Guilhermina Suggia


                                              Augustus John - Tate Gallery, Londres

Genial violoncelista, Guilhermina Suggia (1885-1950) iniciou a sua carreira internacional aos 17 anos, equiparando-se aos melhores intérpretes do seu tempo, nomeadamente Pablo Casals. Vivendo no Porto, foi Londres o centro da sua brilhante actividade musical.
Em 1923 é imortalizada pelo pintor inglês Augustus John (1878-1961). Na tela a óleo, o êxtase da paixão, a graça felina, a sua presença exótica.

SOBRE GUILHERMINA SUGGIA

PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA

O QUADRO DE JOHN  |  POSANDO PARA AUGUST JOHN 
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ESBOÇO PARA QUADRO DE A. JOHN 
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  TESTEMUNHO SOBRE O QUADRO de A. JOHN 
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  SUGGIA SOBRE A. JOHN

 

     Link: Associação Guilhermina Suggia http://assoc-guilherminasuggia.blogspot.com/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESBOÇO PARA QUADRO DE August JOHN

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TESTEMUNHO SOBRE O QUADRO de A. JOHN

Sobre a impossibilidade da pintura revelar o temperamento musical de Suggia, o testemunho seguinte é eloquente.

«Eis aqui um retrato da maravilhosa Suggia - com o seu semblante em constante mudança, a sua testa expressiva, e a sua boca sensível.

Augustus John imortalizou-a pintando-a numa obra-prima, mas mesmo ele seria certamente o primeiro a admitir que a expressão que ele retratou constitui apenas uma entre cem outras igualmente atraentes, e unicamente captadas quando ela toca ou fala. Nestes pequenos traços eu abstive-me propositadamente de exprimir qualquer opinião acerca das proezas de uma intérprete musical. Como tal, para além de constatar que Suggia é uma das grandes violoncelistas desta geração - um facto bem conhecido de todos - não tenho qualquer intenção de divagar sobre a sua mestria musical. Ela é uma criatura fascinante nas recepções - cheia de vivacidade, muito divertida, e sempre pronta a participar numa brincadeira. Encontro nela uma absoluta ausência de ciúmes e uma generosa apreciação dos artistas seus companheiros. Ela constitui uma das poucas mulheres do mundo que pode revelar uma aparência graciosa quando toca violoncelo. Sempre me pareceu como sendo ela parte do instrumento. Estou certo de que a Natureza nunca esperou que ela tocasse qualquer outro. Hollman, um bem conhecido violoncelista do seu tempo, costumava referir-se ao seu instrumento como «Minha esposa»; Suggia poderia certamente chamar ao seu: «A minha melhor metade!»

(in My Portrait Gallery, s/d., s.a.)

do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA

Guilhermina Suggia deixou no seu testamento o seu famoso violoncelo Montagnani para ser vendido e com o seu produto se instituir um prémio anual com o seu nome para o melhor aluno de violoncelo do Conservatório de Música do Porto.

Este valioso prémio foi assim atribuído:

• 1953 a Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo
• 1955 a Maria da Conceição Ferreira de Macedo
. 1963 a Isabel Delerue
. 1979 a Paulo Gaio Lima
• 1979 a Gisela Neves (menção honrosa)
• 1986 a José Augusto Peneira de Sousa.

Interessa salientar a maneira como foram premiados.

Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo tocou o Concerto de Saint-Saëns, Suite em dó de Bach e Elegia de Fauré em prova, na presença do júri e do grande violoncelista espanhol Gaspar Casadó, convidado de honra, que no final dirigiu palavras de muito apreço à jovem premiada. O prémio foi-lhe entregue pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, Eng.° José Albino Machado Vaz, no salão do Palácio da Bolsa, durante o concerto de homenagem a Guilhermina Suggia em que tocou o violoncelista espanhol Gaspar Cassadó com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.

Maria da Conceição Ferreira de Macedo tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, dirigida pelo Maestro italiano Ino Savini o Concerto de Elgar no Teatro S. João.

Isabel Delerue tocou na prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Maestro Silva Pereira, as Variações Sinfónicas de Böelmann, no Teatro Nun’ Álvares.

Paulo Gaio Lima tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Prof. Costa Santos, o Concerto em si bemol de Boccherini, no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto.

Gisela Neves, menção honrosa, tocou em prova uma Suite de Bach, o Kol Nidrei de Max Bruch e o Concerto de Elgar. Com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida peto Prof. Costa Santos tocou o Kol Nidrei de Max Bruch no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto.

José Augusto Pereira de Sousa tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e o Concerto de Lalo com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Prof. Costa Santos no Teatro Carlos Alberto.

