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Guilhermina
Suggia Genial violoncelista, Guilhermina Suggia
(1885-1950) iniciou a sua carreira internacional aos 17 anos,
equiparando-se aos melhores intérpretes do seu tempo, nomeadamente Pablo
Casals. Vivendo no Porto, foi Londres o centro da sua brilhante actividade musical.
O
QUADRO DE JOHN |
POSANDO
PARA AUGUST JOHN
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ESBOÇO PARA QUADRO DE August JOHN
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TESTEMUNHO SOBRE O QUADRO de A. JOHNSobre a impossibilidade da pintura revelar o temperamento musical de Suggia, o testemunho seguinte é eloquente. «Eis aqui um retrato da maravilhosa Suggia - com o seu semblante em constante mudança, a sua testa expressiva, e a sua boca sensível. Augustus John imortalizou-a pintando-a numa obra-prima, mas mesmo ele seria certamente o primeiro a admitir que a expressão que ele retratou constitui apenas uma entre cem outras igualmente atraentes, e unicamente captadas quando ela toca ou fala. Nestes pequenos traços eu abstive-me propositadamente de exprimir qualquer opinião acerca das proezas de uma intérprete musical. Como tal, para além de constatar que Suggia é uma das grandes violoncelistas desta geração - um facto bem conhecido de todos - não tenho qualquer intenção de divagar sobre a sua mestria musical. Ela é uma criatura fascinante nas recepções - cheia de vivacidade, muito divertida, e sempre pronta a participar numa brincadeira. Encontro nela uma absoluta ausência de ciúmes e uma generosa apreciação dos artistas seus companheiros. Ela constitui uma das poucas mulheres do mundo que pode revelar uma aparência graciosa quando toca violoncelo. Sempre me pareceu como sendo ela parte do instrumento. Estou certo de que a Natureza nunca esperou que ela tocasse qualquer outro. Hollman, um bem conhecido violoncelista do seu tempo, costumava referir-se ao seu instrumento como «Minha esposa»; Suggia poderia certamente chamar ao seu: «A minha melhor metade!» (in My Portrait Gallery, s/d., s.a.) do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo
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| PRÉMIO
GUILHERMINA SUGGIA
Guilhermina Suggia deixou no seu testamento o seu famoso violoncelo Montagnani para ser vendido e com o seu produto se instituir um prémio anual com o seu nome para o melhor aluno de violoncelo do Conservatório de Música do Porto. Este valioso prémio foi assim atribuído: • 1953 a Maria José Ribas Gonçalves
de Azevedo Interessa salientar a maneira como foram premiados. Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo tocou o Concerto de Saint-Saëns, Suite em dó de Bach e Elegia de Fauré em prova, na presença do júri e do grande violoncelista espanhol Gaspar Casadó, convidado de honra, que no final dirigiu palavras de muito apreço à jovem premiada. O prémio foi-lhe entregue pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, Eng.° José Albino Machado Vaz, no salão do Palácio da Bolsa, durante o concerto de homenagem a Guilhermina Suggia em que tocou o violoncelista espanhol Gaspar Cassadó com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto. Maria da Conceição Ferreira de Macedo tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, dirigida pelo Maestro italiano Ino Savini o Concerto de Elgar no Teatro S. João. Isabel Delerue tocou na prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Maestro Silva Pereira, as Variações Sinfónicas de Böelmann, no Teatro Nun’ Álvares. Paulo Gaio Lima tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Prof. Costa Santos, o Concerto em si bemol de Boccherini, no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto. Gisela Neves, menção honrosa, tocou em prova uma Suite de Bach, o Kol Nidrei de Max Bruch e o Concerto de Elgar. Com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida peto Prof. Costa Santos tocou o Kol Nidrei de Max Bruch no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto. José Augusto Pereira de Sousa tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e o Concerto de Lalo com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Prof. Costa Santos no Teatro Carlos Alberto. Estes seis premiados, cinco dos quais meus discípulos, e o ultimo discípulo da Profª Isabel Delerue, deram provas valiosas de talento e de sério trabalho ao longo dos anos em que frequentaram o Conservatório de Música do Porto. Honraram com verdadeiro espírito
