Lídia Jorge

Biografia

Obra

Textos online

Prémios

Sobre a obra

 

 

 

 

Fotografia de Graça Sarsfield
in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001

 

Outras Páginas Web

 

http://www.liv-arcoiris.pt/bienal98/Bibliografia/paginas/lidia_jor.html

http://www.ipn.pt/opsis/litera/

http://www.ipn.pt/opsis/litera/letras/crit011.htm - Recensão crítica de A Costa dos Murmúrios de João de Mancelos

 

 

Biografia

 

Nasceu em Boliqueime (Algarve), no ano de 1946. Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa e foi professora do ensino secundário. 

Considerada hoje em dia como uma das romancistas de maior sucesso na literatura portuguesa contemporânea, começou a escrever desde muito jovem. É colaboradora de vários jornais e revistas e tem integrado diversos júris de prémios literários. É membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.

Em 1970, Lídia Jorge parte para África, onde dá aulas em Angola e Moçambique. O pleno ambiente da Guerra Colonial, que aí contactou será descrito mais tarde, através do olhar da mulher de um oficial do exército português, no romance A Costa dos Murmúrios. 

Regressada a Lisboa, continuou a dar aulas, foi professora da Faculdade de Letras de Lisboa, actividade que interrompeu para desempenhar funções na Alta Autoridade para a Comunicação Social.

A sua primeira obra, O Dia do Prodígios, constrói-se como uma alegoria ao país fechado e parado que Portugal era sob o regime anterior à revolução de Abril de 74. 

O impacto causado por este romance foi, também ele, prodigioso. Lídia Jorge foi de imediato saudada como uma das mais importantes revelações das letras portuguesas e uma voz renovadora do seu imaginário romanesco. 

A tecitura narrativa dos seus dois primeiros romances  mistura vários planos narrativos numa estrutura polifónica de onde se destacam personagens que adquirem uma dimensão metafórica, ou mesmo mítica. Têm sido, associados à literatura sul-americana, pela presença do fantástico. 

A sua escrita reflecte a captação da oralidade, bem como uma estrutura narrativa que afirma, a par do discurso do narrador, o discurso das personagens. A cultura de tradição oral, a linguagem dos grupos arcaicos, os seus mitos e simbologias sociais, servem o objectivo de reflexão sobre a identidade cultural portuguesa. 

O experimentalismo que marca, sobretudo, as suas primeiras obras começa, entretanto, a tomar um tom mais realista, nomeamente no romance, O Jardim Sem Limites, onde à pequena aldeia de Vilamaninhos, se substitui Lisboa, a metrópole europeia onde se cruzam todas as influências e se rarefazem identidades e territórios.

Os seus romances mantêm uma grande variedade temática. Estão sobretudo ligados aos problemas colectivos do pov o português e às circunstâncias históricas e mudanças da sociedade nacional após o 25 de Abril, assim como à problemática da mulher. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra

 

O Dia dos Prodígios, Publ. Europa-América, 1980; 7ª ed. Lisboa: D. Quixote, 1995.

O Cais das Merendas, Publ. Europa-América, 1982; 5ª ed. Lisboa: D. Quixote, 1995.

Notícia da Cidade Silvestre, Publ. Europa-América, 1984; 10ª ed. Lisboa: D. Quixote, 1994.

A Costa dos Murmúrios, D. Quixote, 1988.

A Última Dona, D. Quixote, 1992.

A Instrumentalina (conto), D. Quixote, 1992.

O Conto do Nadador (lit. juvenil), Contexto, 1992.

O Jardim Sem Limites, D. Quixote, 1995.

A Maçon, D. Quixote / Soc. Port. de Autores, 1997.

Marido e outros contos, Lisboa: D. Quixote, 1997.

A peça de teatro A Maçon, foi encenada em 1997.

