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Biografia
Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila
Meã, Amarante em 1922, descendente de uma família de raízes rurais de
Entre Douro e Minho e de uma família espanhola de Zamora, por parte da mãe. A sua infância e adolescência são passadas nesta região,
cuja ambiência marcará fortemente a obra da escritora. Fixou-se,
entretanto, no Porto, onde reside.
Estreou-se como romancista em 1948, com a novela
Mundo Fechado, tendo desde
então mantido um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas, contando até ao momento com mais de meia centena de obras.
Tem representado as letras portuguesas em numerosos colóquios e encontros internacionais e realizado conferências em universidades um
pouco por todo o mundo.
Foi membro do conselho directivo da Comunitá Europea degli Scrittori (Roma, 1961-1962).
Entre 1986 e 1987 foi Directora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direcção do Teatro Nacional de D.
Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
É membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris), da Academia Brasileira de Letras e da Academia das
Ciências de Lisboa, tendo já sido distinguida com a Ordem de Sant'Iago da Espada (1980), a Medalha de Honra da Cidade do Porto (1988) e
o grau de "Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres", atribuído pelo governo francês (1989).
É em 1954, com o romance A Sibila, que Agustina Bessa-Luís se impõe como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa
contemporânea. Conjugando influências pós-simbolistas de autores como Raul Brandão na construção de uma linguagem narrativa onde o
intuitivo, o simbólico e uma certa sabedoria telúrica e ancestral, transmitida numa escrita de
características aforísticas, se conjugam com referências de autores franceses como Proust e Bergson, nomeadamente no que diz respeito à estruturação espácio-temporal da obra,
Agustina é senhora de um estilo absolutamente único, paradoxal e enigmático.
Vários dos seus romances foram já adaptados ao cinema pelo realizador
Manoel de Oliveira, de quem é amiga e com quem tem trabalhado
de perto. Estão neste caso Fanny Owen ("Francisca"), Vale Abraão e As Terras do Risco ("O Convento"), para além de "Party", cujos
diálogos foram igualmente escritos pela escritora. É também autora de peças de teatro e guiões para televisão, tendo o seu romance As
Fúrias sido adaptado para teatro e encenado por Filipe La Féria (Teatro Nacional D. Maria II, 1995).
Recebe
aos 81 anos o mais importante prémio literário da língua portuguesa: o Prémio
Camões, em 2004.
(Instituído
em 1988, pelo Protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre o Governo da
República Portuguesa e o Governo da República Federativa do Brasil, visa
«consagrar anualmente um autor de língua portuguesa que, pelo valor intrínseco
da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário
e cultural da língua comum».)
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Obra
Ficção
Mundo Fechado (novela). Coimbra: col. "Mensagem", 1948
Os Super Homens (romance). Porto: Liv. Portugália, 1950
Contos Impopulares. Porto: ed. da A. 1951-1953; 4ª ed. Lisboa: Guimarães, 1984
A Sibila (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1954; 20ª ed., 1996
Os Incuráveis (romance). Lisboa: Guimarães Editores 1956; 2ª ed.( 2 vol).1983 / 1984.
A Muralha (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1957; ed. Clube do Livro, 1986
O Susto (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1958
Ternos Guerreiros (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1960
O Manto (romance). Lisboa: Liv. Bertrand, 1961
O Sermão de Fogo (romance). Lisboa: Liv. Bertrand, 1962 : Guimarães Editores, 1995
As Relações Humanas: I - Os Quatro Rios (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1964; 2ª ed., 1971
As Relações Humanas: II - A Dança das Espadas (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1965
As Relações Humanas: III -Canção Diante de Uma Porta Fechada. Lisboa: Guimarães Editores, 1966
A Bíblia dos Pobres: I - Homens e Mulheres (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1967
A Bíblia dos Pobres: II - As Categorias (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1970
A Brusca (contos) Lisboa: Edit. Verbo, 1971; 2ª ed., Guimarães Editores, 1984
As Pessoas Felizes (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1975
Crónica do Cruzado Osb (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1976
As Fúrias (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1977; 2ª ed., 1983;
Fanny Owen (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1979; 4ª ed., 1998.
O Mosteiro (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1980; 3ª ed., 1984
Os Meninos de Ouro (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1983; 8ª ed., 1996
Adivinhas de Pedro e Inês (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1983; 2ª ed., 1986
Um Bicho da Terra (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1984
A Monja de Lisboa (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1985
A Corte do Norte (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1987; 2ª ed., 1996
Prazer e Glória (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1988
A Torre (conto). Lisboa: Assoc. Port. de Escitores / Tabaqueira, 1989.
