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Júlia Nery nasceu em Lisboa em 1939. Licenciou-se em Filologia Românica na Universidade Clássica de Lisboa, em 1964 e é diplomada em Estudos Franceses pela Universidade de Poitiers. É professora do Ensino Secundário e formadora no domínio da Didáctica Específica do Português, área em que se tem dedicado à dinamização de oficinas de escrita criativa. A par da investigação nos domínios da didáctica e da pedagogia da Língua Materna, tem, também, realizado dramaturgias de espectáculos destinados ao público juvenil, em colaboração com o Teatro Experimental de Cascais e o Grupo Nós e Vozes. É autora de teatro radiofónico e de crónicas radiofónicas, assim como de colaboração dispersa por jornais e revistas.
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Excertos de Valéria, Valéria Mais do que ouvi-los, Marinela gostava de os atiçar. As assembleias começavam a aquecer bem depois da meia-noite. Para alguns, o marxismo só nas palavras, que no pensamento ela descobria-lhes manhas freudianas. Sentia o picante de estar ali a dar e a retirar a palavra, a meter pauzinhos secos nos acesos da discussão. Por ela se calavam, mudavam de tom, se exaltavam ou concordavam com tudo. Não era parvo quem a propusera para presidente da Mesa. Aqueles indivíduos de idades e educações tão diferentes pareciam meninos de vivenda a brincar às revoluções com os filhos do jardineiro. Uns, por tanto terem sonhado com elas a ler o livro vermelho do Mao Tsé Tung trazido entre a roupa suja num regresso de Londres ou Paris; os outros, sentindo-se porta-estandarte das revoltas transmitidas por gerações de camponeses e operários. Aqueles, que iam às assembleias por convicção e direito de classe e que queriam fazer-se ouvir, irritavam-se, faziam pontos de ordem à Mesa e requerimentos para fazer avançar os trabalhos. Num dia em que dois grupos estavam quase a engalfinhar-se, só porque alguém propusera um entendimento com outro partido político, a ela apetecera-lhe incitar a qualquer coisa de extremo; tomar o pulso ao desejo que lhes adivinhava de se fazerem valentões diante daquela loira cujo marido, que eles bem sabiam ser alérgico a cravos vermelhos, lhe enviava do Brasil os cheques com que ela se pagava as despesas militantes, até a cola, os Grupo em que Marinela participasse seria capaz de encartezar todas as paredes de Lisboa, à compincha com ela, que esticava as pernas, longas, bem tratadas, muito bem feitas, e os braços até fazer estoirar os botões pela pressão dos seios, quando alisava os cartazes com as mãos espalmadas, com aquele seu vício de querer tudo bem feito. A partir desta data e durante muitas páginas, este diário é um memorando de encontros, comícios e reuniões, de que podemos inferir que ela estava constantemente mobilizada para a acção e que os seus projectos de felicidade se ligavam cada vez mais com uma arte de viver novas relações com os outros e com o futuro. Pelos apontamentos de Marinela correm as mais insólitas personagens, pois que era aquele um tempo em que bastava um cravo vermelho para abrir a porta das casas e dos corações, e por isso mesmo propício à exploração de românticas ingenuidades, como fora o caso de uma antiga colega de carteira de Marinela, uma universitária militante, mantida pelo novo riquismo dos pais num bairro acima de qualquer suspeita. Nos seus braços acabara por acoitar-se um sul americano bem musculado, cujas camisas de seda pura destoavam da sua boina à Che Guevara; um homem que lhe dera grandes sobressaltos e despesas, quando viera a descobrir-se que ele era afinal um traficante de armas que estava em Portugal a sondar o mercado, enquanto incitava um grupo de idealistas contra os monopolistas e os grandes latifundiários. O diário de Marinela dá-nos daqueles tempos a imagem metafórica de uma cidade púlpito invadida por palavras. Uma imensa varanda de janelas escancaradas, onde se erguiam as trombetas dos pregoeiros das diárias novas e do toque a reunir. Anotara tudo em frases tão apressadas que, se não fossem as cartas que escreveu para o marido, encontradas entre as folhas do diário, pouco se saberia de como ela se aguentara nas ondas de ideais e oportunismos que se agitavam em Portugal naquele Verão quente e cujas frequentes manifestações de rua eram a principal atracção turística para muitos estrangeiros curiosos que vinham aqui gozar o frémito de uma revolução que não lhes custava nada. [...] Durante os últimos anos , Marinela vivera absorvida pelo trabalho e procurando no cansaço uma espécie de indiferença pelos apetites do corpo e a negação dos afectos- um estado de alma que a protegia, pois que a não sujeitava nem
à dor nem ao prazer, nem à mistura de um e de outro. Agora, liberta do olhar interpretativo e da mudez censória da mãe, da tutela do marido e, principalmente, dos sentimentos de pudor e comedimento nas Eis-nos chegados ao tempo de Valéria...
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Ficção Pouca Terra... Pouca Terra (Rolim, Lisboa, 1984); Teatro Na Casa da Língua Moram as Palavras (Edições Asa, Porto, 1993); O Plantador de Naus a Haver – Prémio Eça de Queirós 1994 – (Edições Asa, Porto, 1994); Do Forno 14 ao Sud Express com Autos e Foral (Edição da Câmara Municipal, Nelas 1996).
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