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Florbela Espanca

 

 
   

 

 
 

 

 

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Outras páginas Web

http://www.ipn.pt/opsis/litera/espanca.htm

http://www.ipv.pt/millenium/16_pers10.htm

http://www.secrel.com.br/jpoesia/geran05.html - "Toda Florbela", ensaio de Gerana Damulakis 

http://portugal-info.net/people/writers.htm

http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/artigo?cod=2_46

http://www.terravista.pt/Meco/1397/      (um tributo pessoal)

 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 

 

Biografia

 

Florbela Espanca nasceu no Alentejo, em Vila Viçosa, a 8 de Dezembro de 1894. 

Filha ilegítima de uma "criada de servir" falecida muito nova, alegadamente de "nevrose", foi registada como filha de pai incógnito, marca social ignominiosa que haveria de a marcar profundamente, apesar de curiosamente ter sido educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se ainda que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa a perfilhou, por altura da inauguração do seu busto em Évora, debaixo de cerrada insistência de um grupo de florbelianos.

Estudou em Évora, onde concluiu o curso dos liceus em 1917. Mais tarde vai estudar para Lisboa, frequentando a Faculdade de Direito. Colaborou no Notícias de Évora e, embora esporádicamente, na Seara Nova. Foi, com Irene Lisboa, percursora do movimento de emancipação da mulher.   

Os seus três casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas em geral e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem a ligavam fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. 

Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos. O seu suicídio foi socialmente manipulado e, oficialmente, apresentada como causa da morte, um «edema pulmonar».

Com a sua personalidade de uma riqueza interior excepcional, escreveu os seus versos com uma perturbação ardente, revelando um erotismo feminino transcendido, pondo a nu a intimidade da mulher, dando novos rumos à consciência literária nascida de vivências femininas. 

A sua Poesia é de uma imensa intensidade lírica e profundo erotismo. Cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina sem que alguns críticos não deixem de lhe encontrar, por isso mesmo, um "dom-joanismo no feminino".

O sofrimento, a solidão, o desencanto, aliados a imensa ternura e a um desejo de
felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito, constituem a temática veiculada pela veemência passional da sua linguagem. Transbordando a convulsão interior da poetisa pela natureza, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas.

Florbela Espanca não se liga claramente a qualquer movimento literário. Próxima do
neo-romantismo de fim-de-século, pelo carácter confessional e sentimentalista da sua obra, segue a poética de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, pode considerar-se influência de Antero de Quental e de Camões.

Só depois da sua morte é que a poeta viria a ser conhecida do grande público, tendo contribuído para isso, inicialmente, a publicação de Charneca em Flor (1930) pelo professor italiano Guido Batelli.

Na Enciclopédia Larousse, esta poetisa é definida como «parnasiana, de intenso acento erótico feminino, sem precedentes na Literatura Portuguesa. A sua obra lírica, iniciada em 1919, com o Livro das Mágoas, antecipa em seu meio a emancipação literária da mulher».

No entanto, Florbela Espanca teve um “frio acolhimento” durante toda a sua conturbada vida. As críticas contemporâneas sobre a sua poesia podem facilmente colocar-se em extremos opostos, desde: versos imprimidos de “toda a ternura, todo o sentimento de uma alma de mulher”, “verdadeiro mimo”, ou, por outro lado, “escrava de harém”, “lábios literariamente manchados”, “um livro mau, um livro desmoralizador”.
Vacilando entre a moral e o preconceito, a beleza própria da poesia de Florbela recebeu pouco mais do que incompreensão, em vida e manipulação em morte, durante cerca de 40 anos. Atente-se que até no plano político Florbela foi declarada inimiga do Estado Novo. 

A ficção manipulada por Battelli na onda de sensacionalismo gerada no ano seguinte ao seu suicídio,  só em 1979 conhecerá melhor esclarecimento, quando Augustina Bessa-Luís escreve Florbela Espanca, a vida e a obra recorrendo diractamente ao estudo do espólio. ("Florbela Espanca",. Lisboa: Arcádia, 1979; 3ª ed., Guimarães, 1998)

Parece incrível como a intimidade pode ser ficcionalizada e sustentada até que José Régio, Jorge de Sena e Vitorino Nemésio se dedicaram à imagem política e poética, quase como uma frente de libertação, para trazer a verdadeira Florbela e a poeta que deve ser lida pelo que deixou em texto, sem vínculos com sua vida particular. 

