Maria Velho da Costa

 

 

 

 

 

 

Biografia

Sobre a autora

Obra

Citações sobre a obra

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Prémios

 

 

 

Outras páginas Web

http://www.liv-arcoiris.pt/bienal98/Bibliografia/paginas/m_velho.html

http://www.universal.pt/scripts/gcu/univ.exe/find?Produto=2&Palavra=Autores

 

 

 

 

 

 

 

 

Biografia

Licenciada em Filologia Germânica, foi professora no ensino secundário e membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Tem o Curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria. Foi membro da Direcção e Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, de 1973 a 1978. Foi leitora do Departamento de Português e Brasileiro do King's College, Universidade de Londres, entre 1980 e 1987. Tem sido incumbida pelo Estado português de funções de carácter cultural: foi Adjunta do Secretário de Estado da Cultura em 1979 e Adida Cultural em Cabo Verde de 1988 a 1991. Desempenhou ainda funções na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e trabalha actualmente no Instituto Camões.

Consagrada, já em 1969, com o romance Maina Mendes, tornou-se mais conhecida depois da polémica em torno das Novas Cartas Portuguesas (1971), obra em que se manifesta uma aberta oposição aos valores femininos tradicionais. Esta publicação claramente anti-fascista e altamente provocatória para o regime, levou as suas três autoras a tribunal, tendo o 25 de Abril interrompido as sanções a que estavam sujeitas as denominadas 3 Marias: Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno.

Às teses de reivindicação feminina já enunciadas em “Novas Cartas Portuguesas", acrescenta-se, na sua obra, um inconformismo quanto aos cânones narrativos, inconformismo esse que se pode verificar também na sua obra de ensaio.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a autora

 

Seria possível como argumento geral que sustenta a obra ficcional de Maria Velho da Costa o título com que, em 1966, a autora a inaugura: O Lugar Comum. De algum modo, é minha convicção que os vários romances de Maria Velho da Costa, bem como os seus livros de contos (de que se destaca, como experiência-limite, o expressivo título Dores, 1995), assinalam a permanência desse «lugar», o que todos - autores, personagens e leitores - partilhamos e por isso se torna «comum»: o modo como tecemos vida, morte e trocas simbólicas através de contratos tácitos ou explícitos cuja amargura e violência se relaciona com o facto de que são, na sua fundura, contratos vitais. «Lugar-comum» também porque, se as várias histórias que constroem os diferentes livros assi­nalam, por exemplo através da noção de «mistério» (às vezes não desvendado), o carácter singular que as faz ser ditas, por outro lado é a sua dimensão de algum modo alegórica que funda a partilha comunitária e as faz ler, também, como reconhecimento. As histórias dos outros são sempre, de alguma forma, as nossas mesmas histórias. É este mesmo carácter «comum», então em pleno sentido do termo, que inevitavelmente se reflecte ainda num traço da escrita de Maria Velho da Costa: o modo extremamente intenso como a linguagem se faz lugar de experimentação não apenas de várias vozes, de vários autores (reconhecíveis ou não), de várias personagens, mas ainda, de modo muito forte, de várias línguas, sejam elas crioulos, línguas nacionais ou línguas de grupos sociais. A língua de cada um é então a forma como pensa a sua relação com todas as outras.

Helena Buescu, in Vozes e Olhares no Feminino, Porto 2001: 136

Fotografia de Graça Sarsfield
in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra


Maria Velho da Costa situa-se numa linha de experimentalismo linguístico que renovou a literatura portuguesa na década de 60, destacando-se na sua geração de novelistas pelo virtuosismo com que escreve, associando à transgressão formal um forte diálogo com obras da tradição literária portuguesa desde a Idade Média até à contemporaneidade. 

Nos seus livros, o ludismo desse diálogo é transmitido de várias maneiras, desde as citações até ao pastiche paródico de alguns dos seus autores de referência. 

A esta extrema riqueza vocabular e estilística, associa temas como o da intimidade infantil, o da linguagem-afectividade e o da condição feminina. 

Embora internacionalmente seja mais conhecida como co-autora das Novas Cartas Portuguesas, Maria Velho da Costa é responsável por alguns dos romances mais importantes do actual panorama literário em Portugal, como Maina Mendes, Casas Pardas, ou Missa in Albis.

 

O Lugar Comum. (Lisboa: Moraes, 1966)
Maina Mendes. (Lisboa: Moraes, 1969; 3ª ed. D. Quixote, 1993)
Ensino Primário e Ideologia. (Lisboa: D. Quixote, 1972)
Novas Cartas Portuguesas. (com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, pref. de Maria de Lourdes Pintassilgo. Lisboa: Estúdios Cor, 1972)
Desescrita. (Porto: Afrontamento, 1973)
Cravo. (Lisboa: Moraes, 1976; 2ª ed. D. Quixote, 1994).
Português; Trabalhador; Doente Mental. (Lisboa: Seara Nova, 1977)
Casas Pardas. (Lisboa: Moraes, 1977; 4ª ed. D. Quixote, 1996)
Da Rosa Fixa. (Lisboa: Moraes, 1978)
Corpo Verde (Lisboa: Contexto, 1979)
Lucialima. (Lisboa: O Jornal, 1983; 4ª ed. D. Quixote, 1997)
O Mapa Cor de Rosa. Lisboa: D. Quixote, 1984)
Missa in Albis. (Lisboa: D. Quixote, 1988)
Das Áfricas. (com José Afonso Furtado) (Lisboa: Difusão Cultural, 1991)
Dores. (contos, com Teresa Dias Coelho) (Lisboa: D. Quixote, 1994)