Estes seis premiados, cinco dos quais meus discípulos, e o ultimo discípulo da Profª Isabel Delerue, deram provas valiosas de talento e de sério trabalho ao longo dos anos em que frequentaram o Conservatório de Música do Porto.

Honraram com verdadeiro espírito profissional o Prémio Guilhermina Suggia do Conservatório de Música do Porto e cumpriram as suas carinhosas palavras deixadas em testamento.
Trabalharam com elevado ideal. Porto Janeiro, 2004

MADALENA SÁ E COSTA (Violoncelista/Professora)

 

 

 

 

 

 

POSANDO PARA AUGUST JOHN

No artigo «Posando para August John» publicado em 8 de Abril de 1923 no Weekly Dispatch e assinado por Suggia fica a saber-se mais detalhes dessa criação conjunta.

Ser-se pintado por August John não constitui uma experiência vulgar. Se o resultado da pose é uma obra-prima, o processo que conduz à sua criação não é menos excitante. O homem é único, assim como o são os seus métodos.

Para iniciar, o seu verdadeiro estúdio é original. Um grande e belíssimamente bem proporcionado quarto em Chelsea, não iluminado a partir do topo, tal como sucede com a maioria dos estúdios, mas a partir de um dos lados, sendo a totalidade desse lado do quarto uma janela. Quando posei para o meu retrato, estava voltada para a janela, o artista, claro, estava de costas para a luz. Esta posição ajuda a explicar o notável efeito da luz intensa sobre o violoncelo, de modo tão pleno que pode ser observado no quadro. Eu podia ter achado fatigante a prolongada contemplação da luz solar - pois John sempre escolheu dias resplandecentes - não fosse a minha pose ter exigido que eu tivesse a cabeça voltada para o lado.

Pintar a Música de Bach

A minha pose explica o segredo da totalidade do retrato. Eu estava a tocar. No decorrer da quase totalidade das poses, eu estava realmente a tocar - não meramente a fingir que tocava, como faria a maioria dos artistas, mas expressando realmente a música de Bach. Toquei principalmente Bach, porque, sendo música clássica, ajustava-se à atitude exigida pelo artista.
Permitir este constante movimento nas suas poses constitui talvez o segredo do génio de John. Tal requer, claro, constantes alterações. O meu braço esticado, por exemplo, naturalmente que variava um pouco em posição, e John pintou cada uma destas variações até aperfeiçoar o resultado final. Tal como com a expressão; as disposições de cada pose, ou antes, cada movimento realçado pela minha música, foram registados pelo artista.
Esta capacidade de pintar e repintar tão rapidamente e facilmente encontra-se talvez melhor demonstrada pelas alterações que o artista efectuou no meu vestido. Ele iniciou o retrato seleccionando um clássico vestido de gala dourado, e um dia, em alguns minutos, alterou-o para branco. Este efeito, embora muito angelical e elegante, não era bem o que ele desejava, e então concebeu o traje vermelho que eu uso no retrato final.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

 

 

 

 

 

 

O quadro de John

No quadro não ficam dúvidas de que o violoncelo é parte dela e de que a música, com Suggia, não só se ouve, mas também se vê. John não ficou impressionado com Suggia só pêlos olhos, mas por todos os sentidos e conseguiu pôr no quadro a relação emocional, intelectual, visível, audível... entre o modelo e o pintor. No quadro de Suggia a música e a cor unem-se num resultado único: o vestido vermelho escuro, o castanho avermelhado do violoncelo, as cortinas douradas, verdes nas sombras... sugerem sons.

No Evening Standard de 27 de Março de 1923 descreve-se o longo vestido carmesim, concluindo que «nenhuma violoncelista poderá pôr um vestido qualquer depois de ter visto este pintado». Talvez não possa ver-se e ouvir-se um outro violoncelo sem pensar no de Suggia. O quadro de John soa.

Do livro “ GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

 

 

 

 

 

SOBRE GUILHERMINA SUGGIA

 

João de Freitas Branco  |  Helena Sá e Costa

          Nota Biográfica   

Homenagem a SUGGIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João de Freitas Branco concede esta confidência no seu discurso proferido no Porto em 12 de Julho de 1989:

«Passou-se isto numa época em que eu fui uma espécie de seu assistente para os concertos da Emissora Nacional. Tinha ido buscá-la ao hotel para a levar ao concerto em que ia tocar e, durante o caminho, reparei que ela se mostrava um tanto deprimida. (Ao contrário do que era costume, pois ela era sempre muito exuberante.) A certa altura, disse-me: «Sabe, hoje vou tocar muito preocupada, porque quando saí do Porto a minha cadelinha adoeceu... Não sei como é que hoje vou poder tocar bem».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Suggia sobre A. John

Pode ser prontamente compreendido que, com um método de trabalho tão cuidadoso, as poses fossem razoavelmente prolongadas. Em regra, eu posava duas horas, mas perto do fim, quando John se encontrava ansioso para terminar o quadro, eu posava duas horas de manhã e outras duas à tarde. Nessa altura, contudo, havia entre as poses, o conforto de um delicioso almoço com o artista.