Com ou sem escândalo, ou fascinação pelo escândalo; com ou sem histórias de atribulações novelescamente ligadas a uma sucessão de três casamentos infelizes, a perdas familiares dolorosas e à incompreensão constante na sua vida, o que fica é a voz poética da "alma gémea" de Fernando Pessoa, autêntica, feminina e pungente:

                   Eu quero amar,
                       amar perdidamente!
                       Amar só por amar: Aqui... além...
                       Mais Este e Aquele,
                       o Outro e toda a gente...
                       Amar! Amar!
                       E não amar ninguém!

Mesmo se, por vezes, marcada por algum convencionalismo, a sua poesia tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É considerada como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

 
   

 

 
   

 

 
   

 

 
 

 

 

 

 

 

O professor italiano Guido Battelli, por ocasião visitante na Universidade de Coimbra,  ofereceu-se para editar as últimas produções de Espanca. A poeta portuguesa confiou a  Battelli os originais em 1930 e, em Dezembro do mesmo ano, ocorre o suicídio. 

Notas introdutórias a edições recentes contam como se deu o "boom" editorial obtido pelo livro de poemas Charneca em Flor, com Florbela então morta: a imprensa de Portugal, acreditando no conhecimento íntimo que Battelli disfrutou com Florbela, tece a aderência da biografia com a obra para explicar inclusive as razões da sua morte. 
O professor terá que responder por tal mais tarde, no entanto, no momento imediato à edição de Charneca em Flor, tiragens sucessivas foram esgotadas, o que incitou Battelli a publicar tudo o que encontrou de Florbela: Juvenília reúne os poemas esparsos da mocidade
da poetisa; os dois livros de poesia anteriores a Charneca têm reedição; Charneca em Flor ganha uma secção intitulada Reliquiae; e mais, As Máscaras do Destino inclui contos inéditos, além da publicação da correspondência de Florbela com Júlia Alves e com o próprio Battelli e espantoso é o facto de que tudo isto acontecer num único ano - 1931.

Sabe-se hoje que a ficção criada por Battelli chegou a manipular trechos de cartas, datas, interferiu nos originais - claros abusos elaborados para concorrer com o sensacionalismo entretanto gerado. 

A aceitação pública desta manipulação e mentira dura praticamente 40 anos, pois apenas em 1979, ao valer-se do espólio para escrever Florbela Espanca, a vida e a obra, Augustina Bessa-Luís esclarece situações e contextos. 

 

 
   

 

 

 
   

 

 

 
 

Obra

Da sua obra apenas dois títulos foram publicados em vida

Livro de Mágoas (1919), 

Livro de Sóror Saudade (1923)

 

Postumamente foram publicadas as obras:

Charneca em Flor (1930), 

Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), 

Juvenília (1930), 

As Marcas do Destino (1931, contos), 

Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) 

Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). 

O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982. 

A aquisição e tratamento (de parte) do espólio por Rui Guedes possibilitou uma nova edição, mais completa e fiável da sua obra.

Introdução à Edição das Obras Completas de Florbela Espanca por Rui Guedes 

 

 

 
 

 

 

 

 

 
 

 

Introdução à Edição das Obras Completas de Florbela Espanca 

por Rui Guedes

 

A DESCOBERTA DO ESPÓLIO

 

Sou florbeliano desde a adolescência.

Quando, por volta dos meus 14 anos, descobri o livro de sonetos de Florbela, fiquei, de imediato, identificado com al­guns dos seus versos e com a violência da sua pazxao.

Literariamen te, deslumbrou-me o que José Régio tão bem soube apontar: ~ o dom, que caracteriza o artista literá­rio, de manejar as palavras de modo a fazê-las render o máxi­mo de sugestão, de insinuação, de expressão, de relevo (...) os jogos vocabulares e paralelísticos tão queridos dos poetas por­tugueses (...) os aparentes desleixos ou improvisos que são verdadeiros tesoiros de sugestão (...) as audaciosas invenções que elevam a expressão ao paroxismo (...) as vulgaridades brilhantes (...), os supremos versos que dão a impressão de não terem podido ser senão assim».

Assim, já contagiado, comecei a pesquisar diversos alfarra­bistas na esperança de encontrar outras obras suas. Em vão!