 

 

Traduções

 

Alemão
Der Tag der Wunder (O Dia dos Prodígios). Trad. Maralde Meyer-Minnemann. Freiburg: Beck & Glückler, 1989; ed. "Taschen",
Surkhamp Verlag, 1992.
Nachricht von der anderen Seite der Strae (Notícia da Cidade Silvestre). Trad. Karin von Shweder-Shreiner. Frankfurt a. M.:
Surkhamp Verlag, 1990; ed "Taschen", 1992.
Die Küste des Raunens (A Costa dos Murmúrios). Trad. Karin von Shweder-Shreiner. Frankfurt a. M.: Surkhamp Verlag, 1993; ed
"Taschen", 1995.
Paradies ohne Grenzen (O Jardim Sem Limites). Trad. Karin von Shweder-Shreiner. Frankfurt a. M.: Surkhamp Verlag, 1997. 

Castelhano
La costa de los murmullos.(A Costa dos Murmúrios) Trad. Eduardo Naval. Madrid: Alfaguara, 1989.
Noticia de la ciudad silvestre. Trad. Eduardo Naval. Madrid: Alfaguara, 1990.
El jardín sin límites Trad. Eduardo Naval. Madrid: Alfaguara, (a sair em Jan. 1998). 

Francês
La Fôret dans le fleuve (Notícia da Cidade Silvestre). Trad. Anne Viennot. Paris: Albin-Michel / Métailié, 1988
Le rivage des murmures (A Costa dos Murmúrios). Trad. Geneviève Leibrich. Paris: Métailié, 1989.
La journée des prodiges (O Dia dos Prodígios). Trad. Gen. Leibrich e Nicole Biros. Paris: Métailié, 1991.
La dernière femme (A Última Dona). Trad. Geneviève Leibrich. Paris: Métailié, 1995.
L'Instrumentaline (A Instrumentalina). Trad. Geneviève Leibrich. Paris: Métailié, 1995.
Le jardin sans limites (O Jardim Sem Limites). Trad. Geneviève Leibrich. Paris: Métailié, 1997.

Holandês
De Kust van het gemurmel.(A Costa dos Murmúrios). Trad. Maartje de Kort. Amsterdam: Arena, 1991.
De dag der wonderen. (O Dia dos Prodígios). Trad. Irène de Koenders. Baarn: De Prom, 1992. 

Italiano
La costa dei sussurri. (A Costa dos Murmúrios). Trad. Rita Desti. Florença: Giunti, 1993. 

Inglês
The Murmuring Coast (A Costa dos Murmúrios). Trad. Natália Costa e Ronald W. Sousa. Minnesota : University of Minnesota
Press, 1995.
Está representada na antologia
Sweet Marmalade, Sour Oranges: Contemporary Portuguese Women's Fiction. Ed. Alice Clemente. Providence, RI:
Gávea-Brown, 1994. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Textos Online

 

Fado do retorno (poema)

Sou de vidro  (poema)

Sistema Impuro  (ensaio sobre a língua portuguesa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sistema Impuro

 

Claro que o Português é uma língua maravilhosa. A prova é que se um ladrão me roubar eu encontro as palavras necessárias para lhe gritar atrás. Posso é não apanhar o ladrão nem recuperar a mala. Mas mesmo aí, fico com todas as palavras para me queixar, toda a sintaxe para expor, toda a morfologia para descrever a pessoa em causa e o facto ocorrido. E se ninguém me ligar, encontro todas as palavras para me revoltar e para dizer as frases que substituem a batida com a porta. Também para a ira, o ódio ou apenas o humor, nas ruas, contra os automobilistas inatacáveis, consigo encontrar todas as palavras. A revolta, a diatribe, o grito de rebeldia, a ameaça da vingança, estão ao nosso alcance. E para os outros, os sentimentos bons, os decentes, como são o amor, a amizade, a saudade, a coita, a melancolia, ou mesmo o frenesi, a ansiedade, o despeito, a acédia, o desespero e o ciúme, também encontro todas as palavras que eu quiser.

Mas não só de homem para homem a língua fala. Também encontro todas as palavras para falar com as árvores e as bestas. Encontro todas para mandar aparelhar o coche, fazer o baile e o fado. Um sermão. Tenho todas as palavras para ir à igreja ouvir o sermão e a ladainha. E tenho todas para ir à igreja ouvir o sermão e a ladainha. E tenho todas para comer à beira da estrada, junto às cestas. Tenho todas as palavras para a lavoira, todas para os ventos. A quantidade de palavras sobre os barcos, a maresia, o marejar, o almareado, a tramontana, tudo o mais que vem do mar, como se ele fosse nosso, ou o tivéssemos feito com a nossa própria língua. Palavras para atravessar todos os oceanos, para percorrer todas as praias. 