Traduções:

Alemão
Neue Portugiesische Briefe (mit Maria Isabel Barreno und Maria Teresa Horta) (Novas Cartas Portuguesas). Trad. Ludwig Graf von
Schonfeldt. Berlin/ Frankfurt a. M./ Wien: Ullsein Verlag, 1976.
Körper, Grün (Corpo Verde). Trad. Elfriede Engelmayer. Berlin: 1989.
Está representada na antologia Portugiesische Erzählungen des Zwanzigsten Jahrhunderts. Org. Curt Meyer-Clason. Freiburg:
Beck & Glückler, 1988. 

Dinamarquês
De tre Mariaer: Nye portugisisk breve (Novas Cartas Portuguesas). Trad. Elsa Gress e David Gress Wright. Copenhaga: Samleren
Publishers, 1975. 

Francês
Nouvelles Lettres Portugaises (Novas Cartas Portuguesas). Trad. Vera Alves da Nóbrega, Eveline le Carreo e Monique Wittig.
Paris: Seuil, 1976.
"Fátima" in Nouvelle Revue Française, nº 522/523. Juillet/Aôut, 1996. Trad. Michelle Giudicelli. 

Inglês
The Three Marias: New Portuguese Letters. Trad. Helen R. Lane. Garden City, N.Y.: Doubleday, 1975; Literary Guild, 1975;
Saturday Review Club, 1975; Bantam Books, 1976.
Está representada na antologia Sweet Marmalade, Sour Oranges: Contemporary Women's Fiction. Ed. Alice Clemente.
Providence, R.I.: Gávea-Brown, 1994. 

Italiano
Le nuove lettere portoghesi. (As Novas Cartas Portugueses). Milano: Rizzoli, 1977.

 

 

 

 

 

Citações sobre a obra

 

Se há na moderna literatura portuguesa uma 'obra aberta', é bem esta de Maria Velho da Costa .(...) Nenhum dos nossos livros contemporâneos redistribui com tanto sucesso as experiências mais criadoras da prosa portuguesa, de Fernão Lopes a Guimarães Rosa, paisagens atravessadas e recriadas, a par de outras, com uma originalidade absoluta. Não é a sua visão, nem desorbitada como a de Herberto Helder, nem irrepressível e aleatória como a de Bessa-Luís. Exprime-se com contenção e reserva, em parágrafos tensos para melhor explodir a ira informe mas controlável que a habita como herança sua e da longa linhagem que do castro ibérico até ao interior morto da sala burguesa se metamorfoseou em história e natureza. 

Eduardo Lourenço in O Canto do Signo
(sobre Maina Mendes)



O romance contemporâneo debate-se com problemas de remodelação de estrutura que incidem fundamentalmente sobre os mecanismos de representação. (...) Casas Pardas, obra que tem sido muito (justamente) festejada, até institucionalmente (Prémio Cidade de Lisboa - 1977), coloca de maneira invulgarmente aguda essa problemática por se constituir exactamente como um romance baseado na estrutura tradicional (...) sendo ao mesmo tempo uma desconstrução (...) do sentido romanesco tradicional(...).

Maria Alzira Seixo, Colóquio – Letras



Desde a publicação de O Lugar Comum, há aproximadamente três décadas, que Maria Velho da Costa vem escrevendo muitas das mais extraordinárias páginas da literatura portuguesa. O seu último romance alarga o sentido desta sentença. Quero dizer: Missa in Albis é uma clara forma de reflexão ...sobre um tempo-síntese: os anos 60. Poucos intelectuais ...têm posto em discussão
de modo verdadeiramente revolucionário (i. e. inteligente) a doença da censura, o salazarismo, a guerra colonial, o feminismo, a luta das minorias, numa palavra, o início da história portuguesa contemporânea.

Jorge Fernandes da Silveira, in Colóquio–Letras



Maria Velho da Costa assina aquela que é seguramente uma das mais importantes obras romanescas da segunda metade do séc. XX em Portugal.... Os mundos ficcionais que constrói são percorridos por uma veemente passionalidade que se investe em situações de opressivo sofrimento de um "destino" imposto, ou de dolorosa aprendizagem e busca de construção de um destino individuado. A imensa e "mansa" violência quotidiana; as situações-limite ...; o mundo encantado das trocas entre o feminino e o matérico elementar; a dramaticidade (apaixonada e irónica) das relações entre mulheres e homens; – eis algumas das formas de
acontecimento que se encontram no universo ficcional de Maria Velho da Costa.

Manuel Gusmão
"Breve apresentação de Maria Velho da Costa", 1995



Ressalto o furioso humor destes contos, que fazem, em muitos casos,"chegar as lágrimas aos ouvidos", como diz uma personagem ...porque estas histórias se constroem exactamente no tom do antídoto: contra o silêncio de que é franja..., contra o veneno da banalização, é o anti-espectáculo, a linguagem con-doída na sua extrema exigência. 