Foi necessário que essa pesquisa se estendesse até aos dias de hoje, criando em mim um misto de hábito, curiosidade e espírito de coleccionador, para chegarem à minha posse as primeiras edições, hoje raras, dos seus Livro de Mágoas, Livro de Soror Saudade, Livro de Mágoas e Soror Saudade, Char­neca em Flor, Charneca em Flor e Reliquiae, as compilações a que Guido Batteii chamou Juvenília e Cartas de Florbela Espanca a D. Júlia Alves e Guido Battelli, as Canas de Flor­bela Espanca publicadas por Azinhal Abelho e José Emídio Amaro, o livro de contos Máscaras do Destino, etc..

Pelo meio, ia adquirindo todas as obras que encontrava sobre Florbela e que lia sofregamente na vontade de saber mais e mais sobre essa mulher.

Em 1977 produzi um disco de poesias de Florbela Espanca, ditas por Eunice Muiïoz sobre música original de minha au­toria, e pensava então ter assim prestado o meu contributo de homenagem à grande Poetisa.

O destino, porém, havia guardado para mim ainda outros factos relacionados com Florbela...

Em Agosto de 1982, no Algarve, fui abordado por pessoa que, conhecedora do disco que referi e do meu interesse por Florbela, me informou possuir grande quantidade de manus­critos. Não acreditei!

Conversámos algum tempo, e José Manuel Carvalho, identificando-se como neto de Manuel Guimarães, irmão de António Guimarães (segundo marido de Florbela), conseguiu convencer-me. Quando Florbela estivera casada com António Guimarães, oferecera a sua cunhada Humbertina Teixeira de Andrade Guimarães (a Bertinha) todas as suas coisas queri­das, antes de ter abandonado o lar para ir viver com o Dr. Mário Lage, que viria a ser seu terceiro marido.

D.   Humbertina, avó de José Manuel Carvalho, guardou to­dos esses pertences no seu sótão durante mais de 60 anos, até que, por volta de 1982, os ofereceu ao neto.

A minha curiosidade cresceu, e sofreu, até que ele regres­sou a sua casa em 5. João do Estoril, onde se encontrava o espólio.

A 25 de Outubro de 1982, finalmente, consegui ver e adquirir o referido espólio que hoje, propriedade do Estado, se encontra na Secção de Espólios da Biblioteca Nacional.

 

Já em minha casa, e ao fim da primeira leitura sôfrega, fiquei com a impressão de estar perante algo de estranho. Alguns desses sonetos não correspondiam à versão segundo a qual, ao longo dos anos, eu me habituara a sabê-los de cor. Outras poesias, contos e cartas eram-me completamente des­conhecidos.

 

RECOLHA DE DADOS

A partir desse momento, tomou-se fundamental fazer uma ordenação de todos aqueles cadernos, rascunhos, contas de mercearia misturadas com versos, provas tipo gráficas de um dos seus livros, recortes, apontamentos poéticos, etc., etc..

E para fazê-lo, era-me essencial saber dados sobre a vida de Florbela.

Mas as pesquisas que fiz mostraram-me o pouco que se sabia sobre ela: datas erradas, falsas afirmações, discrepân­czas, lacunas, invenções... Os seus biógrafos têm feito traba­lhos que, salvo tão raras quanto honrosas excepções, se afi­guram de curtíssima dimensão, tanto sob o aspecto humano como estético. Sobretudo, na sua grande maioria, os que sobre ela escreveram ocuparam-se mais com a moralidade e análise freudiana da sua vida (que nunca entenderam) do que com a investigação séria da verdade.

E a bola de neve da distorção maledicente foi crescendo, numa série de conceitos em segunda mão utilizados pelos que, não compreendendo a genialidade da Poetisa que viveu na sua época, a julgaram com mesquinhez, sem piedade e sem compreensão.

Assim sendo, resolvi-me a constituir um grupo de trabalho para o efeito e comecei a estudar a vida de Florbela, a reunir cartas, a pesquisar jornais e revistas, a procurar espólios com­plementares em Bibliotecas ou colecções particulares.

Consegui determinar datas rigorosas para mais de duzen­tos eventos da sua biografia.

[...]

 

Ordem de publicação adoptada para esta edição das Obras Completas de Florbela Espanca

Constituída pelos volumes seguintes:

Volume 1 Poesias de 1903 a 1917

Volume II Poesias de 1918 a 1930

      Volume  III      —— Contos
      Volume  IV     
Contos e Diário
      Volume  V     
Cartas
      Volume  VI     
Biografia, Apêndices Documentais à Bio­grafia, Bibliografia Activa, Traduções (em apêndice), Bibliografia Passiva, Disco grafia, Levantamento de todos os manuscritos conhecidos existentes em Bibliotecas ou coleccionadores, Índice Re­missivo de toda a obra.

