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Fotografia de Graça Sarsfield
in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001

É com a publicação de Novas Cartas Portuguesas (1972), de parceria com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, que Maria Isabel Barreno se tornará conhecida do grande público. Nesta obra a focalização quase exclusivamente feminina e a alusão directa e sem sub­terfúgios a realidades e problemas que de regra eram escondidos e modificados constituirão novidade no panorama cultural da época e até algum escândalo, que valerá às autoras um processo judicial.

A importância do mundo feminino será assim uma das constantes dos romances de Maria Isabel Barreno, sobretudo dos que vieram a lume até meados da década de 80, como De Noite as Árvores São Negras (1968), Os Outros Legítimos Superiores (1970), A Morte da Mãe (1972), O Inventário de Ana (1982) e Célia e Celina (1985). Na última obra citada há já a interferência do maravilhoso, elemento que se tornará fundamental em obras como O Mundo Sobre o Outro Desbotado (1986), O Enviado (1991), O Chão Salgado (1992) ou O Cfrculo Virtuoso (1996), e que é frequentemente aliado ao absurdo e à procura da utopia, utopia que se manifesta na preocupação com o trabalho da escrita, que é uma obsessão em O Chão Salgado, mas que também assume relevo digno de nota em outros textos, como é o caso de alguns contos de Os Sensos Incomuns (1993).

É ainda de salientar o caso específico de dois romances, Crónica do Tempo (1990) e O Senhor das llhas (1994), onde a autora ensaia um tipo de ficção diferente - espécie de saga familiar. Enquanto no primeiro se narra o século XX português atra­vés da focalização de Jorge e dos seus familiares (mulher, filhos e netos), no segundo há a incursão pelo que se poderia designar de romance histórico, pois que é o fim do século XVIII e o XIX que ressurgem, visualizados por uma importante família de Cabo Verde.

 

Pelo exposto, poderemos concluir que a obra de Maria Isabel Barreno analisa, ironicamente, a sociedade através de focalizações várias (com incidência na feminina) e de processos vários (como o insólito ou o maravilhoso), chamando a atenção para os processos de escrita numa constante metanarração.

 

Maria de Fátima Marinho, Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001: 166

 

VER outras citações sobre a obra 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1º Capítulo: O dilema

No dia em que quis publicar um poema sem o devido enquadramento prosaico, disseram-lhe:

Não pode. Há um problema de géneros.

Sem saber como resolver o enigma, o autor — cha­memos-lhe João, para complicar os factos — interro­gou:

— De géneros? Se me chamasse Isabel poderia publicar o poema?

Explicaram-lhe que não se tratava de géneros gra­maticais, nem biológicos, nem sociais, mas sim de géneros literários.

— Não publicamos poesia.

João recolheu a casa e criou duas personagens. Cha­mou-lhes Paulo e Virgínia para lhes garantir, à nas­cença, ecos literários anteriores.

 

2º Capítulo: Um autor em busca de personagens

Paulo, rapaz poeta, inspirado nos seus actos de amor com Virgínia, escreveu:

«Punhalada de cálamo

acutilante em matéria

hesitante

Do veio ou ferida

incipiente pingam as palavras uma a uma

recolhidas

com piedade semântica».

Virgínia, também poeta, que hesitava em ir viver com Paulo no receio de se deixar apanhar nas armadi­lhas do trabalho doméstico, escreveu:

«Na fome das traças na podridão

dos bafios um outro real

se esboça construído

pela falta roído

pela necessidade esculpido».


Paulo, em dia de dificuldades (com dúvidas siste­máticas que começaram na gramática e se alastraram rapidamente a si próprio, ao mundo e ao significado último de todas as coisas), e contemplando Virgínia no acto de fazer a cama onde os dois tinham amado e dor­mido, escreveu: 

[...]

Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001: 168

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Biografia

 

Nasceu em Lisboa, em 1939. Romancista e ensaísta, revelou-se em termos literários nas décadas de 60/70, sendo uma das porta-vozes do movimento de emancipação feminina em Portugal. 

Verdadeira pedra de toque e, ao tempo, escândalo desta afirmação de identidade foi o livro Novas Cartas Portuguesas (1972), escrito em colaboração com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta (as Três Marias), que valeu às autoras um processo judicial, posto pelo regime de censura salazarista, devido ao conteúdo erótico da obra. 

Tendo tido no início influências do nouveau roman francês, nomeadamente em De Noite as Árvores São Negras (1968), o seu romance de estreia, Maria Isabel Barreno revela, ao longo da sua obra, uma especial preocupação no tratamento das categorias temporais, cruzando vivências do quotidiano com um lirismo que é uma das marcas da sua escrita. 

Para além da obra literária, Maria Isabel Barreno desenvolve actividades noutros campos artísticos, nomeadamente no campo das artes plásticas, com várias exposições de desenho e tapeçaria. 

É também autora de guiões para televisão e cinema, de onde se destaca a co-autoria do guião da longa metragem Ao Sul (real. Fernando Matos Silva, 1992). 

Tem colaborado, desde a década de sessenta, em vários jornais e revistas portuguesas, tendo sido, entre 1990 e 1993, Chefe de Redacção da revista Marie-Claire (edição portuguesa). Desempenha actualmente funções como Conselheira Cultural para o Ensino do Português em França.

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra

De Noite as Árvores São Negras. Lisboa: Europa-América, 1967; 3ª ed. Rolim, 1987.
Os Outro Legítimos Superiores. Lisboa: Europa-América,1970; 2ª ed. Caminho, 1993.
Novas Cartas Portuguesas (com Mª Velho da Costa e Mª Teresa Horta). Lisboa: Estúdios Côr, 1972.
A Morte da Mãe. Lisboa: Moraes,1972; 2ª ed. Caminho, 1990.
Inventário de Ana. Lisboa: Rolim,1982; 2ª ed. 1985.
Contos Analógicos. Lisboa: Rolim,1983.
Célia e Celina. Lisboa: Rolim, 1985.
O Mundo Sobre o Outro Desbotado (conto fantástico). Lisboa: Rolim,1986.
Crónica do Tempo. Lisboa: Caminho, 1990.
O Enviado. Lisboa: Caminho, 1991.
O Chão Salgado. Lisboa: Caminho, 1992.
Os Sensos Incomuns. Lisboa: Caminho,1993.
O Senhor das Ilhas. Lisboa: Caminho, 1994.
O Círculo Virtuoso. Lisboa: Caminho, 1996.

Traduções

Alemão
Neue Portugiesische Briefe (Novas Cartas Portuguesas). Trad. Ludwig Graf von Schonfeldt. Berlin/ Frankfurt a. M./ Wien: Ullsein
Verlag, 1976.
Der Tugendkreis (O Círculo Virtuoso). Trad. Sarita Brandt. Karin Fischer Verlag, 1997 (a sair). 

Dinamarquês
De tre Mariaer: Nye portugisisk breve (Novas Cartas Portuguesas). Trad. Elsa Gress e David Gress Wright. Copenhaga: Samleren
Publishers, 1975. 

Francês
Nouvelles Lettres Portugaises (Novas Cartas Portuguesas). Trad. Vera Alves da Nóbrega, Eveline le Carreo e Monique Wittig. Paris:
Seuil, 1976.
La disparition de la mère (A Morte da Mãe). Paris: Ed. Des Femmes, 1983. 

Inglês
The Three Marias: New Portuguese Letters. Trad. Helen R. Lane. Garden City, N.Y.: Doubleday, 1975; Literary Guild, 1975; Saturday
Review Club, 1975; Bantam Books, 1976. 