É já tradicional tomar-se o rigor da linguagem por frieza e falta de alma. Ao contrário, defendo que a linguagem destes contos é ardente, e queima, pela sua beleza literária fulgurante...Porque é na afamada justeza, na música da forma, que o que se diz tem de ser dito, ou de modo nenhum. Por esta pessoa. Bem vinda a casa, Maria!

Luísa Costa Gomes (sobre Dores), in O Independente 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Textos online

 

 

 

 

 

 

 

 

Mariana Amélia    

(excerto de Lucialima, 1983, pp. 190-193)

 

 

Vem da Missa       

(excerto de Lucialima, 1983, pp. 39 - 41)

 

 

Eugénia                      

(excerto de Lucialima, 1983,  pp. 271-276)

 

O dia estava acabado
(excerto in Vozes e Olhares no Feminino, pp. 139, 140)

 

Capa de Paula Rego

Edições «O Jornal», 1983

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eugénia

 

Eugénia levanta os olhos dos tecidos e suspira profundamente, do calor, do prazer de estar só. Só e em silêncio todo o dia. E cedo, pelas seis, mas já escureceu lá fora, há uma chuva miúda que irisa os vidros e faz frigir lá longe as faiscas dos eléctricos nas calhas, o basalto do empedrado negro e lustroso da calçada que desce, uma moreia quieta. A placa do aquecimento estala, são os segundos de silêncio antes da locutora, com a sua voz aparada nasal, anunciar que acabaram de ouvir a Tocata e Fuga, órgão, Bach. Eugénia tem o colo cheio de fios. As cabeleiras dos crisântemos amarelos, que adensam a cor para o cerne num ocre mais escuro, estão paradas no ar como que firmadas na harmonia rotunda que Eugénia lhes fixou. Vibram, plenos, algumas pétalas já tombadas, reflectidas no tampo da mesa, aos pés do retrato de Romão com Teresa Júlia ao colo, de touca de folho de elástico a emoldurar-lhe com os caracóis escuros o rostinho franzido do sol, quatro dentes à vista, de uma comicidade de coelho alertado, que não sorriu, tem só a boca aberta sob a con­descendência do pai, que lhe aponta a câmara, Eugénia, que sorri agora. Estou bem com eles porque não estão e vão voltar, o Fred janta e distrai-me, o que quer que isso queira dizer, o tempo está cheio sem surpresas, posso dormir com duas botijas de água quente na cama, envelhecer. A minha vida foi sempre pontuada por uma deliciosa relação com as pausas, o interior do silêncio dos interiores e das paisagens, a pulsação que as coisas tomam na ausência de ou­tros, dos outros.

Judite dizia que a minha alma engordava nas ausências, como um pacho de algodão na água morna, O órgão ensaia numa matriz deserta, o organista oculto pela talha doirada e a tubagem, o som do órgão, vagaroso cachoar de vagas mornas. Uma quadra micaelense vem-lhe, de onde?, e a memória fulva das conteiras que minam lá longe nas bermas as raízes da cachoeira de hortenses, Eu fui beber água à fonte, Tu bebias e eu bebia, Tu dum lado e eu do outro, Aguae be2josà porfia.

Tenho sorte de ter tempo para divagar as coisas que divagam comigo, como se já fosse velha e apenas assistisse. Ou não é nada disso, é o contrário — estou cada vez mais como a criança que está só, entretida, e pode ou expandir-se ou desdobrar-se. Que se passa­va, nesse tempo em que eu ficava só, rodeada de miniaturas de ob­jectos e de figurinhas de papel recortado, abertas com a tesoura da costura de abas de oiro, um pouco romba, e que falavam e agiam com a minha voz e os dedos, se trocavam sentimentos e deveres e beijos à cinema, o chão à volta do bibe juncado dessas sombras brancas, por dentro do silêncio do quarto e da casa alheia de mim, mas que me confinava o sossego. Eugénia suspira, quente, tira os óculos de aros leves que assentam na ponta do nariz, agruma os fios e troços de tecidos numa pequena trouxa sobre o divã e levanta-se.

A cozinha resplandece de limpa, ordenada. Mas mais fria que qualquer outra divisão da casa. Os periquitos de Teresa Júlia ge­mem baixinho, arrufam-se, catam-se e ficam a fitar-lhe o vulto. Fred disse que trazia uma surpresa para o jantar, viria cedo, cozinhava, gaiteiro pelo telefone, o que deveria significar que tinha companhia. No frigorífico, pensado como o recheio de uma montra, Hermínia ganhara na Alemanha, ou já os tinha da planície obcecada no bran­co, hábitos de laboratório, está o pudim de sêmola, enformado bran­co com a sua coroa de gelatina translúcida, tão pouco apetecível ain­da como uma nave espacial estremecendo de leve do roncar da má­quina. Eugénia agacha-se para tirar gelo mas fica-se a contemplar por segundos, agradada, as bonitas dobras da sua saia cerise, de mohair, cujos fios prateiam ao foco fluorescente, sobre o ladrilhado largo, branco e preto, sob as madeiras claras. Ao fundo da cozinha surge-lhe uma imagem remota, Fisália de crista e lágrimas no baptizado de Teresa Júlia, o pudim de sêmola estatelado no chão, Fred de gatas fazendo de cão, o rosto de Fisália desdobrando-se do terror ao alívio, ao riso, diante do seu riso, Eugénia, dando com o quadro. Tantos anos, tão vívido — como uma alucinação. E é com sorriso que se arranja um whisky e o vem fazendo cantar as pedras de gelo pelo corredor, a saia levíssima e morna aos joelhos, aos tornozelos. O telefone toca. Eugénia sente só um pouco de desagrado, não seja voz que não reconheça.