Para o sentimento e o passado presente donde ele brota, tenho todas as palavras necessárias. Até disponho dessa palavra intraduzível na sua unidade e síntese de corpo e afeição que é o colo. O colo intraduzível. Pôr ao colo, andar ao colo, levar ao colo, menino de colo. Não me admira que Joyce e Kafka, lá onde o sentimento melhor toca a abstracção, consigam ser traduzidos na nossa língua como para nenhuma outra. Isto é, posso andar dum lado para o outro sobre a terra, a relva, as colheitas, a floresta, a onda, o corpo humano e a sua alma com todas as palavras para dizer. As palavras do ser, do desejar e do apetecer, as questões sem tempo e fora do tempo, as questões do por dentro, estão nesta língua de forma rica e variada, ao alcance da mão e da língua. Aí, não há nada que dizer. Porém, todos sabemos - Onde ela falha e falta, onde ela não chega, é no campo das coisas contemporâneas do progresso, do bem-estar, das rodas e das máquinas, das recentes engrenagens invisíveis, que podem mais que todas as rodas e todas as máquinas, aquele campo a que, à falta de melhor, poderemos dizer, em vez da pele da Cultura, a Civilização.  2. Aí, sim. No campo da Civilização, como outras línguas, a nossa língua falha. É como se tivéssemos todas as palavras, de forma intemporal, para viver até ao Século Vinte, mas forçados dentro dele. A suspeita que se tem é de que a língua parou com o motor, o vapor e a gasolina, a ideia de que a língua não fez a revolução industrial, não a criou, não saiu dos que a criaram, ou só muito tarde foi inventada. Bastava entrar no automóvel primitivo para a língua não chegar. Não se sabia dizer châssis, nem tablier, nem manette. Não se soube dizer, durante muitos anos. Também bastava entrar num quarto de mulher para não se saber dizer toilette. A tinta para os lábios foi bâton, para as faces foi rouge, o cabelo foi à garçonne e o ondulado chamou-se mis-en-plis. Como hoje shampoing, brushing, rinsage, e lifting, apesar de massagem, manicura, ou permanente. De qualquer modo. Ninguém, há muitos anos, inventou o quer que fosse, em Portugal, no domínio da toilette, para lhe ter dado um nome que viajasse. O mesmo na cozinha. Mousse, soufllé, passe-vite ou kitchnette. Até para kitchenette, essa pequena cozinha que iria tão bem connosco, nós temos nome para chamar. Para não falar no menu, no catering que nós afinal usamos, mas não criámos. Aliás, a criança tem sua tetina posta no biberon e não há palavra portuguesa para envolver essa garrafa com leite, tão primordial. Não há, porque um biberon não é um bebedoiro nem uma mamadeira. E naturalmente que eu queria que o bébé bebesse em português.

 E no divertimento, a boîte e o dancing, o discjockey e o rave. E no desporto, tennis, football, goal, outside, off-sider, tudo o mais que é um sem fim, e finalmente Mister. Ah! Como é interessante um português, pequeno e escuro, sarraceno, treinador de futebol, ser chamado de Mister! O Mister isto, o Mister aquilo... Além do escritório onde reina todo poderoso o dossier. Também pelo dossier uma pessoa não pode chamar em Língua Portuguesa. Nem à fadiga muito especial, criada no seio da sociedade do dossier, se pode chamar cansaço ou esgotamento, mas stress. Stress corresponde a um outro tipo de canseira. E quem diz stress diz manager, e management, e marketing, e ship, e fax e também shoping e trade shoping, que não são feiras, nem centros comerciais, nem tão pouco mercados, mas são isso mesmo, shopings e trade shopings, outras noções, outra existência, outros talhes de cintura, outros cabelos, outra pose na vida, boa ou má, não interessa, outra realidade, outra pretensão, outro sonho. E na verdade, eu não me oponho ao sonho nem à realidade. É por isso que me sento junto aos shopings, onde nem sempre me apetece entrar, mas não penso jamais na palavra corrupção. 