profissional o Prémio Guilhermina Suggia do Conservatório de Música
do Porto e cumpriram as suas carinhosas palavras deixadas em testamento. MADALENA SÁ E COSTA (Violoncelista/Professora)
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POSANDO PARA AUGUST JOHNNo artigo «Posando para August John» publicado em 8 de Abril de 1923 no Weekly Dispatch e assinado por Suggia fica a saber-se mais detalhes dessa criação conjunta. Ser-se pintado por August John não constitui uma experiência vulgar. Se o resultado da pose é uma obra-prima, o processo que conduz à sua criação não é menos excitante. O homem é único, assim como o são os seus métodos. Para iniciar, o seu verdadeiro estúdio é original. Um grande e belíssimamente bem proporcionado quarto em Chelsea, não iluminado a partir do topo, tal como sucede com a maioria dos estúdios, mas a partir de um dos lados, sendo a totalidade desse lado do quarto uma janela. Quando posei para o meu retrato, estava voltada para a janela, o artista, claro, estava de costas para a luz. Esta posição ajuda a explicar o notável efeito da luz intensa sobre o violoncelo, de modo tão pleno que pode ser observado no quadro. Eu podia ter achado fatigante a prolongada contemplação da luz solar - pois John sempre escolheu dias resplandecentes - não fosse a minha pose ter exigido que eu tivesse a cabeça voltada para o lado. Pintar a Música de Bach A minha pose explica o segredo da
totalidade do retrato. Eu estava a tocar. No decorrer da quase totalidade
das poses, eu estava realmente a tocar - não meramente a fingir que
tocava, como faria a maioria dos artistas, mas expressando realmente a música
de Bach. Toquei principalmente Bach, porque, sendo música clássica,
ajustava-se à atitude exigida pelo artista. Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo
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| O
quadro de John
No quadro não ficam dúvidas de que o violoncelo é parte dela e de que a música, com Suggia, não só se ouve, mas também se vê. John não ficou impressionado com Suggia só pêlos olhos, mas por todos os sentidos e conseguiu pôr no quadro a relação emocional, intelectual, visível, audível... entre o modelo e o pintor. No quadro de Suggia a música e a cor unem-se num resultado único: o vestido vermelho escuro, o castanho avermelhado do violoncelo, as cortinas douradas, verdes nas sombras... sugerem sons. No Evening Standard de 27 de Março de 1923 descreve-se o longo vestido carmesim, concluindo que «nenhuma violoncelista poderá pôr um vestido qualquer depois de ter visto este pintado». Talvez não possa ver-se e ouvir-se um outro violoncelo sem pensar no de Suggia. O quadro de John soa. Do livro “ GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata
de Sempre” de Fátima Pombo
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SOBRE GUILHERMINA SUGGIA
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João de Freitas Branco concede esta confidência no seu discurso proferido no Porto em 12 de Julho de 1989: «Passou-se isto numa época em que eu fui uma espécie de seu assistente para os concertos da Emissora Nacional. Tinha ido buscá-la ao hotel para a levar ao concerto em que ia tocar e, durante o caminho, reparei que ela se mostrava um tanto deprimida. (Ao contrário do que era costume, pois ela era sempre muito exuberante.) A certa altura, disse-me: «Sabe, hoje vou tocar muito preocupada, porque quando saí do Porto a minha cadelinha adoeceu... Não sei como é que hoje vou poder tocar bem».