— Sim meu querido, onde é que estás? A que horas? Ah, mas vêm cá trazê-la. Outra vez? Não, querida, mas já sabes que o tio Fred gosta sempre de te ver. Teresa Júlia! Não, claro que não. Que ideia, meu querido, sabe-me bem, até, estar sozinha. Não, só vem ànoite, o tio Fred cozinha. No Zip-Zip?, não nem faço grande tenção de ver, hoje. Empresto, querida, mas não achas muito pesado? Não, talvez telefone à noite, sabes como são as chamadas de Luanda. Deve estar a chegar. Não faço ideia, qualquer coisa de esquisito, caracóis em rum, ou assim, mas queres jantar connosco, antes de ir? Então até já, meu amor. Quem? Em Joanesburgo? Não posso crer. Até já, então, querida, até já. Vejo, amor, até já.

 

Ainda a sorrir-se, Eugénia acende a televisão. Uma mulher morena, impecavelmente fardada de mulher de quadro administrativo que recebe, camiseiro de seda de laçada, arranja flores. Dispõe assimetricamente num tronco seco florescências igualmente secas e mergulhadas em tinta doirada que ensina a preparar, pinhas abertas em rosácea, folhas de plátano e bolotas. Lamenta a ausência de cor da imagem. Se tivesse o cabelo fino e frisado e não aquela coifa lacada parecer-se-ia com Judite, se Judite fosse parva, se envelhecesse parva. São os malares altos e os olhos frios a ponto de parecerem maus, rejeitantes. Apaga o aparelho. Talvez seja afinal um pouco cedo para Fred vir, atrasa-se sempre, há-de vir festivo e excitado co­mo uma fada boa. A fairy, chamam-lhes os ingleses. Ou uma rainha, a queen. Porquê? Que está Judite a fazer em Joanesburgo? Talvez se encontre com Romão em Luanda, que ideia estúpida, co­mo se África fosse pequena, nunca gostaram um do outro. E Eugé­nia segue o olhar de Judite ensombrado por uma capeline preta, frio sobre as costas também de negro, um fraque, de Romão,

‘Bonito homem, teu homem, pouquinho burrão, não é mesmo?’

Eugénia estava grávida, tem um vestido verde-água que a faz sentir-se uma rã alagada, de água, de bem-estar, sorri, Romão já lhe deu muitos desgostos, como dizia a mãe, precipita-se agora sobre uma rapariguinha que fuma de boquilha e que só tem uma alça ver­melha, traçada no ombro, é um copo d ‘água ao ar livre, Judite tem um vestido preto com pintas brancas que lhe traça no joelho sobre a perna morena que balança, irritada,

você aceita ele te encornar desse jeito?, para ser visto te encornar desse jeito?, parece quadro do Magritte, está te vendo ver as costas dele vendo as costas dele, Eugênia.’

Aquela vogal que ela nem sempre fechava no nome dela, Eu­génia, irada como um pai amantíssimo que deixou a filha beijar o sapo errado,

‘Judite, não entendes, é ele que tem medo de mim, desta barriga. Já me disse que não quer mais filhos, nunca mais.’

‘E você, tu queres mais crianças?’

‘Senão precisasse de homem'.

E ambas se riram, Judite lançou-lhe a mão, fresca, seca, à que ela tinha no colo e levou-lha à cara, como um noivo fiel, era isso, como um noivo fiel. E Eugénia sorri agora, porque Alexandre Pons, que também estava, as surpreendera assim e dissera, ‘Deus, não há como a cortesia entre mulheres, Judite, você amava-me, se eu fosse lésbico?, eu tentei com a Eugénia e ela não deixou’. E tinha os olhos postos nela, Eugénia, mais exactamente onde a barriga lhe fazia uma colina onde ela assentava as mãos, a de Judite nas suas. Judite tinha levantado o braço a segurar a capeline para o olhar, pa­ra olhar de novo Romão debruçado sobre a rapariguinha que ria, ao longe. ‘Você não vai ter mulher nunca, Alexandre, nem homem, tua valentia é como de uma rapariga solteira.’ ‘Da Amazónia?’, dissera ele, a sorrir, já desviado delas. ‘Da Amazónia’, assentira Judite, agora esfumada na memória como um retrato brilhante na mica da cabeceira de uma campa.

