Biografia 

 

Obra


Sobre a Autora


Sobre a Obra


Textos online

 

 

Fotografia de Graça Sarsfield
in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Biografia

 

Ana  Luisa  Amaral é professora de professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade  do Porto. 

Através da sua obra sabemos que tem uma filha a quem dedica belíssimos poemas.

 

 

Obra

É  autora de  diversos livros de poesia – Minha Senhora de Quê, Coimbra, Fora  do  Texto,  1990; Coisas de Partir, Coimbra,  Fora  do Texto,  1993;  Epopéias, Coimbra, Fora  do  Texto,  1994;  E Muitos os Caminhos, Porto, Poetas de Letras, 1995; Às vezes  o Paraíso, Lisboa, Quetzal Editores, 1998; Imagens, Campo das Letras, 2000.

Literatura para a infância; Gaspar, O Dedo Diferente e Outras Histórias, Porto, Campo das Letras, 1999.   

 

Traduções

Castelhano
Está representada na seguinte publicação:
La Página (Canárias). Nº 24 (ano VII, nº2). 

Inglês
Está representada na seguinte antologia:
Writing in Reverse - portuguese women poets. (Ed. bilingue). Coimbra: 3º Congresso Europeu de Pesquisa Feminista, 1997.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a Autora

 

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal  Editores, Lisboa, 1999

Prefácio e posfácio de Maria Irene Ramalho de Sousa Santos

 

PREFÁCIO, DEZ ANOS DEPOIS

De como descobri a poeta Ana Luísa Amaral no final dos anos oitenta, conta o meu «Duplo Posfácio» a encerrar a primeira edição deste seu primeiro livro de versos, publicado em 1990. De como a poeta desde então se tem vindo a impor nas nossas letras, fala a sua carreira, com cinco livros de poesia entretanto dados à estampa por diferentes editoras e aclamados por poetas e críti­cos de orientações diversas; e fala esta segunda edição de Minha senhora de quê.

Dez anos depois, Minha senhora de quê mantém a frescura e novidade com que em 1990 surpreendeu os leitores de poesia portuguesa. Uma novidade e uma frescura tanto mais de salientar quanto é certo que Ana Luísa Amaral escreve os seus poemas em diálogo constante com os poetas, com a poesia e com a tradição ou, mais bem dito, com as tra­dições. [... ]

A reinvenção da tradição a que o talento e a imaginação de Ana Luísa Amaral vêm dando forma desde há dez anos constitui, ela própria, uma tradição reinventada: a tradição ininterruptamente reimaginada por mulheres poetas, a cuja inteligência não pode deixar de incomodar o modelo órfico que largamente pre­side à lírica ocidental até hoje  [...].

Em Minha senhora de quê, no seu diálogo explícito com Minha senhora de mim, de Maria Teresa Horta (1974), Ana Luísa Amaral, professora de literatura e cultura inglesa e americana e profunda conhecedora de muitas e interligadas tradições, oferece-nos a reinvenção dessa reinvenção. Ao devolver ao corpo da mulher a voz que o homem poeta lhe empresta nas cantigas de amigo, a poética desassombradamente feminista de Maria Teresa Horta reinventa a convenção, pondo na inteireza do ser-mulher a origem única do poema. Ao vulnerabilizar a identidade da mu­lher pela derrogação deliberada do pronome pos­sessivo («dona de quê»; «dona de mim nem sou»), Ana Luísa Amaral, por sua vez, reinventa a rein­venção de Maria Teresa Horta no «nada» de «ser» que todos somos, afinal, homens ou mulheres. E assim se viram do avesso tanto o homem poeta como a mulher poeta, tanto Orfeu como Eurídice.