Eugénia e Silvina (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1989; 2ª ed., 1990
Vale Abraão (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1991; 3ª ed., 1996
Ordens Menores (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1992; 2ª ed, 1996
O Concerto dos Flamengos (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1994
As Terras do Risco (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1994
Memórias Laurentinas (romance). Lisboa: Guimarães Editores, 1996
Um Cão que Sonha. Lisboa: Guimarães Editores, 1997.
Biografia
Santo António. Lisboa: Guimarães Editores, 1973; 2ª ed., 1993
Florbela Espanca. Lisboa: Arcádia, 1979; 3ª ed., Guimarães, 1998
Sebastião José. Lisboa: I.N.C.M., 1981; 2ª ed., 1984
Longos Dias Têm Cem Anos: Presença de Vieira da Silva. Lisboa: I.N.C.M., 1982.
Ensaísmo
Apocalipse de Albrecht Dürer. Lisboa: Guimarães Editores, 1986
Martha Telles: o Castelo Onde Irás e Não Voltarás. Lisboa: I.N.C.M., 1986
Camilo - Génio e Figura. Lisboa: Notícias, 1994
Camilo e as Circunstâncias, 1981
António Cruz, o Pintor e a Cidade, 1982
Aforismos. Lisboa: Guimarães Editores, 1988
Alegria do Mundo- I. Lisboa: Guimarães Editores, 1996
Crónica
Conversações com Dimitri e Outras Fantasias Lisboa: A Regra do Jogo, 1979; 3ª ed., 1992
Viagens
Embaixada a Calígula. Lisboa: Liv. Bertrand, 1961
Breviário do Brasil. Porto: Edições Asa, 1991.
Um Outro Olhar Sobre Portugal. Porto: Asa, 1995.
Teatro
O Inseparável ou o Amigo por Testamento. Lisboa: Guimarães, 1958.
A Bela Portuguesa. Lisboa: Rolim, 1986
Estados Eróticos Imediatos de Sören Kirkegaard. Lisboa: Guimarães Editores, 1992
Party (diálogos). Lisboa: Guimarães Editores, 1996
Juvenil
Dentes de Rato. Lisboa: Guimarães Editores, 1987; 7ª ed., 1996
Contos Amarantinos. Porto: Asa, 1987; 3ª ed., 1991
Vento, Areia e Amoras Bravas. Lisboa; Guimarães Editores, 1990
A Memória de Giz. Lisboa: Contexto, 1994
Traduções
Alemão
Die Sibylle (A Sibila). Trad. Georg Rudolf Lind. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1987
Fanny Owen. Trad. Georg Rudolf Lind e Lieselotte Kolanoske. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1987.
Castelhano
Cuentos Impopulares (Contos Impopulares). Trad. Mª Fernanda de Abreu e Jorge A. Andrade. Madrid: Alianza Editorial, 1982
La Sibila (A Sibila) Trad. Isaac Alonso de Estravís. Madrid: Alfaguara, 1981
Fanny Owen. Trad. Basilio Losada. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1988
Dientes de Ratón (Dentes de Rato). Trad. Eduardo Naval. Madrid: Alfaguara, 1990.
Dinamarquês
Søren Kierkegaards Umiddelbare Erotiske Stadier (Estados Eróticos Imediatos de Sören Kierkegaard). Trad. Jorge Braga.
Copenhaga: Forlaget Ørby, 1994.
Francês
La Sibylle (A Sibila). Trad. Françoise Debecker-Bardin. Paris: Gallimard, 1982.
La Cour du nord (A Corte do Norte) Trad. Françoise Debecker-Bardin. Paris: Métailié,1991
Fanny Owen. Trad. Françoise Debecker-Bardin. Paris: Actes-Sud 1988.
Le confortable désespoir des femmes. (O Mosteiro) Trad. Françoise Debecker-Bardin. Paris: Métailié, 1994.
Les Terres du risque (As Terras do Risco). Trad. Françoise Debecker-Bardin. Paris: Métailié, 1996.
Grego
H KOIAA TOY ABPAAM (Vale Abraão). Atenas: Kastaniotis Editions S.A., 1996.
Italiano
La Sibilla (A Sibila). Florença: Giunti, 1989.