Eugénia sente um arrepio, estremece. Talvez tenha um princípio de gripe, ou esteja só cansada. Mas de quê?, pensa. Onde estará Judite?, de facto em Joanesburgo? Que Alexandre voltou de Madrid há duas semanas, não tardará a aparecer, a entretê-la com

histórias dos mentideros locais, que lhe parecem tão remotas como as de um outro mundo, menos que Judite, que lhe trouxe figos e torrão de Israel e uma peneira de arroz da Indochina, ‘Cê tem visto Alexandre?, está gordo e grande, eu acho que ele continua crescendo’, ‘... é o meu segundo divórcio, Gena, faço-as e deixo-as ir à vi­da, tu não pudeste, a Judite não quis, e a Iza está cada vez mais doida’. ‘Parece o julgamento de Páris, sem maçã’, dissera um dia Judite, rindo. ‘É’, dissera Alexandre na imensa capacidade de mímica linguística, ‘...é mesmo. E Vénus sou eu, minha inveja do amor de vocês, meninas’. ‘Alexandre, porque você não adopta um menino jovem, um menino bonito que se pareça com você?’ ‘Judite’, tinha ele dito, era uma noite, Romão tinha levado a secretária para Roma, Teresa Júlia dormia aos sobressaltos para não urinar a cama, por mais que a calmasse. ‘Judite, rapaz que se pareça comigo, só vocês três juntas, a alma de Eugénia, o coração da Iza e a tua inteligência, meu bem, que não tem poiso, como umapila no ar.’

‘Esse menino me confunde’, dissera Judite, ‘mas é melhor que teu talhante.’

Nunca gostaram um do outro, era assim que Judite o referia, teu talhante. E Romão, uma noite, Teresa Júlia com onze anos ti­nha decidido contra a vontade dele que não teria lições de ballet, tinha-o decidido num pranto exasperado mas decisão tenaz, Romão tinha-lhe dito nessa noite,

‘Estou farto de mulheres.’ Ao que Eugénia respondera mansamente, quase sem ironia, ‘Não se nota’. Ele virara-se num rompante, ‘A culpa é dessas megeras de merda que vêm da sua infância, essa cabra da sua amiga Iza e essa judia seca como uma tábua da lei’. Eugénia vê-o — estava de roupão de seda e pijama, a cinza tombava-lhe de uma cigarrilha para o chão, tinha bebido bastante, embora nunca ficasse bêbado. Pára, retém-se no que disse. Começa a sorrir, mau, e diz, ‘A sua Judite, nem para lésbica tem coragem, só para ver, anda no mundo a ver’. E Eugénia ouve-se dizer, ainda, ‘A Judite tem sorte, não ama ninguém.’ E ouve-o ainda bater com a porta para fazer, ainda, mais uma vez, as malas nessa noite.

E Eugénia pensa, ‘Sou eu que tenho sorte, amar é que é a minha indiferença, eles é que não podem parar’.

 

Ouve o relógio, a regularidade musical da percussão do pên­dulo, passou quase uma hora a vê-los e ouví-los, ri-se, como em criança, mas agora têm espessura no tempo e no espaço, odores, vo­lumes, Romão dentro dela, voltando sempre, no exaspero. ‘Tu, só tu’, chamando-a, ‘Minha mulher’, como se isso fosse uma maldi­ção, Judite enviando-lhe o álbum das fotografias de estropiados far­dados e remotos — ‘A ti, à Teresa Júlia: os Homens

Tanta pretensão, tanto ruído. Também Hermínia encolhera os ombros a tudo, numa zanga, ‘Menina Teresa, isto é que é maneira de deixar os iogurtes no frigorífico?, isto é que é alimentar-se, minha senhora, uma menina a desenvolver?’, uma zanga muito mais fraterna que a de Romão, Judite, eles —Eugénia enrosca-se no chaile, cujo escocês, uma das faixas, ‘Sinalizam linhas de família, clãs’, dissera Romão quando lho trouxera de Glasgow, com a sua saia comprida, luminosa sobre a coxa grande do seu corpo que tem vindo a avolumar, sempre, sem deformar-se ainda, ‘Sou eu que fico, sou sempre eu que fico’, pensa. Acende um cigarro. As folhas da begónia que regou pela manhã es­tão túrgidas de vida, veludas, a penugem brilhante, um animal à es­cuta. Os objectos reencontrados depois da ‘ausência’, da rêverie tão vivida, redão-lhe a paz, da qual não teria partido para memórias tão fortes, se a não tivesse. Fred há-de estar a chegar. Que importância tem toda esta gente se não me tocassem como os heróis que povoam uma imaginação educada?, este é o meu olimpo e a minha epopeia, tão fechada como a câmara de Hera. Sou eu que fico, porque posso ficar, tanto pior se isso lhes for afronta. E assustada pela própria inusitada prosápia, Eugénia estende a mão para o imbroglio de tra­pos e fios, ‘Ama e faz o que quiseres’, Não sei fazer nada, pensa. Mas isso não lhe traz qualquer amargura — atravessar um quarto, ou a dor, ou um continente, talvez seja o mesmo. E ainda que eu fosse exposta à dor de uma maneira muito mais — lancinante, como acontece a Romão e a Iza, e a Judite procura, seria o mesmo — não sou a minha experiência. Ou não tenho curiosidade dela.

E as vozes voltam, lapidares, Eugénia começa a ter frio, a estranhar deveras a demora de Fred, de Teresa Júlia que virá a casa apenas para mudar de roupa [...]

Maria Velho da Costa, Lucialima, Edições «O Jornal», 1983,  pp. 271-276

 

 

 

Mariana Amélia   

A mãe fala, fala. As mãos são finas e debaixo dos olhos e da boca pequena que não pára, e tem as unhas debruadas de negro, o sangre que o vinagre não descoalhou. Descasca agora um alguidar de batatas, as fitas muito alvas e húmidas por dentro caem enroladas, vibram até se aquietarem sobre o jornal que ela desdobrou no oleado. Lá fora a galinha que foi deitada rouqueja pelos pintos que respondem em pios como agulhas. As unhas da mãe são compridas e parecem puxar os dedos mais até ao fim. A tua mãe tem mãos patrícias, diz a madrinha, patrícias.