Num poema de Epopeias (1994), o terceiro livro de Ana Luísa Amaral, um poema significativamente intitulado «Orfeu do avesso», a mulher poeta é uma Eurídice que tem a audácia de se recusar a morrer:

 De pé sobre o abismo

e não morri:

 

Canto gregoriano

muito limpo

não me chegou:

o fim

Catedral

sobre o risco,

sobre um azul tão grande

que afundar-me podia

Ao fundo do mais fundo

mergulhei

e não morri:

amei

O avesso, esse conceito que Ana Luísa Amaral sabe tão importante para a identificação poética de Luísa Neto Jorge («Diferente me concebo e só do avesso / O formato mulher se me acomoda», escreve Luísa Neto Jorge em «Minibiografia»), é mais importante ainda para Ana Luísa Amaral, que o elege tema, metodologia e estratégia, e sobre­tudo teoria poética. Uma prática de reinventar a tradição virando-a do avesso pressupõe um conhe­cimento minucioso da tradição; e implica também a reinvenção da própria teoria poética.

Poderíamos mesmo dizer que, desde o seu primeiro livro de versos, é pelo avesso que Ana Luísa Amaral define a teoria da sua prática poética. [...]  

Em outro poema de Epopeias, intitulado «Minha senhora a nada», é o avesso do avesso que nos apa­rece já claramente nessa sintaxe arrevesada. Virar do avesso Orfeu é ousada subversão, mas mais ousado ainda é levantar a suspeição da possível, relativa irrelevância do «lado direito». A autora diz, «nem dona nem senhora / nem poeta» suben­tendendo os sublimes donos, senhores, poetas para acabar dizendo da sua escrita posterior à deles, «imitações de nada».

[...]

Do terceiro livro (Epopeias, 1994), em que sim­ples títulos, como «Avessos contos de fadas» ou «Mal penso, logo existo» denunciam o avesso como tema explícito ou implícita teorização, falei já um pouco. No quarto, intitulado E muitos os caminhos (1995), de novo a poesia, a forma poética, a própria cultura são viradas do avesso. Em seis belos poemas de amor reunidos sob o título geral de «Histórias de uma noite de verão», a poeta não só escreve um «soneto», decerto porque o soneto é uma forma privilegiada de poesia de amor, mas escreve-o irreverentemente «a fingir», assim obliquamente redefinindo uma cultura que coloca as mulheres em posição subalterna.

[...]

A mesma temática e enquadramento teórico presidem ao quinto livro de poemas de Ana Luísa Amaral, Às vezes o paraíso (1998). Desta vez, também a tradição judaico-cristã é virada do aves­so, com Caim a fazer do «leste» do seu castigo o «paraíso» onde se pode «falar das coisas todas» («A leste do paraíso»), se bem que, em Ana Luísa Amaral, a voz da mitologia clássica, fonte primeira do lirismo ocidental, não deixe de se fazer ouvir sempre. De novo aqui nos surge Orfeu, em «O mun­do a meio», virado do avesso e apropriado, feito Eurídice, origem agora ela, e não ele.

[No] seu sexto livro de versos, [...] a sua poé­tica do avesso continuará, fértil, a desenrolar-se. Dele consta uma belíssima sequên­cia [...] de poemas curtos e um clima intensamente grego a lembrar a modernista americana H. D., intitula-se «Imagens» e anuncia--se, no seu primeiro poema, «com cavalos / corti­nas, / bastidores, / e navios que não chegam / ou demoram / tudo disposto /em labaredas /cal­mas». No segundo poema, misturam-se leões, a esfinge, a história, a memória dos heróis e «ela». Ela, aprendemos pouco depois, é a mulher do bas­tidor rodeada de barcos e de monstros, que sonha labirintos e borda, espera, deseja e recusa.

Ao quarto poema, percebemos que a mulher é a princesa de Creta, Ariadne, a do fio, com o fio bor­dando agora a história de como do Minotauro salvara Teseu, o traidor ingrato, esse que a abando­nara em Naxos, e que nenhum barco faz agora voltar por sobre o azul Egeu.

É uma sequência riquíssima, esta, e nela se interligam, em gesto anun­ciado já no livro anterior, as tradições helénica e hebraica, com barcos, mares e viagens interminá­veis, Jonas e Ulisses de mãos dadas e a cera a cair dos ouvidos «dela», e não dele. O motivo do labirinto o monstro, o homem e a mulher sugira no último poema de E muitos os caminhos, intitulado «Em Creta com o Dinossauro», uma deliciosa paródia do conhecido poema de Jorge de Sena («Em Creta com o Minotauro»).

