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Maria Judite de Carvalho [Lisboa, 1921-Lisboa, 1998] |
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Revelou-se como escritora com o livro Tanta Gente Mariana..., colectânea de uma novela e sete contos publicada em 1959. O livro considerado pela crítica como “estreia notabilíssima, talvez sem precedentes na história literária das últimas décadas” (Ramos de Oliveira, em Jornal de Notícias”) valeu-lhe reconhecimento instantâneo. Mas a obra completa (num total de 15 títulos, dois deles póstumos) permanece desconhecida do grande público. Nascida em Lisboa a 18 de Setembro de 1921, Maria Judite de Carvalho viveu em França e na Bélgica entre 1949 e 1955. A sua infância na capital é evocada como decorrendo num cenário feliz: “Andava de bicicleta na Praça da Alegria, ia a pé até ao Campo Grande” (entrevista ao “Jornal de Letras”, 1996), que não parece ter-se prolongado pela vida adulta que, nas suas palavras, “não foi boa, não” (ibidem). A esta amargura não terá sido alheia a hostilização do público português à sua obra. Maria Judite de Carvalho permanece uma escritora de actualidade renovada, difícil de catalogar no estilo que geralmente lhe é associado (herdeiro do existencialismo e do chamado “novo romance”), hábil dissecadora do desespero e da solidão quotidiana na grande cidade. Em “Tanta Gente, Mariana...” aparece já uma frase premonitória : “Mas hoje são 20 de Janeiro e daqui a três ou quatro meses começo a esperar a morte.” Morte que ocorreria só trinta e nove anos depois, mas cujo lastro se deixa adivinhar nestas primeiras páginas, através do percurso de Mariana Toledo, a jovem de 15 anos que descobre, repentinamente, que a solidão e a desagregação são as únicas coisas que temos certas. Embrião de toda uma obra futura (obra marcante no panorama da literatura portuguesa do século XX), “Tanta Gente Mariana...” é matriz do mundo que sempre acompanharia a obra da escritora . Um mundo onde o eco de cada passo se transforma no barulho ensurdecedor da passagem do tempo. Várias vezes galardoada, esta “flor discreta” da nossa literatura (como lhe chamou Agustina Bessa-Luis) permanece um mistério que o público não ainda não desvendou. O que a aproxima de Irene Lisboa, curiosamente a única escritora que alguma vez admitiu estar-lhe próxima da alma.
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Levanta-se da mesa. Lá fora, num relógio qualquer, batem duas horas. Daí a momentos, daí a uma eternidade, levantar-se-á da mesa outra vez. E amanhã. E depois. E daí a muitos anos. Tudo morre à noite, dizia Claude. Mas não, a vida é longa, desliza e escorre sem uma quebra. Uma sucessão de acontecimentos, uma corrente sem fim de palavras ditas e de palavras poupadas. Dessas principalmente. in As Palavras Poupadas, 1961
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Sobre
a autora
Narradora humaníssima,
de uma delicadeza e uma fundura psicológica verdadeiramente raras, Maria
Judite de Carvalho é justamente considerada uma das nossas melhores
escritoras de sempre. Foi o conto o género
que mais cultivou ao longo dos seus quase 30 anos de carreira literária,
que resultaram numa obra relativamente escassa de pouco mais de dez
volumes. Recolhido em: http://www.cm-marco-canaveses.pt/cultura/bilbioteca.htm
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Tanta Gente, Mariana
(1959) Diários de Emília Bravo, Editorial Caminho, 2002 Referências Enciclopédia Verbo - Edição
Séc. XXI. Editorial Verbo: Lisboa/S. Paulo, vol 6, p. 171, 1997.