Volume VII Fotobio grafia

 

 

 
   

 

 
   

 

 
   

Poesia Online

Ser poeta

Eu...

Mistério

Mais Alto

Da minha janela 

O teu olhar 

Que importa?...

Desejos Vãos 

Árvores do Alentejo

Anseios

Lágrimas Ocultas

Sonhos

Vozes Do Mar

 

 

 

 

 

 

 
   

 

 
   

 

 

 
   

Álbum Digital

 

 
   

Capa de  Fernando Felgueiras, Publicaçôes Dom Quixote (1.a edição:Julho de 1985.)

Obras Completas de Florbela Espanca: Volume 1: Poesia (1903-1917).

 

 
   

Capa de  Fernando Felgueiras, Publicaçôes Dom Quixote (1.a edição:Julho de 1985.)

Obras Completas de Florbela Espanca: Volume 2: Poesia Poesias (1918 a 1930).

 

 
 

 

Capa de  Fernando Felgueiras, Publicaçôes Dom Quixote (1.a edição:Julho de 1985.)

Obras Completas de Florbela Espanca: Volume 2: Poesia .

 

 
   

 

 
 

 

 
   

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

Ser poeta

 

 Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

 Do que os homens! Morder como quem beija!

 É ser mendigo e dar como quem seja

 Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

 É ter de mil desejos o esplendor

 E não saber sequer que se deseja!

 É ter cá dentro um astro que flameja,

 É ter garras e asas de condor!

 

 É ter fome, é ter sede de Infinito!

 Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

 É condensar o mundo num só grito!

 

 E é amar-te, assim, perdidamente...

 É seres alma, e sangue, e vida em mim

 E dizê-lo cantando a toda a gente!

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Poema, entretanto, muito divulgado e popularizado pelo cantor Luís Represas.

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Da minha janela

 Mar alto! Ondas quebradas e vencidas

 Num soluçar aflito e murmurado...

 Ovo de gaivotas, leve, imaculado,

 Como neves nos píncaros nascidas!

 

 Sol! Ave a tombar, asas já feridas,

 Batendo ainda num arfar pausado...

 Ó meu doce poente torturado

 Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

 

 Meu verso de Samain cheio de graça,

 Inda não és clarão já és luar

 Como branco lilás que se desfaça!

 

 Amor! teu coração trago-o no peito...

 Pulsa dentro de mim como este mar

 Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...

 

 
 
 

 

O teu olhar

 

 Passam no teu olhar nobres cortejos,

 Frotas, pendões ao vento sobranceiros,

 Lindos versos de antigos romanceiros,

 Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

 

 Mares onde não cabem teus desejos;

 Passam no teu olhar mundos inteiros,

 Todo um povo de heróis e marinheiros,

 Lanças nuas em rútilos lampejos;

 

 Passam lendas e sonhos e milagres!

 Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,

 Em centelhas de crença e de certeza!

 

 E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,

 Amor, julgo trazer dentro de mim

 Um pedaço da terra portuguesa!

 

 

 
 

 

Que importa?...

 

 Eu era a desdenhosa, a indiferente,

 Nunca sentira em mim o coração

 Bater em violência de paixão,

 Como bate no peito à outra gente.

 

 Agora, olhas-me tu altivamente,

 Sem sombra de desejo ou de emoção,

 Enquanto as asas loiras da ilusão

 Abrem dentro de mim ao sol nascente.

 

 Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;

 Como nascida em carinhoso monte,

 Toda ela é riso e é frescura e graça!

 

 Nela refresca a boca um só instante...

 Que importa?... Se o cansado viandante

 Bebe em todas as fontes... quando passa?...

 

 

 
 

 

Desejos Vãos 


Eu queria ser o Mar de altivo porte 
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!


Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!


Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!


E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...
Florbela Espanca - Fanatismo 


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida 
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não es sequer razão do meu viver,
Pois que tu es já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo , meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu es como Deus: Princípio e Fim!..."

 

 
 

 

Árvores do Alentejo


Horas mortas... curvadas aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol postonte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
-Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

 

 
 

 

Anseios


Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...

 

 

 
 

 

Lágrimas Ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

 

 

 
 

 

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

 

 

 
 

 

Sonhos


Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte

Despedaçar esses laços!...
...É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!

 

 

 
 

 

Mais Alto


Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser àguia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

 

 

 
 

 

 

Vozes Do Mar


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias?Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios, 
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz,ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

 

 

 
 

 

Mistério


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!