Mas o modo e o tom são diferentes agora. Há subtil ironia na subversão, sem dúvida, mas não o humor irreve­rente, a raiar a insolência, do poema anterior. Antes a fragilidade de quem está na história e repensa a história, sem saber ao certo o que acontece a quem. Quem é sujeito ou objecto. Quem tem poder ou está à mercê. Quem fala ou cala. Ariadne? Teseu? Ulisses? Penélope? o Minotauro? o Leviatão? A própria autora?

MARIA IRENE RAMALHO DE SOUSA SANTOS

Prefácio in, Minha Senhora de Quê, 1999: 8 - 14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a obra

 


(…) poesia culta e invulgarmente comunicativa, confessional e realista, irónica e discreta, que diz a banalidade doméstica e quotidiana sem cair na banalidade, e que de modo jocoso e descontraído nos coloca diante de situações absurdas ou dramáticas da vida moderna. Aqui e agora impõe-se dizer apenas que Minha Senhora de Quê é certamente a melhor estreia poética que o ano passado nos trouxe, ou que Ana Luísa Amaral é uma "senhora" poetiza. 

Arnaldo Saraiva
Boletim da Universidade do Porto, nº4/5, Janeiro, 1991

Esta é uma voz que se enquadra no campo do feminino não do feminista – e se reconhece como tal, num diálogo irónico com as suas antecessoras: a inglesa Virginia Woolf, a americana Emily Dickinson, ou a muito portuguesa Sophia de Mello Breyner. 

Helena Barbas
Independente, 16/11/1990

Ana Luísa Amaral consegue situar-se no espaço permanentemente ambíguo que o fragmento do verso de Sá-Carneiro "qualquer coisa de intermédio", glosado no livro, diz: o espaço de um sujeito que é e não é, que se vai fazendo ao longo da interrogação de si nos textos (…) Muito estimulante, muito inteligente, este livrinho, que sob a capa do banal quotidiano dá a ver ofício e saber do verso. Ficamos à espera de outras "espionagens verbais", que nos tragam de novo, e em melhor ainda, tão delicado prazer. 

Paula Morão
Colóquio-Letras, nº131, Jan./Mar. 1994

Ana Luísa Amaral writes strongly as a woman and yet, in the process of connecting and revising traditions, she inscribes, as I have said, a different kind of subversion, a less manifestly feminist subversion. (…) To speak, then, of Ana Luísa Amaral's poetry as feminist, one must keep in mind this wider view that implies an imaginative identification with all those who are on the margins of a male-dominated society (…) This is a poetry of revising, of seeing with fresh eyes, of entering a situation or an old text from a new critical direction. 

Susan Margaret Brown
Comunicação apresentada no Congresso da M LA, Nova Iorque, 1992

São também antigos os temas e as formas da poesia de Ana Luísa Amaral? É possível! (…) Mas é uma voz consciente disso mesmo a que aqui se faz ouvir, uma voz clara e bem humorada, capaz de captar com inteligência e oportunidade o discurso contraditório das subjectividades diversas da nossa modernidade; uma voz límpida e fértil, que sabe constantemente recriar-se, gaiata e zombeteira, uma voz, enfim, sensível e atenta às inflexões mais frescas e risonhas do nosso dizer intencional e crítico as coisas que mais solenemente nos afectam.

Mª Irene Ramalho de Sousa Santos 
Via Latina.(Coimbra). Inverno 1989/90

De nenhuma linearidade, a via da paixão. Nada de endereços certos ou de heranças sem sobressaltos. Os poemas de Ana Luísa Amaral sabem da metamorfose dos símbolos, da descontinuidade que se introduz no caudal da história. (…) Há neste livro certas áreas vocabulares identificáveis: a do erotismo, a da poesia lírica, a das poéticas, a do "mundo das mulheres",cheio de submissão mas também de dispersão de afectos. (…) Porém, mais importante é o modo como o discurso se abrevia ou fractura produzindo um efeito de encantamento. 