Os teus irmãos viam-se medrar. Nada lhes estancava a fome. Tu não, Biqueira, eu comprava-te uma mioleira de carneiro às escondidas do teu pai, deixava-ta comer às colherinhas de chá. O teu pai entrava e tu fazias-lhe uma poça de vómito aos pés, os grumos dos miolos ainda quase intactos e ele dizia, arredando-te, Que é que tem a menina, porque é que descuidas esta quando não descuidaste os outros, se calhar não fui eu que a fiz, é o remorso, hã? E avançava para mim, hã?, cheio do bafo ázido do vinho e o de peixe, da cama da outra. Tu amparavas-te à tua saia de verga e tinhas um vinco entre os olhos como uma velha. Fazias asco, ou medo. Só o Dago­berto é que vinha, por pão, por azeitona nova, por pão e torresmo, quando lhe cheirava e tu dizias, Mariana Amélia, toda acertada, chuchando no fio que te deu a tua madrinha e nos dedos dele, que os untava de mel com sal, um por um. Passa-me dali aquele pano. Tu não ouviste, Mariana?

Senhora?

Tu estás a mangar comigo?, isto é que te fizeste pousona na da tua madrinha —

Senhora?

O pano, que tens tu aí nas pernas, rapariga?

Mariana Amélia estava a mudar a alface da gaiola do grilo. Era uma pequena estrutura de madeira e arame de onde pendiam quatro pequenas campânulas que tangiam um som quase imperceptível. O animal, de um negro rutilante na penumbra da cozinha, sondava os ares com as suas grandes antenas, saltarico para longe dos dedos de Mariana Amélia nas suas patas serrilhadas, embora escutasse o que ela lhe dizia na cabeça, Chó, chó, hei-de-te soltar pelo dia da Ressurreição, hei-de, hei-de. Tinha sentido o fio morno a descer-lhe pela perna, mas nem tinha olhado. Fazia já muito que tinha vontade de urinar, trazia-a do caminho, mas adiava, com a voz da mãe e as mãos, e agora o corpo cintilante do animal que os irmãos haviam aprisionado e que fazia no entardecer, posto à fresca, um canto brilhante e igual, apaziguadoramente igual. É uma fêmea e chama-se Zoé, tinha ela dito para o Adolfo. As fêmeas não cantam, podona, dissera-lhe o irmão, com raiva. Zoé, Zoé, chamou-lhe Mariana Amélia na cabeça, na boca sem abrir a boca, Perdoo-te Zoé. A madrinha tinha-lhe dado um livro da Colecção Manecas, era A Princesa Zoé. Uma menina rica e desobediente que não acreditava em bruxas.

Conta, Marianica.

A irmã Zulmira, com quem dormia, queria sempre ouvir tudo, da da madrinha, dos livros, suspirava de todo o alheio. As duas aconchegadas no colchão que rangia as palhas e fazia buraca onde se enroscavam sob as gravuras que Mariana trazia e pregava na parede com um pionés, [...].

Que é que tu tens aí nas pernas, rapariga, tu aleijaste-te? Mariana Amélia tinha sentido a descida do fio morno mas pensara, sentira, que seria um pouco, muito pouco, de urina. Terminado o do grilo iria sentar-se fora no casinhoto da pia, pondo as mãos por baixo, como a madrinha lhe ensinara, limpando-se bem ao pedaço de jornal, como lhe mandava a mãe.

Não sei, senhora, é sangue.

Era um fio de sangue que lhe descera até às soquettes enroscadas e se embebera numa ferrugem como se lhe tombara dos joelhos, mas não era dos joelhos. Nem se assustou, que a mãe pareceu-lhe logo de imediato mais irada que em susto ou ralação e nem era bem com ela, como se não fosse dela.

Tu já tiveste o incômodo, na da tua madrinha?

O quê, senhora?

Chega aqui.

A mãe puxa-a por um pulso para dentro do quarto onde dorme. A luz da lamparina que navega sobre o azeite bruxuleia, faz lívidas as figuras da Sagrada Família. Por cima do nicho de madeira a mãe deitou um pano roxo com um debrum doirado. Pela bandeira do quarto, que é interior, quase não vem luz. A mãe ajoelha-se, leva-lhe as mãos ao elástico das cuecas e puxa-lhas para baixo. Há uma mancha redonda, quase negra, no entrepernas. Cheira a carne cozida, um pouco estragada, quente. A mãe tira-lhe as cuecas, como quando era pequena. Fica aqui, diz-lhe. A lamparina chia. Os recortes no espaldar da cama parecem maiores, os puxadores das gavetas luzem e Mariana Amélia vê-se no espelho ligeiramente inclinado que está nos seus gonzozinhos de madeira por cima da cómoda — mais pequena, parada ali, descalça em cima do tapete de felpas, à espera. A mãe volta com um alguidar com água morna, uma toalha e um toco de sabão azul e branco. Lava-te, diz. Depois pões isto. Atas estas à frente e estas atrás. E vestes estas cuecas lavadas. Mariana Amélia pergunta, mas é por cerimónia, já tinha visto os baldes ao lado da pia na casa das águas das criadas na da madrinha, as fitas de nastro dos panos boiando na água rosada como os rabos dos peixes num lago, o lodo de um vermelho quase negro, nunca perguntara. É doença, senhora?