Porque as línguas são sistemas abertos, e as palavras e as frases, e os sons que vêm dentro delas viajam quando têm combustível para viajar, e implantam-se lá onde encontram um lugar carente duma nova realidade. Vêm com os objectos e as invenções, e ficam se os aceitam. A luta pode chamar-se colonização, e nem sequer é subtil. Gira como o mundo, para além das línguas, presidindo às mortes e às vidas. Em nada como no devir das línguas o anonimato é tão intenso, apesar de ter sujeito. Ninguém é responsável por que na faixa direita das ruas alguém tenha mandado escrever BUS por economia de espaço. Ou TAP-AIR-PORTUGAL, para que até os cegos vejam que a Transportadora é aérea e é de Portugal. Talvez de outro modo, mais sagaz e mais nacionalista se entendesse pior. Talvez até já nem houvesse transportadora aérea portuguesa. O que sei eu? A vida anda e move-se por vontades indomáveis de que nós mesmos somos autores secundários e derradeiros. E jungle, e handicap, e overdose, e stand by, e black out... Ainda há uns anos eu ironizava os parties num livro que escrevi onde se falava de perdas da memória colectiva com uma espécie de ironia. Mas recentemente Agustina Bessa-Luís escreveu um diálogo, sobre o qual Manoel de Oliveira fez um filme, um e outro chamados "Party", ambos de cinco estrelas, e ninguém falou, nem poderia falar, sobre qualquer perda de identidade. Não há tal para perder. Porque o Party, o velho Garden Party à inglesa, entretanto, entrou na nossa vida, e ninguém deu por isso, nem é para lamentar. O Garden Party afinal fazia falta na nossa vida nova, entretanto nova burguesa disfarçado de outra cara, e nós não sabíamos. Como antes os proletários não conheciam a grève, nem o meeting, nem os políticos recentes  o gentleman's agreement e a task-force. Então, meu Deus, façamos as pazes com o inelutável, na certeza de que nenhum decreto pode vedar a entrada do sonho e da viagem. E o sonho, ou a facilidade, para quem os usa, está aí. 

Por mim, aqui vou vivendo bem com a nossa língua de raiz rural e marítima. Passo pelas ruas e as palavras nascem das coisas com cheiro a maresia, a salmoura e a laranjas. Ainda não inverti a realidade, ainda acho que o champô cheira a amoras, ainda não digo como os meus filhos que o laranjal cheira a champô. Mas não me incomoda o trato com o que chega, embora não me fique indiferente ao que não exporto. De qualquer modo, também coche, o que eu sabia aparelhar, era francês, depois de ter sido checo e húngaro. E charrette, e cachecol e cache-nez. O chá era dos chineses, dialecto mandarino, e o café era árabe, turco, e depois foi italiano. E o lunch que veio de Inglaterra e ficou lanche, servido sob o bule que foi malaio. Palavras que hoje são de todos, porque os objectos são de todos os que os usam, e os seus nomes importados, só por si, não atingem o coração das línguas. O coração de cada língua é que é inatacável. O nó górdio da sintaxe, o nó dos verbos que multiplicam a acção pelos pronomes, os pronomes que definem os sujeitos e os destinatários, activos, passivos, e reactivos. As preposições, as formas de as pôr ou não pôr antes e depois, o modo de juntar as palavras de forma a criar outras, o modo de as sobrepor e despedaçar, esse sistema estruturante das línguas, que faz o idioma e o espírito, mostrável pela Gramática, não regido, isso é que constitui o órgão propulsor da Língua. O coração da língua, o sistema duro, a sua parte mais estável, aquela sobre a qual se pode descansar. 