Silvina Rodrigues Lopes
Público, 14/5/93 

Diz Genette no termo da fascinante viagem que é o seu Palimpsestes que a hipertextualidade tem o mérito de "relançar constantemente as obras antigas num novo circuito de sentido". E é isso que, com desencantada ironia, faz Ana Luísa Amaral, num tempo claramente avesso a epopeias, na sua terceira recolha poética, Epopeias (…)

Fernando J.B. Martinho 
Românica (Revista da Fac. de Letras da Univs. de Lisboa), nº4, 1995

Na poesia de Ana Luísa Amaral há sempre qualquer coisa que se reduz, ou se omite: não apenas pela dominância da elipse, pela qual a linguagem atinge uma contenção quase explosiva, mas, sobretudo, porque os poemas se retraem, muitas vezes, num mundo menor, onde a redução de escala permite o alargamento do mundo. Usando um verso de "Perspectivas", diria que eles "são reduções de luz", concentração
expansiva (…). 

Rosa Maria Martelo
JL - Jornal de Letras, 31/1/96

The reverse of the tradition or the tradition on the wrong side, whether upside down or inside out, is thus the chosen strategy of this Portuguese woman poet who knows what we may call the obverse of the tradition only too well. (…) If she dares to upset the sonnet scientifically so as to make it not-a-sonnet, she will dare anything. She can make a limp sonnet think love anew by deviation.

Mª Irene Ramalho de Sousa Santos
"Re-inventing Orpheus: Women and Poetry Today"
comunicação apresentada nas Univs. de Londres
(Fevereiro, 1997) e Stanford, U.S.A. (Março, 1997)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Textos online

 

FINGIMENTOS POÉTICOS

ANIVERSÁRIO

A VERDADE HISTÓRICA

RITMOS

TESTAMENTO

MINHA SENHORA DE QUÊ

DESCULPA-ME A TERNURA

DIETÉTICAS

PRIMEIRA IMAGEM

A HORA MAIS EXACTA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FINGIMENTOS POÉTICOS 

         

                                      "finge tão completamente"

         

                  Faz-me falta a tristeza 

                  para o verso: 

                  falta feroz de amante, 

                  ausência provocando dor maior. 

                    

                  Tristeza genuína, original, 

                  a rebentar entranhas e navios 

                  sem mar. 

                  Tristeza redundando em mais 

                  tristeza, desaguando em métrica 

                  de cor. 

                     

                  Recorro-me a jornal, mas é 

                  em vão. A livros russos (largos 

                  e sombrios). 

                  Em provocado rio de depressão, 

                  nem zepellin: balão 

                  a ervas rente. 

                    

                  Um arrastão sonhando-se 

                  navio. 

                    

                  Só se for o que diz o que 

                  deveras sente. 

                  A sério: o Zepellin. 

                  Mas coração: 

                  combóio cuja corda 

                  se partiu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANIVERSÁRIO

Sentei-me com um copo em restos de

champanhe a olhar o nada.

Entre crianças e adultos sérios

tive trinta em casa.

 

Será comovedor os quatro anos

e a festa colorida,

as velas mal sopradas entre um rissol

no chão e os parabéns:

quatro anos de vida.

 

Serão comovedores os sumos de

laranja concentrados (proporções

por defeito) e os gostos tão

diversos, o bolo de ananás,

os pés inchados.

 

Será soberbamente comovente

toda a gente cantando,

o mau comportamento dos adultos

conversas-gelatinas e os anos

só pretexto.

 ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal  Editores, Lisboa, 1999: 37

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A VERDADE HISTÓRICA

 

A minha filha partiu uma tigela

na cozinha.

E eu que me apetecia escrever

sobre o evento,

tive que pôr de lado inspiração e lápis,

pegar numa vassoura e varrer

a cozinha.

 

A cozinha varrida de tigela

ficou diferente da cozinha

de tigela intacta:

local propício a escavação e estudo,

curto mapa arqueológico

num futuro remoto.

 

Uma tigela de louça branca

com flores,

restos de cereais tratados

em embalagem estanque

espalhados pelo chão.