Não te faças sonsa, a casa da tua madrinha está cheia de mulheres, logo havia de ser aqui a primeira vez.

Maria Velho da Costa, Lucialima, Edições «O Jornal», 1983, pp. 190-193

 

 

Vem da missa confessada e comungada

 

Vem da missa confessada e comungada, que é principio do mes. Olha agora para o fundo da grande praça branca. Ele sabe que ela vem da missa àquela hora. Mariana Amélia encurta o passo ar­rastando um pouco os sapatos mal cingidos aos pés, sonda as janelas de gelosia entreaberta sobre a vidraça fechada, fica-se a mirar umas peles de cordeiro que cheiram a bedum, penduradas numa venda de cigano. O cigano diz-lhe, ‘Vai alguma coisa hoje, fremosura?’.

Mariana Amélia tem medo, o padre sabe o que se passa, a madrinha falou-lhe, o cigano insiste, ‘Roupinhas de nobia, nena bonita’.

   Olha que a tua madrinha não anda nada contente contigo.

   Que fiz eu, senhor Padre Vasques?

- É o que não fazes. Que não ajudas na casa, que não costu­ras, que não lhe dás atenção, a senhora dona Clotilde foi sempre muito boa contigo.

  Não foi não.

  Que dizes tu, rapariga?

  Não foi não.

— Não digas isso, que brada aos céus, a ingratidão. E olha, esse derriço que arranjaste agora, que não comes.

  Não é derriço nenhum.

  Olha que a senhora já me disse que não quer mais responsabilidades. Criou-te, mas não te andou a educar para andares agora embeiçada com um maltês, que diz que o rapaz que hoje é bate-chapas em Elvas, amanhã no Barreiro, sem eira nem beira, nem sequer fez ainda a tropa. Para que te deram o segundo ano do Liceu, uma criação de menina fina? Não dizes nada?

Não dizes nada. Vamos lá à confissão.

ln nomine Patri et Filli et Spirictu Sancti. Há quanto tempo te confessaste?

Há um mês, senhor Padre.

Que pecados tens?

Faltei ao respeito aos meus superiores.

Tens rezado as tuas orações?

Tenho.

O terço?

Rezo todos os dias com a minha madrinha.

Que mais?

Tenho maus pensamentos.

Com alguém na tua companhia?

Não. Sozinha.

Em que consistem? Pensas que alguém te está a mexer? Imaginas-te a faltar à castidade?

Não.

Tens que me dizer em que consistem, senão não te posso absolver.

Vejo coisas.

Vês o quê?

Vejo-me a matar alguém. Depois mordo-me e choro, arrependida.

Quem?

Não sei, depois não me lembra de nada e deixo de ter remorsos. E como se estivesse enterrada, a cabeça cheia de falas de toda a gente.

E que te dizem?

Tudo. Como tudo é ruim.

E com o teu conversado, ele tem modos contigo?

Não tenho conversado.

Sabes que é pecado grave mentir na confissão?

Sei sim.

Que mais te acusa a consciência?

De mais nada.

Ego te absolvo in nomine

Reza uma salve-rainha e dois padre-nossos. Vai em paz.

 

 

A motoreta vem a entrar na praça pelo lado de cima, do arco. o rapaz vem muito branco, olha para ela sem falar, pára à beira do passeio. Mariana Amélia aproxima-se. ‘Anda’, diz ele. Mariana Amélia monta-se e agarra-o pela cinta. Os mamilos pequenos parecem unhas sobre as costas dele.

A casa de alfaias é muito escura. Mariana Amélia ao entrar não vê nada. Sente o cheiro da ferragem oxidada, dos couros, da palha, e do suor do rapaz e do seu próprio corpo, quente e salgado como o da cebola.

Tens medo, Mariana?

Tenho.

Ninguém te há-de ter visto.

Ora não, no Rossio, manhã feita.

Foste à missa?

Fui.

[...]

Maria Velho da Costa, Lucialima, Ed. «O Jornal», 1983, pp. 39 - 41.

 

 

 

 

 

 

 

  Mas o que enfim se não entende É que aquele que se prende

 É quem nos prende a nós»

Gustavo Matos Sequeira in Bocage

 

O dia estava acabado. Ao menos para aquela gente. Ao seu sinal de arrastar a cadeira tinham-se levantado, os apetrechos sumptuários já arrumados nas pastas, nas carteiras de marca enormes das mulheres, para todo o serviço. Alguns, em desfastio subreptício, guar­davam a esferográfica posta à disposição, as folhas A quatro virgens de notas e rabiscos, com o timbre da casa. A fadiga, o alívio. A reunião correra muito bem. As congratulações finais. A repugnância.

Diante do espelho enche a concha das mãos de água fria. Passa a cara, a água gelada dos canos desliza pelo interior dos punhos aos pulsos. O arrepio passa ànuca, às espáduas. Olha-se, vê-se. As bolsas do des­gaste, a cara sem decifração possível ainda afivelada. O sangue sobe ao estímulo do frio. Remoça em segun­dos para aparar a noite. A bela feição a cinzel. Nada mudou no espelho da emanação dos balneários, dos sanitários de liceu, de hotéis e casas. Nada. Dorian Gray ao invés. O olhar fixo que ainda transtornava os lugares públicos, passeado, fixo e solto. A avaliação que demite, o desprezo.

