos que fui encontrando. Mesmo O Palhaço Verde (1962) nasceu quando eu estava em Portalegre e fui ao circo e os circos da província eram muito pobres. Eu acho que o circo tem tanto de mágico como de trágico. E o "menino dos pés frios" é, por exemplo, um rapazinho que eu conheci no Cabedelo (perto de Viana do Castelo), que vendia moinhos de vento na praia, chamava-se Joaquim e foi meu companheiro de praia durante dois anos. Ele dizia-me que os pais andavam pelas feiras e que ele dormia numa taberna, na estrada, e todos os dias de manhã lá aparecia ele com os seus moinhos. Aí está uma realidade. Uma, entre tantas mais.

Na introdução de uma das suas antologias, A Estrada Fascinante (1988), diz que a organizou para "todos aqueles que procurem junto da infância e da adolescência uma responsabilidade pedagógica através da literatura". Considera que a literatura pode ser uma boa fonte na tarefa pedagógica dos professores?
Pode e deve ser.

Não é apenas um instrumento de lazer?
Não. É preciso brincar para crescer, ter a felicidade de não estar comprometido com obrigações de um trabalho que não se ajusta à vida da criança. Toda a vida é aprendizagem... Mas vejo que na literatura dos adultos a infância está muito presente, embora por vezes de uma maneira quase inconsciente porque a vida é infância, adolescência e estado de adulto. E há autores de Literatura para a Infância que trataram com grande delicadeza a infância, portanto esta literatura é um entretenimento mas não o é de forma inconsequente, tem uma validade de transmissão de valores humanos, estéticos e de diálogo com a vida e com os outros. Aprender o valor da alegria e da tristeza é muito importante numa pedagogia do ser e a literatura para crianças deve ser muito responsável. Também há aquela puramente lúdica onde a criança aprende a musicalidade da palavra, o encanto da graça, do brincar. É muito importante a aprendizagem da língua portuguesa, não falo nas línguas estrangeiras que também são necessárias, mas hoje talvez se acumule demasiada diversidade de aprendizado para a criança e ela também precisa de paz, de silêncio. Sabemos que, com a globalização, o inglês se torna muito importante, mas a criança deve aprender a beleza do seu falar materno, em plenitude.

Numa outra antologia, Todas as Crianças (1979), afirma: "oxalá estas páginas ajudem a encontrar a infância". Acha que conseguiu encontrar a infância, esse "segredo do Homem" de que falava João Santos?
Tenho-a encontrado nos olhos das crianças quando vou às escolas. Nas ruas. Mesmo no estado adulto a infância tem muita força. Talvez se possa esquecer a infância, mas há vidas que depois nos dão o deslumbramento de estar vivo e de ver as coisas sem mágoa, apesar de tudo.

Na sua poesia é nítida a ligação que mantem com a Natureza.
Eu gostei sempre muito de olhar as árvores, os animais, o mar, os céus, o mundo. É a vida, das várias recordações que tenho da infância. Recordo que na quinta onde nasci e vivi, em Benfica, havia flores, árvores, animais. Tal como na aldeia distante da minha avó paterna.

Num poema chega a falar na "cor do silêncio... e verde é o silêncio"
Às vezes perguntam-me porque é que eu gosto tanto do verde e eu respondo que gosto de todas as cores. Talvez pela natureza ser muito verde, o mar também é verde... e azul, o verde fugia do arco-íris ao escrever.

Passemos aos nossos dias. Como a vê a Educação?
Eu queria que estivesse melhor, mas é fácil querer isto... Encontro, no entanto, professores maravilhosos que continuam a querer fazer progredir os alunos com inteligência e amor. Hoje encontro ainda uma realidade que eu não tinha, a existência de bibliotecas actuantes. Agora as bibliotecas têm vida, dantes havia livros em armários...

Não é das que comunga da ideia de que os jovens lêem menos hoje em dia?
Podem parecer ler menos, porque a massa dos jovens escolarizados é grande. Mas lêem. Antigamente esse espaço de potenciais leitores era muito mais reduzido, hoje há uma maior diversidade de circunstâncias para se ser leitor. O tempo de que o aluno dispõe também é diferente. A televisão podia ter um papel não digo didáctico, no sentido estrito do termo, mas fecundo na abertura para a cultura, não uma cultura elitista mas a cultura autêntica da vida com verdadeiro entendimento da Infância e da Juventude. E também temos os computadores e a Internet, ainda assim não podemos deixar que a "leitura" fique só por aí. De forma alguma.

Uma das mudanças tem a ver com o facto de muitas escolas proporcionarem um contacto directo com os escritores...
Os alunos, muitas vezes, julgavam que os escritores tinham todos morrido e quando começámos a aparecer por lá... mostrámos afinal que não éramos o "clube dos poetas mortos"... E, hoje, o encontro é tão feliz. Desses encontros trago sempre um quinhão de felicidade que os alunos generosamente me entregam na fraternidade do ler, do seu ler. Uma felicidade que me ensina tanto. Assim eu possa continuar a aprender.