Romeno
Sibila (A Sibila). Trad. Mioara Caragea. Bucareste: Univers, 1986.
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Prémios
Prémio Delfim Guimarães (Guimarães Editores), 1953 (A Sibila )
Prémio Eça de Queirós (Secretariado Nacional de Informação), 1954 (A Sibila )
Prémio Ricardo Malheiros (Academia das Ciências de Lisboa), 1966 (Canção Diante de uma Porta Fechada)
Prémio Nacional de Novelística (Secretariado Nacional de Informação), 1967 (Homens e Mulheres )
Prémio "Adelaide Ristori" (Centro Cultural Italiano de Roma), 1975
Prémio Ricardo Malheiros (Academia das Ciências de Lisboa), 1977 ( As Fúrias )
Prémio Pen Club Português de ficção, 1980 (O Mosteiro )
Prémio D. Dinis (Casa de Mateus), 1980 (O Mosteiro)
Prémio da Cidade do Porto, 1982
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, 1983 (Os Meninos de Ouro)
Prémio RDP - Antena 1, 1988 (Prazer e Glória )
Prémio Seiva de Literatura (Companhia de Teatro Seiva Trupe),1988
Prémio da Crítica (Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários), 1993 (Ordens Menores)
Prémio União Latina (Itália), 1997 (Um Cão que Sonha)
Prémio
Camões, 2004 - o mais importante prémio literário da língua portuguesa
(Júri:
Eduardo Prado Coelho, Vasco
Graça Moura; Brasileiro - Zuenir Ventura, Heloísa
Buarque de Holanda; PALOP - Lourenço do Rosário, Germano
Almeida
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Citações
sobre Agustina
A vocação de facto excepcional de Agustina Bessa-Luís não é a do romance como figuração de um mundo social, psíquica ou esteticamente coeso, mas a de colher momentos de surpreendente microrrigor e irradiação instrutiva, quer em percepções objectivas, quer em vivências interpessoais, quer em formas de sabedoria ancestral que, precisamente, ponham em causa qualquer forma de ordem ou inteligibilidade aceite; tudo nela aponta para um "amor" que é transcendente a valores ou a evidências consagradas, e que parece um dom peculiar de gineceu ou de intimidade feminina
Óscar Lopes
História da Lit. Portuguesa
(...) A energia de Agustina cansa, num país de lírios de água e de gente mordida pelo zelo alheio. Por isto, o lugar de Agustina na literatura contemporânea é um lugar incómodo, onde erros e convicções ressoam a dobrar por tratar-se de uma mulher que nunca
reivindicou tal estatuto para se disfarçar de vítima ou pretendente ao trono. E, além de incómoda, Agustina é inquietante, com
aqueles olhos de doninha esperta onde se concentra uma atenção aos problemas difíceis (...)
Clara Ferreira Alves
in Expresso, 23 / 1 / 88
Existem muitas diferenças entre Duras e Agustina, mas para além de certas coincidências de palavras, que são (...) certamente
mais do que meras coincidências, há algo de comum que apetece sublinhar: qualquer delas tende a passar do estatuto de ficcionista para o estatuto de "maître à penser" (embora a expressão seja obviamente inadequada, porque qualquer uma delas habita uma "pensée sans maître") (...) De certo modo, Agustina como Duras são hoje inquestionáveis. Não quer isto dizer que
tenham sempre razão, ou até que tenham razão a maior parte das vezes. Nada disso. Significa apenas que o melhor uso de
Agustina, aquele que nos traz melhor proveito de inteligência, é o que aceita que este pensamento nos surge como
inquestionável, na medida em que tentar pô-lo em questão é certamente a pior forma de o conhecer.
Eduardo Prado Coelho
A Noite do Mundo
Toda a obra de Agustina Bessa-Luís é animada por um movimento de resistência à dissolução da singularidade do indivíduo numa
humanidade cinzenta , mecânica, sem segredos nem espectativas. Daí que um dos seus motivos recorrentes seja o da
comunicação e informação objectivantes que fazem parte de uma vertigem da nossa época pela qual (...) todas as coisas e nós
próprios naufragamos num estado de indiferença. É numa recusa da instrumentalização da linguagem que se originam, portanto,
nos romances de Agustina Bessa-Luís, relações específicas entre o dizer do pensamento e o dizer da arte que, morando nas
montanhas mais separadas, infinitamente se encontram.
Silvina Rodrigues Lopes
Aprendizagem do Incerto
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