Maria Teresa Horta

 

Biografia

Obra

Sobre a obra

Textos online

 

 

Fotografia de Graça Sarsfield
in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Biografia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra

 

 

Na década de sessenta, Maria Teresa Horta publica os seguintes livros: Tatuagem, em «Poesia 61»; Cidadelas Submersas, 1961; Verão Coincidente, 1962; Amor Habitado, 1963; Candelabro, 1964; Jardim de Inverno, 1966; Cronista Não É Recado, 1967. 

Na década de setenta, destacam-se, no campo da poesia, os seguintes títulos: Minha Senhora de Mim, 1971; Candelabro, 2ª edição, 1972; Educação Senti­mental, 1976; Poesia Completa 1 e II, 1983; Destino, 1997. O seu livro de poemas mais recente foi publicado em 1999 e tem por título Só de Amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a obra

 

Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa e fez a sua estreia no campo da poe­sia em 1960, com um livro de poemas cujo título é premonitório: Espelho Inicial. Jornalista de profis­são, o seu nome começa por ser associado ao grupo da «Poesia 61». Mas, a partir de 1971, devido ao escândalo que envolveu a publicação das Novas Cartas Portuguesas, de que foi co-autora, e ao processo judicial que se lhe seguiu, passa a ser vista como um expoente do feminismo em Portugal.

 

A sua luta pelos direitos das mulheres é inseparável de uma carreira literária muitas vezes afectada, positiva ou negativamente, pelo seu posicionamento ético. No entanto, e apesar da intransigên­cia das suas convicções, a escritora não se reconhece na imagem estereotipada da «feminista militante»: «Eu sou precisamente o contrário do que as pessoas imaginam das mulheres feministas» (Pública, 208, 21.5.00).

 

Se a imagem da escritora é naturalmente associada à coerência e firmeza das suas posições em prol dos direitos da mulher, é tempo de (re)lermos os seus livros um a um, e seguirmos o trajecto lumi­noso de uma escrita poética nascida de uma exigência radical de liberdade. O erotismo que a percorre começa por ser a denúncia da repressão sexual que pesa violentamente sobre a mulher nos anos ses­senta, num momento em que é posta a nu (Reich, Marcuse) a articulação entre esta e o poder político. Mas, logo se torna perceptível que esse erotismo extremado é muito mais do que a expressão de um inconformismo lúcido ou de um exercício subversivo da liberdade. A escrita erótica de Maria Teresa Horta é sentida como uma forma intolerãvelde apropriação de um discurso do prazer, ou da fruição, que era pertença exclusiva do território masculino, não só dentro de uma ordem social e política dis­criminatória, mas também, e sobretudo, no interior de uma ordem simbólica, onde a própria lingua­gem é um instrumento de opressão. Como foi insistentemente sublinhado por Roland Barthes, a lín­gua encarrega-se de marcar a diferença sexual e social, mantendo, por um lado, separados os géneros feminino e masculino, e confundindo, pelo outro, «a servidão e o poder» (Lição, 1979). A subordinação da mulher ao homem é função de um discurso que intenta salvaguardar os princípios da hegemonia cultural masculina, sendo o corpo feminino uma construção que se vai adaptando aos imperativos de uma ordem falocêntrica dominante.

 

Neste sentido, Minha Senhora de Mim (1971) é, sem dúvida, um dos livros que assinala um impor­tante momento de viragem na escrita feminina contemporânea e, mais subtilmente, na obra da própria autora.

 

A poesia de Maria Teresa Horta afasta-se contudo dos imperativos definidores e delimitadores das formas mais radicalizadas do feminismo actual. A sua visão do erotismo funda-se no desejo de uma autêntica complementaridade entre a mulher e o homem e esclarece-se, quanto a nós, à luz da tese platónica da cisão originária dos seres em duas metades e da trajectória de cada uma delas em busca da outra, através do amor. Daí que a sua poesia se reconheça dentro de uma belíssima definição do erotismo dada por Bataille: «uma imensa aleluia perdida num silêncio sem fim» (O Erotismo, 1957).

 

Nesta obra poética, marcada por uma invulgar coerência, espelha-se uma concepção de poesia profundamente intimista e feminina, alimentada pela crença no amor único e recíproco, como forma abso­luta de negar a violência da morte e a inconstância dos afectos humanos. [...]

Maria João Reynaud, in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, 
Porto 2001, pp. 32 - 34

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Textos online

 

Minha senhora de mim

Poema sobre a recusa

Roteiro de Lisboa

Os silêncios da fala

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minha senhora de mim

 

 Comigo me desavim

 minha senhora

 de mim

 

 sem ser dor ou ser cansaço

 nem o corpo que disfarço

 

 Comigo me desavim

 minha senhora

 de mim

 

 nunca dizendo comigo

 o amigo nos meus braços

 

 Comigo me desavim

 minha senhora

 de mim

 

 recusando o que é desfeito

 no interior do meu peito  

 

Minha Senhora de Mim, Editorial Futura, 1974 - Lisboa, Portugal

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poema sobre a recusa 

 

 Como é possível perder-te

 sem nunca te ter achado

 nem na polpa dos meus dedos

 se ter formado o afago

 sem termos sido a cidade

 nem termos rasgado pedras

 sem descobrirmos a cor

 nem o interior da erva.

 

 Como é possível perder-te

 sem nunca te ter achado

 minha raiva de ternura

 meu ódio de conhecer-te

 minha alegria profunda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Roteiro de Lisboa

 

 Vejam meus senhores

 é uma cidade

 com suas crianças

 homens sem idade

 

 É uma cidade

 cercada colhida

 é uma cidade

 uma rapariga

 

 Casas de ocultar

 os homens lá dentro

 mulheres que se mostram

 envoltas no vento

 

 Vejam meus senhores

 é uma cidade

 com seus monumentos

 histórias de braçado

 

 Histórias de braçado

 que ensinam na escola

 um castelo um rei

 mais uma glória

 vejam meus senhores

 é uma cidade

 com suas crianças

 homens sem idade

 

 Lá em baixo o Tejo

 que é nome do rio

 a lamber as armas

 com suas colunas

 

 Com seus prédios velhos

 um rio lá em baixo

 a lamber as pedras

 as pernas-guindastes

 

 De onde o seus bateis

 partiam diurnos

 vejam meus senhores

 é uma cidade

 de mãos empurradas

 no fundo sem idade

 com suas crianças

 homens dos olhos

 

 De bruços o céu

 com seus girassóis

 Lisboa é cidade

 com heróis de luto

 

   O nosso amargo cancioneiro, Livraria Paisagem, 1973 - Porto, Portugal

 

 

 

 

 

 

 

Os silêncios da fala

 

São tantos

os silêncios da fala

 

De sede

De saliva

De suor

 

Silêncios de silex

no corpo do silêncio

 

Silêncios de vento

de mar

e de torpor

 

De amor

 

Depois, há as jarras

com rosas de silêncio

 

Os gemidos

nas camas

 

As ancas

O sabor

 

O silêncio que posto

em cima do silêncio

usurpa do silêncio o seu magro labor.

 

 in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento,
Porto 2001, pp.
40, 41