Porque a língua, ela, toda inteira, nunca parou nem pára, é um sistema em permanente corrupção. A língua não precisa de sal. Apodrece com perfume. O aroma da Língua solta-se ao ser arejada, batida, entrada, removida, um sistema aberto, uma realidade mutável consoante as várias outras realidades que a empurram e a definem, e já o disse, os usos são indomáveis. Fiz parte daqueles que queriam implantar em vez de implementar, dos que quiseram espectáculo em vez de show. Em vão. A língua engrossa contra a vontade de cada um. E nós, aqueles que designam por escritores, banais como os banais falantes, vamos pelas partes moles da língua, andamos pelas suas margens corrriqueiras e flácidas, metemo-nos pelos restos, pelas bordas, aproveitamos o que sobeja, o que de repente foge para diante, avessos aos sistemas de conservação, seguros de que o coração da língua enfraquece e esquece, se as franjas da semântica não se renovam. E toda a vivificação é uma novidade, e toda a novidade, no início, uma corrupção. Também já o disse. O que ainda não disse é que, por vezes, assalta-me a absurda ambição de poder falar todas as línguas. Poder entrar na alma delas para perceber onde está a totalidade que as precede, ou se não as precede, pelo menos, a todas elas preside. A ambição de ficar na posse da natureza da fala. Na fantasia de poder tocar todas as línguas sobre o vasto piano delas. Mas depois de obter essa impossível ciência, tudo o que soubesse e aprendesse, seria para falar e escrever em língua portuguesa. 

27/06/1997

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fado do retorno

Amor, é muito cedo

 E tarde uma palavra

 A noite uma lembrança

 Que não escurece nada

 

 Voltaste, já voltaste

 Já entras como sempre

 Abrandas os teus passos

 E páras no tapete

 

 Então que uma luz arda

 E assim o fogo aqueça

 Os dedos bem unidos

 Movidos pela pressa

 

 Amor, é muito cedo

 E tarde uma palavra

 A noite uma lembrança

 Que não escurece nada

 

 Voltaste, já voltei

 Também cheia de pressa

 De dar-te, na parede

 O beijo que me peças

 

 Então que a sombra agite

 E assim a imagem faça

 Os rostos de nós dois

 Tocados pela graça.

 

 Amor, é muito cedo

 E tarde uma palavra

 A noite uma lembrança

 Que não escurece nada

 

 Amor, o que será

 Mais certo que o futuro

 Se nele é para habitar

 A escolha do mais puro

 

 Já fuma o nosso fumo

 Já sobra a nossa manta

 Já veio o nosso sono

 Fechar-nos a garganta

 

 Então que os cílios olhem

 E assim a casa seja

 A árvore do Outono

 Coberta de cereja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sou de vidro

 Meus amigos sou de vidro

 Sou de vidro escurecido

 Encubro a luz que me habita

 Não por ser feia ou bonita

 Mas por ter assim nascido

 Sou de vidro escurecido

 Mas por ter assim nascido

 Não me atinjam não me toquem

 Meus amigos sou de vidro

 

 Sou de vidro escurecido

 Tenho fumo por vestido

 E um cinto de escuridão

 Mas trago a transparência

 Envolvida no que digo

 Meus amigos sou de vidro

 Por isso não me maltratem

 Não me quebrem não me partam

 Sou de vidro escurecido

 

 Tenho fumo por vestido

 Mas por assim ter nascido

 Não por ser feia ou bonita

 Envolvida no que digo

 Encubro a luz que me habita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Citações sobre a obra

 

Não proponho que se leia este livro de Lídia Jorge como um simples exemplo da arte de escrever, mas que se releia e decifre uma das mais ricas partituras da literatura portuguesa contemporânea.


Jorge Listopad (sobre O Dia dos Prodígios)
in Colóquio-Letras



Lídia Jorge é o maior prodígio das letras pátrias neste último quartel do século.


João Gaspar Simões
in Diário de Notícias, 24/1/ 85

 

Profeta no manejo da prosa, puxa-nos pela gravata do real e arrasta-nos ao hemisfério da Ficcionalidade. A Costa dos Murmúrios é pródiga nesta florescência de evocações. Dir-se-ia que um sótão de memórias, ao despegar cores, sons e aromas, cria atmosferas susceptíveis de desenroscar a capacidade que o leitor tem de, segundo Barthes, re-escrever o texto. 