Enxuga a cara. Um rubor de pedra nos malares. As pessoas são escolhidas pelo que têm, não pelo que lhes falta. Lei da selva? Exactamente. Incompetentes, obtu­sos, cães da intriga uns dos outros, da sua. A figura no espelho encolhe os ombros, arremeda-o num esgar a reaver a lassidão da pele enxuta. Penteia-se, acha-se bem naquele rosto que vem da terra. Da terra, dissera-lhe o amigo há tantos anos. Da terra, como um usur­pador a cavalo, com esses olhos mongóis. A guinada na memória afasta-o do espelho.

A reunião correra bem. Iam satisfeitos consigo, coniventes com ele até à próxima intriga, aos vapores da cobiça e da intriga apaixonada em todos os escalões. Aquela gente não tinha vida própria sem noticiar-se, sem denunciar-se. O trabalho não era conseguir, era resultar contra alguém. E ele, onde chegara e porquê, o afecto, todo o afecto coarctado. Temido sem estima, informado a medo, arredio à convivialidade e à delação. O cargo. Exactamente. Uma carreira temível, esco­lhido sempre mais alto em momentos de risco, não dê fraqueza. Quando se requeria uma testa de ferro. Riu-se sozinho, que era como se ria, lembrando-se da mulher que já não tinha, que nunca quisera ter. Objec­tos que não consumia, não consumira ninguém. Reti­rava, sem desejo na alma, um mínimo. Os outros impacientavam-no, e as emoções.

No elevador os espelhos já foram como se não exis­tissem. Pelo palácio quase vazio onde não fez som, os funcionários menores levantaram-se à sua passagem. Eram os únicos que pareciam agradecidos da sua brus­quidão, que lhes enformava as vidas num sem sobres­salto: sem afabilidade e sem destemperos. Sem favor, nem desfavor.

Despediu o motorista que aprendera a colocar as fei­ções pelo seu registo. Aprendera, há muito, com as passagens de mão. Cada um e o tudo o que se ouve uma lição de impassibilidade e mutismo.

A noite estava de uma grande frialdade enevoada, sem chuva. Levantou a gola do sobretudo e não estu­gou o passo sobre o lajedo do grande átrio aberto, a praça lúgubre. Deixara a pasta para seguir de madru­gada. Estava uma noite de desafios parados, serenís­sima, as núvens de bafo a acompanharem-lhe a cabeça.

O homem caminha, cisma e olha. É assim que pensa, pondera, vê, em passos que não se ouvem. Não há vivalma, ouve-se o tráfego ao longe. Uma rata soer­gue-se na sarjeta próxima. As guias finas brilham aus­cultando o ar sem aragem. Retoma o seu que fazer. Reconhece, nas vibrissas, o que nele vibra, frio e cauto. Igual para igual. Macio, as patas frias. Medonho para quem não for dessa espécie, dessa variante. O homem avança para a outra praça que tem uma torre que sai do solo. Como é seguro o sereno. Na boca da noite o homem acha os lugares que fazem o sereno e lhe convem.

Helena pode estar lá, detrás da torre, é um dos luga­res onde se arrima. Não hoje. O homem refaz o cami­nho de regresso, lento, sem busca, às luzes da cidade, por outra trajectória possível nas rotinas da hora parada.

Helena está sentada no banco do espaço arborizado que confina com a fachada iluminada do palácio, a sul-poente. Da fachada com as altas janelas e portadas entaipadas que dão para o nada, dos debruns altíssi­mos das salas e quartos de que só resta uma quarta parede, as chagas das obras incompletas há décadas. Iluminada ao alto, a bela ruína, mas não o banco de pedra onde está Helena, à sombra dos eucaliptos já idosos, os sós eucaliptos daquele lugar de passagem ermo, eucaliptos e detritos e escaras de estuque arcaico do palácio contíguo, com as suas arcadas cegas.

Ai, diz Helena, hoje vem mais tardio, doutor. Não épetulante, Helena, nem popular no dizer. Mais parece suspiro de mágoa mundana, a frase feita. O homem senta-se ao lado dela, as mãos nos bolsos com os pole­gares agarrados nos punhos. Não se enfrentam, mas ele vê com o horror crescente de todas as vezes o que ela traz vestido: um casacão roto que decerto perten­ceu a homem ou a mulher alentada, uma camisa de noite de flanela com motivos infantis que lhe tapa os joelhos. Numa das pernas tem uma ligadura suja, enrodilhada já. Nos pés, as botinas cambadas deste Inverno, peúgas de lã descaídas.

Não é um jardim, não é uma alameda, não há pas­santes. [...]

pp. 139, 140

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prémios

Prémio Cidade de Lisboa , 1978 (Casas Pardas).

Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, 1985 (Lucialima).

Prémio de Ficção do P.E.N. Clube , 1989 (Missa in Albis).

Prémio da Crítica da Assoc. Internacional de Críticos Literários, 1995 (Dores).

Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, 1996 (Dores).

Prémio Vergílio Ferreira da Universidade de Évora, 1997 (pelo conjunto da obra).

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, 2001 (pelo romance Irene ou o Contrato Social)