Maria Alberta Menéres

 

 

 

 

 

 

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Textos online

 

 

Pretexto

Cântico de Barro

Água-Memória

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         Pretexto

      Por que não cai a noite, de uma vez?

       — Custa viver assim aos encontrões!

       Já sei de cor os passos que me cercam,

       o silêncio que pede pelas ruas,

       e o desenho de todos os portões.

  

       Por que não cai a noite, de uma vez?

       — Irritam-me estas horas penduradas

       como frutos maduros que não tombam.

   

       (E dentro em mim, ninguém vem desfazer

       o novelo das tardes enroladas.)

                           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cântico de Barro

Inquieta chuva, inquieta me dispersa,

esquecida a tradição e o cansado som. 

Dentro e fora de mim tudo é deserto

como se as ervas fossem arrancadas

ou se esgotasse a dor por que se chora.

 

Na grande solidão me basta, e a contemplo

para o sonho interior que me resolve! 

Tão fácil é esperar, que já nem sinto

o que vem a dormir ou a morrer

na mesma angústia que o silêncio envolve.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Água-Memória

Que súbita alegria me tortura

alegria tão bela e estranha

tão inquieta

tão densa de pressentimentos? 

 

Que vento nos meus nervos

que temporal lá fora

que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?

Pára a chuva nas árvores

pára a chuva nos gestos,

interiores contornos

divisíveis distâncias

ultrapassáveis gritos

que alegria no inverno,

que montanha esperada ou inesperado canto?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Biografia

Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas, é Professora do Ensino Técnico, Preparatório e Secundário (1965-1973), tradutora, tem vasta colaboração em jornais e revistas literárias. Dirigiu o Departamento de Programas Infantis e Juvenis da Radiotelevisão Portuguesa (1975-1986). 

A par da sua actividade poética, desenvolve um importante trabalho pedagógico no âmbito da educação literária infantil e publicou vários livros para a infância e juventude incluindo poesia, contos, teatro, novelas e adaptação de clássicos. Ainda no âmbito da actividade dirigida à infância, foi directora da revista Pais, entre 1990 e 1993. 

Trabalha actualmente na Provedoria de Justiça, onde tem uma linha directa de atendimento às crianças. 

Tem trabalhado em parceria com António Torrado em vários livros, assim como em programas de televisão. Tem trabalhado também com Carlos Correia e Natércia Rocha, na colecção juvenil "Mistério", da Editorial Caminho.

A sua obra para a infância, que conta no total mais de 70 títulos, é caracterizada pelo humor e pela poesia, procurando alertar os jovens para os mais simples pormenores do quotidiano. Porque todas as coisas têm uma história para contar. O enquadramento da criança no contexto familiar – com especial destaque para as relações com os avós – e as possibilidades de descoberta do mundo pelos mais jovens, são temas recorrentes nos seus textos. 

A sua narrativa possui um estilo muito característico, conseguido através da actualização da memória de antigas oralidades, criando no leitor um envolvimento real e mágico ao longo do desenrolar das histórias.

 

Como poeta, Maria Alberta Menéres tem reflectido sobre a realidade de uma subjectividade feminina, modulada numa linguagem depurada e de grande riqueza rítmica. Está representada em várias antologias nacionais e estrangeiras de poesia portuguesa. 

É responsável por duas obras de referência no panorama literário contemporâneo: a versão para português actual da famosa Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e a organização, com Ernesto de Melo e Castro, da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (com três edições nas décadas de 50/60) e da sua actualização, em 1979: Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977. 

 

Maria Alberta Menéres é habitualmente associada a um conjunto de escritores dos quais fazem parte, entre outros, Ruy Belo, Herberto Helder, João Rui de Sousa, Pedro Tamen, Cristovam Pavia, Ernesto de Melo e Castro, e Fernando Echevarría. Este grupo de poetas, contemporâneos do polémico  surrealismo português, procurava um maior rigor e contenção expressivos, dando assim início às primeiras tentativas de uma poesia concreta ou experimental. 
  

Em 1961 é publicada a Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito, com a organização de Mário Cesariny e a colaboração, ainda que ocasional, de Herberto Helder. 

 

O surrealismo português correu sempre o risco de transformar a arbitrariedade das imagens numa imaginação excedente ou transformar o «funcionamento real do pensamento» em prolixidade, sendo sugerido por vários autores, entre os quais João Gaspar Simões, que na poesia de Mário Cesariny ou Alexandre O'Neill existia mais lirismo do que surrealismo. No final da década de 50 esta situação particular era frequentemente considerada como um mal-entendido, atingindo o seu período  máximo de crise quando surgiram duas novas propostas de linguagem decorrentes da publicação de Poesia 61.

