Maria de Lourdes Pintasilgo
(1930 - 2004)

 

 
 

A primeira e única mulher que chefiou um Governo em Portugal e a segunda num país europeu - Primeira Ministra entre 1979-1980  

 

 

Nota biográfica   ||   Testemunho   ||

 

 

"[...] cidadã notável, que serviu Portugal nos mais altos cargos e funções, sempre com grande talento, dedicação inexcedível e numa atitude permanentemente inovadora"

"[...] como primeira-ministra, embaixadora, deputada ao Parlamento Europeu, marcou a sua acção por um sentido ímpar de serviço à comunidade, pela energia contagiante e mobilizadora, pela originalidade de propostas e métodos de trabalho, que sacudiam as rotinas do pensamento e os hábitos instalados, pela militância nas grandes causas emancipadoras e solidárias do nosso tempo".

"Militante católica, intelectual universalista, mulher de reflexão e de acção, a sua palavra foi, muitas vezes, pioneira e abriu novos horizontes."

Presidente da República, Jorge Sampaio, em nota emitida pela Presidência da República, em 10-07-2004  

 

 

   

 

 

Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu a 18 de Janeiro de 1930. Licenciada em Engenharia Químico-Industrial pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, em 1953; Directora de projectos no Departamento de Estudos e Projectos da CUF – Companhia União Fabril (1954-1960); Presidente da Pax Romana – Movimento Internacional de Estudantes Católicos (1956-1958); Coordenadora de programas de formação e de projectos piloto no domínio do desenvolvimento e da acção socio-cultural, enquanto responsável internacional do movimento do Graal (1960-1969); Membro da Câmara Corporativa, Comissão de política geral (1969-1974); Presidente da Comissão Interministerial sobre a política social relativa à Mulher (1970-1974); Ministra dos Assuntos Sociais (1974-75); Embaixadora de Portugal na UNESCO (1976-1979); Membro do Conselho Executivo da UNESCO (1976-1980); Primeira Ministra (1979-1980); Membro do Conselho da Universidade das Nações Unidas (1983-1989); Candidata independente à Presidência da República (1986); Deputada ao Parlamento Europeu (1987-1989); Membro do Conselho da Ciência e da Tecnologia ao Serviço do Desenvolvimento, Nações Unidas (1989-1991); Membro do Grupo de Trabalho da OCDE sobre “A Mudança Estrutural e o Emprego das Mulheres” (1990-1991); Presidente do Grupo de Trabalho sobre “Igualdade e Democracia” do Conselho da Europa (1993-1994); Presidente do Conselho Directivo do Instituto Mundial de Investigação sobre o Desenvolvimento Económico, da Universidade das Nações Unidas (WIDER/UNU) (1993-1996); Presidente do 'Comité des Sages' “Para uma Europa dos direitos cívicos e sociais” da Comissão da União Europeia (1995-1996); Membro do Clube de Roma (1983-); Membro do Conselho de InterAcção de Ex-Chefes de Estado e de Governo (1988-); Membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1991- ); Presidente da Comissão Independente sobre a População e a Qualidade de Vida (1992-); Mentora do projecto “Para uma Sociedade Activa” (1997-); Co-presidente da Comissão Mundial de Globalização.  

 

   
   

 

 

 
O Graal é um movimento internacional de raiz católica que se define como "de mulheres empenhadas na procura espiritual e na criação de uma cultura de solidariedade e de paz". O movimento nasceu na Holanda em 1921.

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 

 

A águia e as galinhas
 
 
Antes de passar ao tema incontornável da semana, quero aqui prestar homenagem sentida à grande mulher e figura cívica que foi Maria de Lurdes Pintasilgo - sempre é melhor começar por um tema que eleva os nossos pensamentos e emoções [...].

 

Conheci Maria de Lurdes Pintasilgo em finais dos anos 60, na alfabetização dos bairros de barracas de Lisboa pelo método Paulo Freire, no âmbito do movimento GRAAL, onde também pontificavam Nuno Portas, Manuela Silva e João Salgueiro. Foi uma experiência marcante, apesar das diferenças ideológicas que estalaram entre quem se situava na 'ala liberal' do regime e os grupos de jovens que se inclinavam para o marxismo e para uma luta aberta contra o fascismo e a guerra colonial.
 
 
Neste fértil choque de ideias, sobressaía o carisma de Pintasilgo, sempre aberta à compreensão dos novos tempos e praticando o diálogo frutífero entre cristãos e marxistas, aberto pelo célebre concílio Vaticano II. Foram tempos radiosos de esperança, marcados por filmes como "As sandálias do Pescador" e homens de coragem como os padres Felicidade Alves, Mário, Francisco Fanhais e outros que desafiaram a bolorenta aliança entre Salazar e Cerejeira; foi a década do Maio 68 e da Primavera de Praga que, tendo acabado em desilusões, permanecem como marcos sobre os quais se erguerão as alamedas do futuro de que falou Salvador Allende, na sua
última mensagem.
 
  
Reencontrei Pintasilgo mais de uma década depois, em Aljustrel, numa conversa tão longa quanto o permitiu a azáfama da campanha presidencial de 1985. O tema foi a democracia participativa - que ainda hoje faz sorrir alguns efémeros detentores do poder na nossa terra - e a urgência de aproveitar as virtualidades originais da Constituição, marcada pela revolução do 25 de Abril. Sim, porque para Pintasilgo, Abril escreveu-se
com R grande e foi vivido com enorme exaltação, afinal muito mais importante que todos os cargos oficiais que desempenhou em Portugal e no mundo de que soube ser cidadã. É significativo da pequenez dos dias que correm que a primeira mulher a exercer o cargo de primeira-ministra de Portugal não tenha tido funerais de Estado - atitude que não mereceria a Maria de Lurdes Pintasilgo mais do que o largo sorriso que sempre vai perdurar nas nossas memórias.
 
 
Mas como já vou a mais do meio da crónica, depois de ter falado de uma mulher que soube voar ao nível das águias, cabe-me agora o doloroso dever de regressar ao cacarejar das galinhas domésticas. [...]


Alberto Matos
Crónica semanal na Rádio Pax - Beja - 13/07/2004

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