João de Mancelos

http://www.ipn.pt/opsis/litera/letras/crit011.htm 

 

Que espaço habita Lídia Jorge, nesta estante de consagradas? O de um «miglior fabro», creio.
Melhor porque se arriscou a ser lapidada pelo cânone com O Dia dos Prodígios (1980), ousando inovar – e recordo que a experimentação é traço e marca da escrita feminina: Virginia Woolf na prosa e Plath na poesia são dois claros exemplos. Melhor porque na crítica alegórica de O Cais das Merendas (1982), transborda da «arte pela arte», para a arte como facto social – e relembro a conclusão de E. Portella: «o fazer literário é uma realização ideológica plena».
Melhor porque tem consciência dos espaços internos da mulher na sensibilidade de contos como «A Instrumentalina» ou do misógino «António». Melhor porque logra perceber as contradições e o imaginário da esposa tradicional, educada para servir e nunca para ser. Tal aparece intimamente traçado na personagem de Lúcia, da história «Marido», que se configura como «topos» da mulher doméstica e domesticada, apenas voz na litania da humilhação, sempre credora no matrimónio. Melhor, enfim, porque com A Costa dos Murmúrios (1988), «da capo al fine», dá razão às autoras e críticas essencialistas, na sua visão da mulher como arquitecto construtivo, anti-bélico, e de olhar  atento e mágico sobre a natureza humana.

João de Mancelos, Maio de 1998
in Letras & Letras: O sexo da escrita
http://www.ipn.pt/literatura/letras/ensaio21.htm

Porque é esta questão da colonização cultural – muito mais do que a da aculturação – a verdadeira ferida que Lídia Jorge lanceta em O Cais das Merendas. Cruel retrato em miniatura de um país que vem tentando "vir a ser" – e não é de hoje – por interposta pessoa. Por importação de modelos de comportamento ou de pensamento que nada ou muito pouco têm a ver com as suas raízes culturais profundas.


Maria Lúcia Lepecki
in Expresso


Unter den Frauen, die derzeit in Europa schreiben, dürfte jedoch die Portugiesin Lidia Jorge einer der aufregendsten, wagemutigsten Künstlerinnen sein, von der wir noch viel mehr erwanten dürfen. 


Wolfram Schütte
in Frankfurter Rundschau, 7/ 4/ 90



Lídia Jorge ha escrito su novela mas lograda. Sin perder sus orígenes en un realismo mágico de procedência diversa, ha elaborado un relato que por su estructura discursiva y por su originalidad temática, la situán en las primeras filas de la renovación narrativa que está sufriendo el más profundo sur de Europa.


Cesar Antonio Molina
in Diario 16, 11/ 5/ 1989



On ne peut pas manquer d'être étonné par ce registre qui va de Maupassant à Virginia Woolf, par ces motifs qui reviennent à l'envers du tapis avec une si parfaite sûreté de dessin. ...La Fôret dans le fleuve se lit avec un plaisir constant.

Jacques Fressard
in La Quinzaine Littéraire, 1/12/ 88



Un livre, ce n'est pas que des tableaux, des couleurs, c'est entendu. Mais c'est aussi ça, tout de même: des images fortes, qui renvoient à d'autres images, passées ou à venir, issues de différentes régions de l'art, et qui tout ensemble tissent un réseau imaginaire aléatoire. Au demeurant, Le Rivage des murmures n'est pas qu'un foyer d'images, c'est aussi et d'abord une réflexion sur la fascination guerrière, l'attraction, la gravité étrange qui capture les âmes des hommes, les dévie de leur destinée apparente
pour les mettre en orbite autour de la mort.

Olivier Rolin
in Le Figaro Littéraire, 3/4/1989



Lidia Jorge s'est gardée des interminables récits de bataille dont les hommes ont le secret – sans en avoir toujours le talent. Elle a su retrouver la nudité d'une parole de femme, presque naïve à l'époque de son mariage au Mozambique, pour évoquer, avec une violence d'autant plus forte qu'elle est plus sourde et plus impuissante, une "très salle" guerre.

Josyane Savigneau
in Le Monde, 12/5/ 89

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prémios


Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, 1980 (O Dia dos Prodígios)

Prémio Município de Lisboa, 1982 (O Cais das Merendas)

Prémio Município de Lisboa, 1984 (Notícia da Cidade Silvestre)

Prémio D. Diniz da Casa de Mateus

Prémio Máxima Literatura (1999)

Prémio de ficção do Pen Club (1999)