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Biografia
Inês Lourenço Porto É
licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela
Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou nos CTT e no
Ensino Secundário. Tem dois filhos, que se dedicaram à Música e à
Arquitectura.
Participou em diversos
eventos dedicados à Poesia, entre os quais se destaca: - La Poèsie
Portugaise Après Pessoa, Bibliothéque Faidherbe, Paris, 2000; -
Encontros com Poetas, Fundação Eugénio de Andrade, 2000; - Vozes e
Olhares no Feminino, Porto 2001, Biblioteca Almeida Garrett, com Teolinda
Gersão e Isabel Allegro de Magalhães, 2001; - 4º Encontro Internacional
de Poetas, Coimbra, Biblioteca Joanina, 2001;
Coordenou e editou desde
1987, os CADERNOS DE POESIA –HÍFEN, com 13 números editados, na sua
maioria temáticos, publicação de carácter inter-geracional, em que
participam, com colaborações inéditas, grande parte dos poetas
portugueses actuais, bem como poetas de outras línguas.
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Obra
Poesia: Cicatriz 100%, com
prefácio de Maria Isabel Barreno (Editora das Mulheres, Lisboa, 1980),
Retinografias (idem, Lisboa, 1986), Os Solistas (Limiar, Porto, 1994),
Teoria da Imunidade (Felício & Cabral, Porto, 1996), Um Quarto Com
Cidades ao Fundo – poesia reunida, incluindo mais de vinte inéditos (Quasi
Edições, Vila Nova de e Famalicão, 2000), A Enganosa Respiração da
Manhã (ASA Editores, Porto, 2002).
Principais colaborações
em Antologias: - Antologia de Poesia Contemporânea, O Poeta e a Cidade,
organizada por Eugénio de Andrade, Campo das Letras, Porto, 1996, 3ª Edição,
Asa Ed., Porto 2001 - Aproximações a Eugénio de Andrade, ASA Ed., Porto
2000, 2ª Edição, 2001 - Vozes e Olhares no Feminino, Ed. Afrontamento,
Porto, 2001 - Das Tripas Ao Coração, Antologia trilingue – português,
francês e inglês -, Campo das Letras, Porto, 2001 - Homenagem A Júlio/Saúl
Dias, Quasi Ed., V. N. Famalicão, 2001 - Ao Porto, Colectânea de Poesia
sobre o Porto, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2001 - O Futuro em Anos-
Luz – 100 anos – 100 poetas – 100 poemas, Quasi Ed., V. N. Famalicão,
2001 - Assinar A Pele – Antologia de poesia contemporânea sobre gatos,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Colaborou com poesia em
diversas publicações portuguesas, como JL -Jornal de Letras, Artes e
Ideias, Cadernos de Serrúbia, Colóquio – Letras, etc. e, também, em
revistas de poesia de Espanha, Itália e França (PÁGINA –cien años de
poesia portuguesa, Tenerife, - Ânfora Nova – Mujer y Poesia, Córdoba,
- HABLAR/FALAR DE POESIA, Badajoz, - BOLLETARIA 4, Modena, - EUROPE,
Paris, 2000, etc) com poemas que foram traduzidos nas respectivas línguas.
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Textos
online
Rua de Camões
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
Estendais
Em alguns invernos mais chuvosos,
em Miragaia que foi a Madragoa de
Pedro Homem de Mello, o Douro
salta a margem e entra pelos arcos
onde se demora no rés-do-chão
das casas, por duas madrugadas.
Mas são os estendais, à janela
agitados pelo vento nas abertas da chuva,
que nos trazem a urgência e a constância
dos corpos, nas mangas pendentes
de camisas, camisolas ou na roupa
interior, última margem dos íntimos rios,
onde os poliesteres aboliram os felpos, os linhos
as cambraias. Só a cor branca dos lençóis teima
lá no alto, a abrir velas ao desejo do sol
e à memória de obscuras lavadeiras, que faziam
heróicas barrelas na espuma inocente do sabão.
Ícaro
Um cão pertence mais á Terra,
aos seus limites, até ao último
rio. Mas ao que vive na casa
em frente, foi dado este nome
volátil. Quando só, ele constrói,
como quase todos os cães,
aquele som agudo de sobrevoar
ausências, que faz do regresso
de qualquer lazarento dono,
o latido solar da alegria.
Satélite
Os meus olhos acolhem um bando
de reflexos, invisíveis a horas
mais sombrias, na luz aberta
deste fim de Junho. Vêm ao meu
encontro os grandes plátanos do
jardim, ameaçados pelas
prováveis escavações do Metro.
Por ora ainda matizam os rostos
dos passantes e a penumbra das
janelas. No passeio das paragens
de autocarro para Ermesinde,
Areosa e outros debruns urbanos,
o volume dos corpos recorta-se
quadriculado pela luz. Seios e
estômagos transferem-me para
um estranho país de aleitamento e
digestões. Sigo num culpado
exílio a dobrar a esquina e inclino
os passos para o Satélite,onde
regresso ao aroma navegável
do cimbalino.
Miramar
Acender um cigarro na praia, proteger
o difícil estertor da pequena chama. Anular
o vento na manga do teu casaco. Reter
preso entre os dedos o princípio breve
dessa efémera combustão.
Vagas
A colcha da cama desfeita é agora mais leve
e mais clara.
As sandálias brancas enviaram
ao armário, a sombra
impermeável das botas. No lugar
do gorro de lã, demora-se hoje
um leve chapéu de palha. Algumas
plantas secaram, mas o calor dos
corpos libertou os lençóis
da sua humilde tarefa, lançando-os
longe como vagas de Agosto.
Guilhermina Suggia
(variações sobre um retrato)
1.
No escarlate do vestido
entre os joelhos avulta
o versátil companheiro
que em voz grave lhe responde
desde esse Porto marítimo
da infância, muito antes
da era dos petroleiros e
da boçalidade dos banhistas.
2.
O arco descreve
o intenso itinerário
de Leipzig a Paris,
de Berlim a Varsóvia,
o fascínio dos palcos, o
secretismo dos camarins,
na arritmia do pulso
que o fulgor persegue.
3.
Num crescendo vibrátil
desenha o andamento,
seus motivos ascendentes de
harmónica tensão. E na pausa
final, que um ímpeto antecede
o arco se suspende
augúrio e êxtase.
4.
No atelier londrino
de Mallord Street,
o pintor fixa o instante
de uma metamorfose.
Na tela cresce a silhueta
unida ao Stradivarius,
num corpo mútuo
de exótica mariposa,
olhos cerrados no meridional
abraço. Nem Pablo,
o virtuoso, nem qualquer outro
amante, desatará jamais
esse abraço sem fim.
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