John é um brilhante conversador por um lado, e um homem silencioso por outro. O que significa que ele não conversa grande coisa, mas nunca fala sem dizer algo que mereça ser dito. Ele é mordaz na sua conversação, por vezes sarcástico, mas nunca indelicado.

Relativamente aos jovens artistas em especial, o seu discurso é sempre gentil; só o inculto e o hipócrita são susceptíveis de serem cruelmente criticados numa pausa entre as poses.

A minha actuação durante as poses impediu naturalmente muito diálogo, mas o artista apreciava a música e continuava a trautear a melodia depois de eu ter terminado. Por vezes ele começava a andar para cima e para baixo, em simultâneo com a música. Isto recorda-me uma particularidade do John. Quando especialmente satisfeito com o seu trabalho, quando uma determinada técnica de pintura de pestanas ou a aplicação de uma tonalidade lhe corriam bem, ele caminhava sempre nas pontas dos pés.

Assim que eu ouvia a serenidade dos seus passos e o seu andar leve, eu fazia um esforço enorme para manter à justa uma atitude correcta. Num quadro pintado assim, o retrato não só de um músico como também do seu instrumento - mais, do próprio verdadeiro espírito da música - o modelo deve, numa grande extensão, participar na sua criação. O próprio John é suficientemente gentil para lhe chamar o «nosso» quadro.
Isto explica a perfeita felicidade e satisfação que senti ao longo de toda a minha pose, e em todas as vezes que observei o meu retrato, mesmo nas fases iniciais.

John não só permite que os seus modelos vejam o retrato inacabado, como os encoraja a efectuar críticas. Estas, no meu caso, ficaram confinadas a pormenores técnicos relativos à posição do arco e do violoncelo, e assim por diante.

Da primeira vez que observei o quadro, fiquei surpreendida por ver como progredira tão rapidamente. John tem, acima de tudo, a maravilhosa capacidade de criar um esboço em poucos traços. Os dois esboços a carvão que ele fez como um estudo preliminar para o retrato foram descritos como os melhores do seu género desde Rafael.

Passaram alguns anos desde que Augustus John me ouviu tocar pela primeira vez e me perguntou se podia pintar o meu retrato. Quase três anos decorreram enquanto se procedia ao trabalho, mas estou mais encantada com o resultado do que alguma vez pensaria ser possível. Eu sempre me recusei a ser pintada antes, e sinto que não desejo que alguém, a não ser talvez o John, me volte a pintar.

Ele tem, a propósito, um outro retrato meu meio acabado que foi iniciado antes da presente pintura. Nesse a minha cabeça encontra-se voltada no sentido oposto, olhando sobre o ombro esquerdo, e uso uma toga verdadeiramente maravilhosa, de um azul vacilante. John abandonou-o porque não era suficientemente grande - apenas três quartos do tamanho do presente retrato. A tela que ele preparou para o meu retrato possui uma forma original, pois é quase tão larga como longa. Encontra-se particularmente apropriada para o retrato de uma violoncelista e seu instrumento, o que requer uma certa largura.

Algumas pessoas têm-me dito que gostaram mais do quadro antes de me conhecerem, uma vez que pensam que ele não me fez tão bela como elas pensam que eu sou. Como resposta, eu cito o que o próprio John disse à minha mãe enquanto ela olhava para o quadro.

Muito humildemente ele perguntou-lhe se ela estava satisfeita com o quadro. Quando ela replicou que estava extremamente satisfeita, ele respondeu-lhe (em francês): «A sua filha está a ficar cada dia mais bonita, e o que eu lamento é o facto de não ser capaz de a representar tão bonita como ela está agora».

do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

 

 

 

 

 

 

A MAIOR VIOLONCELISTA DE SEMPRE
(in O "DIA" de 5/10/1990)

Acabam de completar-se 40 anos sobre a morte de GUILHERMINA SUGGIA. Foi, indiscutivelmente, uma das primeiras figuras entre os violoncelistas de todo o mundo e a maior entre nós. Artista extraordinária, GUILHERMINA SUGGIA sabia, como poucos, arrancar do seu violoncelo sonoridades de magia, que as suas mãos vibrantes e o seu coração de Mulher humanizavam.