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| Suggia
sobre A. John
Pode ser prontamente compreendido que, com um método de trabalho tão cuidadoso, as poses fossem razoavelmente prolongadas. Em regra, eu posava duas horas, mas perto do fim, quando John se encontrava ansioso para terminar o quadro, eu posava duas horas de manhã e outras duas à tarde. Nessa altura, contudo, havia entre as poses, o conforto de um delicioso almoço com o artista. John é um brilhante conversador por um lado, e um homem silencioso por outro. O que significa que ele não conversa grande coisa, mas nunca fala sem dizer algo que mereça ser dito. Ele é mordaz na sua conversação, por vezes sarcástico, mas nunca indelicado. Relativamente aos jovens artistas em especial, o seu discurso é sempre gentil; só o inculto e o hipócrita são susceptíveis de serem cruelmente criticados numa pausa entre as poses. A minha actuação durante as poses impediu naturalmente muito diálogo, mas o artista apreciava a música e continuava a trautear a melodia depois de eu ter terminado. Por vezes ele começava a andar para cima e para baixo, em simultâneo com a música. Isto recorda-me uma particularidade do John. Quando especialmente satisfeito com o seu trabalho, quando uma determinada técnica de pintura de pestanas ou a aplicação de uma tonalidade lhe corriam bem, ele caminhava sempre nas pontas dos pés. Assim que eu ouvia a serenidade dos seus
passos e o seu andar leve, eu fazia um esforço enorme para manter à
justa uma atitude correcta. Num quadro pintado assim, o retrato não só
de um músico como também do seu instrumento - mais, do próprio
verdadeiro espírito da música - o modelo deve, numa grande extensão,
participar na sua criação. O próprio John é suficientemente gentil
para lhe chamar o «nosso» quadro. John não só permite que os seus modelos
vejam o retrato inacabado, como os encoraja a efectuar críticas. Estas,
no meu caso, ficaram confinadas a pormenores técnicos relativos à posição
do arco e do violoncelo, e assim por diante. Passaram alguns anos desde que Augustus John me ouviu tocar pela primeira vez e me perguntou se podia pintar o meu retrato. Quase três anos decorreram enquanto se procedia ao trabalho, mas estou mais encantada com o resultado do que alguma vez pensaria ser possível. Eu sempre me recusei a ser pintada antes, e sinto que não desejo que alguém, a não ser talvez o John, me volte a pintar. Ele tem, a propósito, um outro retrato
meu meio acabado que foi iniciado antes da presente pintura. Nesse a minha
cabeça encontra-se voltada no sentido oposto, olhando sobre o ombro
esquerdo, e uso uma toga verdadeiramente maravilhosa, de um azul
vacilante. John abandonou-o porque não era suficientemente grande -
apenas três quartos do tamanho do presente retrato. A tela que ele
preparou para o meu retrato possui uma forma original, pois é quase tão
larga como longa. Encontra-se particularmente apropriada para o retrato de
uma violoncelista e seu instrumento, o que requer uma certa largura. do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo
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A MAIOR
VIOLONCELISTA DE SEMPRE
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VINTE E SEIS ANOS DEPOIS O PORTO
HOMENAGEIA GUILHERMINA SUGGIA
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PARTE DE ENTREVISTA DE HELENA SÁ E COSTA À REVISTA MACAUVJ - Que tal se começássemos por falar de Guilhermina Suggia…
VJ – Como era a sua personalidade?
VJ - …fala-se muito do seu
vibrato intenso… HSC – …sim, é verdade. Ela tinha uma
técnica muito refinada que transparecia, por exemplo, quando tocava as
Suites, de Bach. Naturalmente tinha aprendido com o Casals pois tinha sido
aluna dele. Como sabe, o Casals tocou muito aqui no Porto, num Café em
Espinho. E foi daqui que o meu avô o convidou para fazer uma tournée pelo
Brasil com o trio formado por ele próprio, Casals e o pianista inglês Harold
Bauer. Só depois disso é que ele foi com a Suggia para Paris e,
curiosamente, a mãe dela a acompanhou. Apesar de toda essa exuberância que
há pouco referi, ela era um pouco desigual: havia dias que estava muito bem
disposta e outros nem tanto. Era também muito notada na rua pois vestia-se
sempre com muitas cores. Nos concertos, porém, vestia-se lindamente e com
grande requinte. É curioso que ela foi uma das primeiras pessoas a guiar
automóvel chegando mesmo a dizer que ia para os seus concertos a conduzir,
pois era a maneira de se distrair, concentrando-se naquilo que estava a
fazer e não tendo que pensar no concerto. Isso, porque era muito ansiosa.
Por várias vezes tocou com Freitas Branco em Lisboa e chegou mesmo a
desmaiar pois sentia uma grande aflição antes de entrar para o palco. Extracto de entrevista dada a VEIGA JARDIM
por HELENA SÁ e COSTA para a Revista MACAU, publicado
em Outubro 3, 2004
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