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Fátima Maldonado |
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Fotografia de Graça
Saarsfield |
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Nasceu
em 1941. Jornalista e crítica literária, fez a sua estreia como poeta
em 1980 com Cidades Indefesas. Na sua poesia, encontramos uma temática
explicitamente erótica e uma condição feminina claramente assumida
que se conjugam com o mundo quotidiano e a evocação da infância e da
adolescência. Obras Os
Presságios (1983) Selo
Selvagem (1985) A
Urna no Deserto (1989)
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A
Adoração dos Magos Aquela
noite a três foi
como desenhar a maçarico numa
chapa de ferro um
vento fóssil, um vítreo monograma, o
rasto ao exceder o voo de uma carriça cativo
flutua no vidro de uma jarra. Suspensos
percorriam na polpa da vertigem léguas
sobre o abismo. Pendentes
do zinco da manhã à
espera do início do
seguinte espectáculo dispersaram
o sémen nas
chaminés da noite leprosa. Nos
terraços da luta percorreram as
danças mais funestas da ternura. Num
combinar astuto de referências abriram-se
os portais e
despediram galopes penitentes os
animais libertos das
tecidas mansões. O
unicórnio branco depôs sua cabeça nos
braços da senhora, compadecida
dama, e
lhe tocou fiando suas lãs entre
as unhas crivadas por metralha. Sinto-lhes
o assédio, em
cada joelho poisam um
queixo armadilhado, a
barba já cresceu desde o jantar. «É
a adoração dos magos» - murmuras tu – fincando
na ravina os dedos imanados enquanto
o tronco investe a
pele percorrida por venosas nascentes. Olho
por sobre um ombro e
surpreendo a treva ofendida
esgueirar-se entre
os dedos da porta. O
noctívago galgo devora
a escuridão às cegas no recinto. Em
breve a luz envolve de
opalinas unções as cabeleiras. Iminentes
desenham-se as saídas, o
croissant no prato, o garoto no copo, o
revestir a pele doutros fatos a
tragédia jazente nos horários. Aquela noite a três foi sem remédio.
Os Presságios, Lisboa, Editorial Presença, 1983
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