A vida de SUGGIA foi um constante sonho de beleza. Vivendo para a Arte, a ela serviu com o seu fulgurante e imenso talento, a ela se entregou por inteiro.

Dotada de invulgar inteligência e possuindo um raro e poderoso encanto pessoal, SUGGIA assim que entrava no palco, cingia a si o violoncelo e levantava o arco, já tinha conquistado o público que, fascinado, febril e vibrante, escutava recolhido a espantosa artista.

Nascida no Porto, a 27 de Janeiro (1) de 1885, contava apenas sete anos quando se apresentou em público e já fazia parte da Orquestra do Porto ainda não tinha completado doze.

Aos quinze anos foi para a Alemanha aperfeiçoar os seus estudos e dois anos depois fazia a sua apresentação como violoncelista nos concertos de Leipzig, logo realizando digressões pela Europa.

Mais tarde, GUILHERMINA SUGGIA trabalhou com Pablo Casals, com quem fez uma famosa tournée em 1912, colaborando ambos nas audições do Concerto para dois violoncelos, composto por Emanuel Moór, e dedicado ao eminente artista catalão (2).

Logo após a primeira grande guerra, SUGGIA fixou residência em Londres (3) tornando-se rapidamente conhecida e apreciadíssima em Inglaterra, tendo tocado algumas vezes em particular para a família real inglesa. Fez-se ouvir com grande frequência pelo público londrino, sempre com unânime elogio da crítica.

Em 1923, o seu retrato, o mais conhecido de todos e o mais famoso da artista, foi pintado por Augustus John e encontra-se na TATE GALLERY, de Londres.

De regresso ao Porto, aí ficaram memoráveis os concertos que realizou, voltando de novo a Inglaterra em 1949, onde se fez ouvir pela última vez nos Festivais de Edimburgo.

A 30 de Julho de 1950, GUILHERMINA SUGGIA falecia no Porto, sendo o seu desaparecimento uma perda irreparável para a música portuguesa e para a arte em geral. Servindo-a com fervor e a mais perfeita dignidade, GUILHERMINA SUGGIA cobriu de glória o seu nome e a sua Pátria.

(1)- Guilhermina Suggia nasceu a 27 de Junho de 1885

(2)- Com efeito o concerto para 2 violoncelos de Emanuel Moór foi dedicado aos 2 violoncelistas, sendo o 1º violoncelo dedicado, pelo compositor, a Guilhermina Suggia e o 2º a Pablo Casals.

(3)- Guilhermina Suggia fixa-se em Londres em 1914. Em 1913 termina a relação com Pablo Casals, fixa-se em casa de sua irmã Virgínia, em França. Parte para Inglaterra no início de 1914 e fixa-se em Londres

MARIA FERNANDA MELLA, “O Dia” de 5 de Outubro de 1990
 

 

 

 

 

 

 

 

 

VINTE E SEIS ANOS DEPOIS O PORTO HOMENAGEIA GUILHERMINA SUGGIA
in DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 2 de Setembro de 1976


Pela primeira vez, 26 anos depois, o Porto, por iniciativa de César de Morais, presta homenagem àquela que críticas de todo o Mundo consideraram, a par de Pablo Casals, a maior violoncelista mundial – GUILHERMINA SUGGIA.

Patrocinado pela Câmara Municipal do Porto e em colaboração com a Orquestra Sinfónica do Porto, o concerto que se realiza amanhã, no Teatro Rivoli, pelas 21horas e 30, é inteiramente dedicado à artista portuense galardoada com a Medalha de Ouro da Cidade, comenda de Sant’iago e Grande Oficialato da Ordem de Cristo.

Para a homenagem póstuma, César de Morais compôs o “Concerto para Violoncelo e Orquestra” prestando-se a interpretá-lo em primeira audição mundial o violoncelista Michel Marchésini, solista da Ópera de Paris, 1º Prémio do Conservatório de Paris, solista e concertista consagrado em recitais e concertos em toda a Europa, solista da Ópera de Nice e Cavaleiro da Legião de Honra.

Completam o programa a abertura sinfónica de Sousa Carvalho “Eumene” e, na segunda parte a 5ª Sinfonia de Beethoven, regidos pelo maestro Gunther Arglebe.

Os bilhetes para o acontecimento são vendidos na bilheteira do teatro, ao preço popular e único de 20$00.