Italiano
Le nuove lettere portoghesi. (As Novas Cartas Portugueses). Milano: Rizzoli, 1977.
(As Novas Cartas Portuguesas encontram-se ainda traduzidas em várias outras línguas).

 

 

 

 

 

 

 

Prémios


Prémio Fernando Namora, 1991 (Crónica do Tempo).


Grande Prémio do Conto da Assoc. Port. De Escritores, 1994 (Os Sensos Incomuns).


Prémio Pen Club de Ficção, 1994 (ex aequo) (Os Sensos Incomuns).

 

 

 

 

 

 

 

Outras citações sobre a obra

 

Uma enredada e complexa meditação sobre o status familiar, sobre o mistério dos vínculos existentes em qualquer família, serpenteia de facto através de todo o relato; e este não é um dos menores interesses de O Senhor das Ilhas (…) O interesse pelo passado em tão largas zonas da ficção portuguesa contemporânea (…) ganha, no seu caso, uma rara fundura existencial. 

David Mourão-Ferreira
JL - Jornal de Letras, 21/12/94

Esta obra é uma inesgotável fonte de reflexão sobre a profunda evolução de Portugal a partir da Primeira Guerra Mundial até aos nossos dias. Num estilo muito dinâmico, Maria Isabel Barreno passa em revista os principais acontecimentos das sete últimas décadas e põe em relevo as consideráveis mudanças de que o "jardim à beira-mar plantado" foi objecto e isto sublinhando a evolução dos costumes, particularemente na sexualidade, sobre o lugar da mulher na sociedade lusitana e até a morte. (…) Este testemunho, escrito de uma maneira aberta, sem falsos pudores e com muito "franc parler" é uma janela aberta em grande sobre o rio do tempo que passa…

François Baradez
Letras & Letras, 11/93

O Senhor das Ilhas conta a história de um homem que naufragou ao largo do Sal, no arquipélago de Cabo Verde, em finais do século XVIII. É um retrato dessa época colonial, um fresco pintado em tons de espuma e de terra, atravessado pelos laivos da paisão e da conjura. Um brilhante exercício de ficção sobre factos da vida real de um familiar (trisavô) da escritora. Um romance que se não perde.

Visão, 21/12/94

Onze contos singulares de impertinência e delírio, fazem de O Enviado uma recolha alucinante, debruada de considerações sumptuosas, de inspiração arrebatada e por vezes extravagante, sobre o quotidiano recente e sobre os impenetráveis desígnios da escrita na primeira pessoa. A leitura deste livro de Maria Isabel Barreno afecta as duas qualidades que a tornam impreterível: substancialidade e requinte.

O Jornal Ilustrado

Crónica do Tempo, uma obra sólida, madura, extraordinária de atenção ao lado de "dentro" da vida merece que à sua volta se estabeleça um amplo consenso de leitura. Na era do fragmentário, do "clip", do frívolo, é bom ter à mão um livro como este.

Júlio Conrado
JL – Jornal de Letras, 13/11/90

Maria Isabel Barreno (…) publicou recentemente um romance grande que é mesmo um grande romance. Um daqueles raros livros que nos espicaçam simultaneamente a inteligência e os afectos, tecidos de matéria da vida e do saber da escrita. (…) O romance de Maria Isabel Barreno abre as portas a um outro destino português, o da disponibilidade, o da sabedoria funda dos seres, individualmente considerados para além dos rótulos.

Inês Pedrosa (sobre Crónica do Tempo)
Expresso, 24/11/90

Lê-se de um fôlego e fica-se com pena que acabe. É, por uma vez, um romance. Longo no tempo, espraiado no espaço, povoado por múltiplas personagens e são elas que nos faltam quando tudo se acaba e sobra uma espécie de melancolia…"pelo tempo que passa". (…) pode muito bem ser o romance de uma geração, a dos que têm hoje, aqui, 50 anos de idade. 

Rodrigues da Silva (sobre Crónica do Tempo)
O Jornal, 15/2/91