Enquanto isso, também o surrealismo não deixou de ir ao encontro de uma exploração da  linguagem que serviu igualmente para abrir caminho em direcção a uma poesia experimental.

Podemos aproximar Herberto Helder de um conjunto de poetas que nasceram entre 1928 e 1934, tais como: Fernando Echevarría, Jorge de Amorim, Pedro Tamen, Cristovam Pavia, Maria Alberta Menéres, João Rui de Sousa, Ernesto de Melo e Castro, Ruy Belo, entre outros.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra




Infantil
Conversas com Versos (poesia). Lisboa: Afrodite, 1968, 2ª ed. 1970.
Figuras Figuronas (poesia). Lisboa: Portugália, 1969; Plátano, 2ª ed. 1977.
O Poeta faz-se aos Dez Anos. Lisboa: Assírio & Alvim, 1974; Porto: Asa, 3ª ed. 1997.
Ulisses. Lisboa: Cabra Cega, 1972; Porto: Asa, 20ª ed. 1996.
A Pedra Azul da Imaginação (poesia). Lisboa: Plátano 1975.
Um + Um = Dois Amigos. Lisboa: Plátano, 2ª ed. 1976.
Lengalenga do Vento. Lisboa: Plátano Editora, 1976.
A Chave Verde ou os meus Irmãos. S.l.: Eixo, 1977.
Hoje Há Palhaços (com António Torrado). Lisboa: Plátano, 1977.
E Pronto ! Lisboa: Plátano, 1977.
Primeira Aventura no País do João. (B.D. de Pedro Massano, 1977).
Semana Sim, Semana Sim. Lisboa: Plátano, 1979.
Um Peixe no Ar (poesia). Lisboa: Plátano, 1980.
O Ouriço-Cacheiro Espreitou Três Vezes. Porto: Asa, 1981; 5ª ed.
O que é que Aconteceu na Terra dos Procópios? Lisboa: Moraes Editores, 1980.
A Água que Bebemos (B.D. de Artur Correia). Lisboa: Caminho, 1981; Sismet, 5ª ed, 1985.
O Livro das Sete Cores (poesia, com António Torrado). Lisboa: Moraes Editores, 1983.
O Tritão Centenário. Lisboa: Dom Quixote, 1984.
Esta Palavra Concelho (B.D. de Artur Correia). Lisboa: Sismet, 1984.
Histórias em Ponto de Contar (com António Torrado, sobre desenhos de Amadeo de Souza-Cardoso ) Lisboa: Comunicação, 1984.
Dez Dedos Dez Segredos. Lisboa: Ed. Latina, 1985; Porto: Asa, 3ª ed. 1995.
Aventuras da Engrácia. Porto: Asa, 1985; 3ª ed.
O Sétimo Descarrilamento (com Carlos Correia). Lisboa: O Jornal, 1985.
O Retrato em Escadinha. Lisboa: Livros Horizonte, 1985.
Este Concelho de Oeiras (B.D. de Artur Correia). Lisboa: Sismet, 1985.
Colecção 1001 Detectives, com Natércia Rocha e Carlos Correia:
O Mistério do Falcão Azul. Lisboa: Caminho, 1987; 3ª ed. 1992.
O Mistério do Carburador Salgado. Lisboa: Caminho, 1987.
O Mistério do Poço da Morte. Lisboa: Caminho, 1988; 2ª ed. 1990.
O Mistério das Bonecas Holandesas. Lisboa: Caminho, 1988; 2ª ed. 1991.
O Mistério do Nevão Assombrado. Lisboa: Caminho, 1989; 2ª ed. 1991.
O Mistério da Marioneta Assassina. Lisboa: Caminho, 1989.
O Mistério da Carruagem 013. Lisboa: Caminho, 1989; 2ª ed. 1992.
O Mistério das Portas Mal Fechadas. Lisboa: Caminho, 1990.
O Mistério do Bota d'Ouro. Lisboa: Caminho, 1990.
O Mistério do Motorista Chinês. Lisboa: Caminho, 1990.
O Mistério do Crime Mais-Que-Perfeito. Lisboa: Caminho, 1991.
O Mistério do Passageiro das Peúgas Amarelas. Lisboa: Caminho, 1991.
O Mistério das Galinhas Espavoridas. Lisboa: Caminho, 1991.
O Mistério das Motas Sepultadas. Lisboa: Caminho, 1992.
O Mistério da Ruiva Ifigénia. Lisboa: Caminho, 1992.
Corre, Corre, Pintainho. Lisboa: Plátano, 1988.
À Beira do Lago dos Encantos. (teatro) Lisboa: Rolim, 1988; Porto: Asa, 2ª ed., 1996.
Um Camaleão na Gaveta. Lisboa: Plátano, 1988.
Uma História em Quadradinhos (com António Torrado). Porto: Asa, 1988, 2ª ed.1992.
Histórias de Tempo Vai, Tempo Vem. Lisboa: Desabrochar, 1988; 5ª ed.
Histórias e Canções em Quatro Estações (coord. e colab. - 4 vols. Livro/cassette). Lisboa: Lisboa Editora/Polygram, 1988; 2ª ed.
1989.
Quem faz hoje anos? Lisboa: Círculo de Leitores/Caminho, 1988, 2ª ed. 1996.
A Galinha Poedeira. Porto: Desabrochar, 1989; 3ª ed.
A Porquinha Asseada. Porto: Desabrochar, 1989; 3ª ed.
O Coelho Comilão. Porto: Desabrochar, 1989; 3ª ed.
O Cão Pastor. Porto: Desabrochar, 1989; 3ª ed.
O Meu Livro de Natal. Porto: Desabrochar, 1991; 3ª ed.
No Coração do Trevo (poesia). Lisboa: Verbo, 1992.
Uma Palmada na Testa. Lisboa: Verbo, 1993; 2ª ed. 1996.
Pêra Perinha. Coimbra: Arnado, 1993.
A Gaveta das Histórias. Lisboa: Bertrand, 1995.
Sigam a Borboleta! Lisboa: Bertrand, 1996.