Sem, contudo, necessitar de apresentação, GUILHERMINA SUGGIA, nasceu no Porto a 27 de Junho de 1888, entrando com 13 anos para o Quarteto de Câmara do Orpheon Portuense. Estudando primeiro com o pai, o professor Augusto Suggia, e mais tarde com Klengel, GUILHERMINA SUGGIA obteve um êxito apoteótico, aos 16 anos nos concertos de Gewandhaus dirigidos por Artur Nikisch, iniciando, então a sua carreira com concertos na Alemanha, França, Inglaterra, Holanda, Rússia, Polónia, Suiça, Itália, Bélgica, Escandinávia, Espanha, etc.

Divorciada de Pablo Casals, volta a Portugal, onde fixa residência no Porto  dedicando-se a audições de carácter cultural e beneficente a favor de instituições congéneres ou em benefício de estudantes pobres. Sob a regência de Malcolm Sargent, é convidada a tocar no Albert Hall, em benefício dos músicos desempregados, a que assiste a família Real. Doente, é operada em Londres e regressa a sua casa no Porto, onde faleceu no dia 30 de Julho de 1950. No testamento dispôs do seu Stradivarius avaliado em 10.000 libras, para que fosse vendido e o seu produto aplicado na Royal Academy of Music, para instituição de um prémio anual ao melhor aluno de violoncelo. Os outros dois instrumentos que possuía legou-os aos conservatórios de música de Lisboa e Porto, para serem vendidos e instituídos prémios idênticos.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 2 de Setembro de 1976

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE DE ENTREVISTA DE HELENA SÁ E COSTA À REVISTA MACAU

VJ - Que tal se começássemos por falar de Guilhermina Suggia


HSC – Sim. Conheci-a aqui no Porto quando ela veio de Londres em 1924. Esteve lá cerca de 20 anos sem vir a Portugal tocar. Era muita falada aqui em casa, pois a minha mãe tinha sido muito amiga dela. Mas nós não a conhecíamos pessoalmente, víamos somente os retratos antigos e tínhamos uma pequena ideia através daquilo que nos contavam. A única coisa que sabíamos era que ela vivia em Londres. Um dia, os meus pais foram tocar a casa do escultor Teixeira Lopes e uma das pessoas que também se apresentou foi a Guilhermina Suggia que tinha acabado de chegar de Londres. Tinha vindo para juntar os pais que estavam separados e conseguir comprar uma casa para eles. Acabou por "encontrar" um marido, tendo casado com um médico português, Dr. Carteado Mena a quem admirava muito.
 

VJ – Como era a sua personalidade?


HSC – Exuberante. Dava muito nas vistas; não que fosse muito bonita, mas quando se arranjava bem nos concertos chegava a ser bonita. A tocar então, tinha expressões que a tornavam mesmo fascinante. Musicalmente era também muito exuberante. Aquilo que o Pablo Casals tem de interioridade, ela tinha de expressividade. Ela falava muito do Casals, pois tinha vivido sete anos com ele…
 

VJ - …fala-se muito do seu vibrato intenso…
 

HSC – …sim, é verdade. Ela tinha uma técnica muito refinada que transparecia, por exemplo, quando tocava as Suites, de Bach. Naturalmente tinha aprendido com o Casals pois tinha sido aluna dele. Como sabe, o Casals tocou muito aqui no Porto, num Café em Espinho. E foi daqui que o meu avô o convidou para fazer uma tournée pelo Brasil com o trio formado por ele próprio, Casals e o pianista inglês Harold Bauer. Só depois disso é que ele foi com a Suggia para Paris e, curiosamente, a mãe dela a acompanhou. Apesar de toda essa exuberância que há pouco referi, ela era um pouco desigual: havia dias que estava muito bem disposta e outros nem tanto. Era também muito notada na rua pois vestia-se sempre com muitas cores. Nos concertos, porém, vestia-se lindamente e com grande requinte. É curioso que ela foi uma das primeiras pessoas a guiar automóvel chegando mesmo a dizer que ia para os seus concertos a conduzir, pois era a maneira de se distrair, concentrando-se naquilo que estava a fazer e não tendo que pensar no concerto. Isso, porque era muito ansiosa. Por várias vezes tocou com Freitas Branco em Lisboa e chegou mesmo a desmaiar pois sentia uma grande aflição antes de entrar para o palco.
Depois de estar muito tempo afastada do nosso meio, tinha receio de que começassem a convidá-la indiscriminadamente para tocar. Por isso, tornou-se de muito difícil acesso: não aceitava os convites e quando aceitava, era um preço louco.

Extracto de entrevista dada a VEIGA JARDIM por HELENA SÁ e COSTA para a Revista MACAU, publicado em Outubro 3, 2004