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Prémio Camilo Castelo Branco, 1961 Prémio de Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1983 Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, 1995 Prémio Vergílio Ferreira, 1998, a título póstumo:
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| Notícia
Um subtil silêncio Na morte de Maria Judite de Carvalho, a evocação de uma grande obra A sua maneira de ser escritora era tão subtil e silenciosa quanto a sua escrita. Mas esse espaço de silêncio que criou à sua volta, um silêncio tão natural que não era feito para se dar por ele, protegeu-a também de ser objecto de uma leitura ruidosa, falsa ou de circunstância. A obra de Maria Judite de Carvalho chega assim até nós com uma enorme discrição, fiel a uma exigência que pode ser pressentida desde o primeiro momento. O último livro que Maria Judite de Carvalho publicou é de 1995. Chama-se Seta Despedida e é um conjunto de 12 contos onde se eleva esse género narrativo a um grau de mestria que ficou desde logo definido no livro com que se estreou, em 1959, talvez o mais conhecido da sua obra: Tanta Gente, Mariana. Em 1959, Maria Judite de Carvalho tinha 38 anos (n. 1921) e vivera entre 1947 e 1955 em França e na Bélgica com o seu marido, o escritor Urbano Tavares Rodrigues. Este livro de estreia, com um título em jeito de exclamação desolada, anuncia já aquilo que vai marcar toda a sua obra: as histórias sombrias de personagens que vivem uma solidão que não tem nenhuma grandeza trágica mas apenas a banalidade de um quotidiano da cidade, o que torna essa solidão ainda mais irreparável. Foi o conto o género que mais cultivou ao longo dos seus quase 30 anos de carreira literária, que resultaram numa obra relativamente escassa de pouco mais de dez volumes. Um romance, em 1966, Os Armários Vazios, e dois volumes de crónicas, O Homem no Arame (1979) e Este Tempo (1991), que tinha publicado nos jornais em que trabalhou, nomeadamente o «Diário de Lisboa», constituem a excepção a essa longa fidelidade ao conto, mas desenvolvem os mesmos temas e prosseguem essa mesma escrita capaz de construir uma história e de criar a máxima tensão a partir de pequenos detalhes e de alusões subtis. É esta escrita que se revela particularmente apta a criar ambientes, a dar forma a «paisagens» mentais e interiores de cores negras, com a máxima concentração e economia narrativas. Uma escrita que atravessa sem perturbação as inflexões históricas e literárias que lhe são contemporâneas, tendo chegado a ser vagamente identificado com as tonalidades epocais do existencialismo, referência essa que acabou por se mostrar pouco pertinente. Esse seu último livro, de 1995, ganhou no ano seguinte alguns dos mais importantes prémios literários. Esses prémios não retiraram Maria Judite de Carvalho do lugar discreto em que sempre se encontrou. Mas permitiram tornar menos anónima uma razoável e extensa admiração pela sua obra. Por outro lado, há alguns anos, em França, a tradução de Tanta Gente, Mariana tinha suscitado um enorme interesse e dado lugar a um coro de louvores. Como sempre acontece nestas circunstâncias, esta pequena consagração teve alguma repercussão entre nós. No dia 10 deste mês, a escritora tinha sido escolhida para receber o Prémio Vergílio Ferreira (por um júri constituído por Maria Alzira Seixo, Carlos Reis, José Alberto Machado, pró-Reitor da Universidade de Évora, Eunice Cabral, directora da área de literatura da mesma universidade, e eu próprio), no valor de mil contos, atribuído anualmente pela Universidade de Évora ao conjunto de uma obra. A divulgação pública do nome do escritor seleccionado estava reservada para o próximo dia 28, dia do aniversário de Vergílio Ferreira, e a entrega do prémio deveria ser no próximo dia 1 de Março. Um calendário que já não pode ser cumprido e um prémio que acaba por ser póstumo. A.G. in Expresso, 24 de Janeiro de 1998
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| Recensões
críticas
COELHO, Jacinto do Prado. «Maria Judite de Carvalho: As Palavras Poupadas», in Ao
COCHOFEL, João José.«Maria Judite de Carvalho:Flores ao Telefone», in Críticas e
LOPES, Óscar. «Ficção de experiência da adolescência feminina», in Modo de Ler – Crítica e Interpretação Literária /2. 2ª ed, Inova, Porto, 1972. 137-140. _________. «Maria Judite de Carvalho, As Palavras Poupadas, novelas e contos, 1961»,
RODRIGUES, Urbano. «Imagens da Mulher na Literatura Portuguesa do século XX», in Ensaios de Escreviver. Inova, Porto, 1970. 187-22 SEIXO, Maria Alzira. «Maria Judite de Carvalho, Os Idólatras», in Discursos do Texto.
______. «Maria Judite de Carvalho: um tempo de integração», in Para um estudo da expressão do tempo no romance português contemporâneo. 2ªed.; Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1987. (1ªed., 1968) LOURENÇO, Eduardo. «Situação da literatura portuguesa», in O Canto do Signo Existência e Literatura (1957-1993). Ed Presença, Lisboa, 1994. 255-267. SIMÕES, João Gaspar. «Maria Judite de Carvalho, As Palavras Poupadas, Paisagem
TORRES, Alexandre Pinheiro.«Sobre Os Idólatras de Maria Judite de Carvalho», Diário de Lisboa, (10/9/70).
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