Poesia 
Intervalo (1952)
Cântico de Barro. Lisboa: Portugália Editora, 1954.
A Palavra Imperceptível. Lisboa: s.n., 1955.
Oração de Páscoa. (1958).
Água Memória. Fundão: Jornal do Fundão, 1960.
Poesias Escolhidas. Covilhã: Edições Pedras Brancas, 1962.
A Pegada do Yeti. Lisboa: Moraes, 1962.
Os Mosquitos de Suburna. Edições Pedras Brancas, 1967.
O Robot Sensível. Lisboa: Plátano Editora, 1978.
O Jogo dos Silêncios. Lisboa: Hugin Editores, 1996.

Ensaio
O Que É Imaginação. Lisboa: Difusão Cultural, 1993.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prémios

Prémio Internacional de Poesia Giacomo Leopardi, 1961 (Água-Memória)
Prémio Especial de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura, 1979 (O Que é Que Aconteceu na Terra dos Procópios?)
Prémio "O Ambiente na Literatura Infantil", Lisboa, 1981 (A Água que Bebemos)
Prémio "O Ambiente na Literatura Infantil", Lisboa, 1984 (O Sétimo Descarrilamento)
Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, Lisboa, 1986 (pelo conjunto da sua obra e a manutenção de um
alto nível de qualidade)
Prémio Especial de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura, 1987 (À Beira do Lago dos Encantos)
Prémio "O Ambiente na Literatura Infantil", Lisboa, 1990 (No Coração do Trevo)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a obra

 

Maria Alberta Menéres tem a consciência do "mundo original" a cuja pressão a sua poesia tenta responder. Os seus poemas nunca fogem ao imediato da verdadeira solicitação poética: daí a sua densidade, a sua irredutibilidade, talvez o seu mistério. A sua visão, entre nostálgica e trágica, é transfiguradora (…) O mistério da sua poesia, se é o da sua sensibilidade, ou do seu poder de invenção, é-o simultaneamente do mundo que desvenda e interroga. Já aqui se nos mostra a pureza poética desta poesia que não é mera transcrição de um estado subjectivo, pois que nos propõe um contacto com algo para além do ego social ou individual, a presença ambígua (salvadora? ameaçadora?) do que já não sabemos se é apenas imaginário, se tende simplesmente para a aparição do mundo.

António Ramos Rosa
(sobre a sua poesia)

A literatura para a infância e para a juventude há bastantes anos que praticamente vem monopolizando as atenções de Maria Alberta Menéres. Este livro vem relembrar que ela também é poeta: "As folhas dos livros não abanam / como as folhas das árvores / ao sopro do meu pensamento. / E no entanto a aragem deveria ser esquiva / e infiltrar-se por entre as palavras / com manhas de lagarto / estirando-se ao sol de todos os sentidos". 

Público, 23/11/96
(sobre O Jogo dos Silêncios)