 

Não eram grãos de trigo de Pompeia,

mas eram respeitosos cereais

de qualquer forma.

E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,

mas das Caldas,

daqui a cinco ou dez mil anos

devia ter estatuto admirativo.

 

Mas a hecatombe

deu-se.

E escorregada de pequeninas mãos,

ficou esquecida de famas e proveitos,

varrida de vassouras e memorias.

 

Por mísero e cruel balde de lixo

azul

em plástico moderno

(indestrutível)

 

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal  Editores, Lisboa, 1999: 46, 47

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RITMOS

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

a prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

Misturar ritmos em teia apertada: um vira

bem marcado pelo jazz, pas

de deux: eu, ervilha e mais ninguém

 

De vez em quando o salto: disco sound

o vazio pós-moderno e sem sentido

Ah! hedónica ervilha tão sozinha

debaixo do fogão!

 

As irmãs recuperadas ainda em anos 20

o prazer da partilha: cebola, azeite

blues desconcertantes, metamorfose em

refogados rítmicos

 

(Debaixo do fogão

só o silêncio frio)

 

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal  Editores, Lisboa, 1999: 58

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TESTAMENTO

Vou partir de avião

e o medo das alturas misturado comigo

faz-me tomar calmantes

e ter sonhos confusos

 

Se eu morrer

quero que a minha filha não se esqueça de mim

que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada

e que lhe ofereçam fantasia

mais que um horário certo

ou uma cama bem feita

 

Dêem-lhe amor e ver

dentro das coisas

sonhar com sóis azuis e céus brilhantes

em vez de lhe ensinarem contas de somar

e a descascar batatas

 

Preparem a minha filha

para a vida

se eu morrer de avião

e ficar despegada do meu corpo

e for átomo livre lá no céu

 

Que se lembre de mim

a minha filha

e mais tarde que diga à sua filha

que eu voei lá no céu

e fui contentamento deslumbrado

ao ver na sua casa as contas de somar erradas

e as batatas no saco esquecidas

e íntegras

 

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal  Editores, Lisboa, 1999: 61, 62

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MINHA SENHORA DE QUÊ

dona de quê

se na paisagem onde se projectam

pequenas asas         deslumbrantes folhas

nem eu me projectei

 

se os versos apressados

me nascem sempre urgentes:

trabalhos de permeio            refeições

doendo a consciência inusitada

 

dona de mim nem sou

se sintaxes trocadas

o mais das vezes nem minha intenção

se sentidos diversos           ocultados

nem do oculto nascem

(poética do Hades quem mdera!)

 

Dona de nada            senhora nem

de mim: imitações de medo

os meus infernos

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal  Editores, Lisboa, 1999: 69

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESCULPA-ME A TERNURA

Enternece-me pensar que estás aí,

não força de trabalho desigual

nem vida à pressa,

mas minha amiga.

 

Talvez as palavras que te digo

me transpareçam classe,

talvez nem te devesse dizer nada.

Porque és a mão que ampara o meu silêncio,

a minha filha, o meu cansaço

     à custa do teu cansaço, da tua filha,

do teu silêncio.

 

Não há homens-a-dias neste mundo,

mas tantas como tu,

a segurar nas mãos e no sorriso

algumas como eu.

 

Entraste há pouco a perguntar

se eu tinha febre

     a louça por lavar nas tuas mãos,

aspirando o cansaço dos meus ombros,

nos teus ombros o cansaço de mim

e o cansaço de ti.

 

 

Desculpa os meus silêncios,

o falar-me contigo como com mais ninguém,

desculpa o tom sem pressa

     e o meu dinheiro que não chega a nada,

comprando o teu trabalho

(o teu sorriso)

 

ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso,  (2ª edição), Quetzal  Editores, Lisboa, 1998: 72, 73

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DIETÉTICAS

Todos os dias alimento uma paz pequena:

não é dar-lhe asas de voar,

mas comida verdadeira

 

Poucos sabem das suas preferências:

às vezes um pouco disto,

outras um pouco daquilo,

e a minha paz pequena vai crescendo

e engordando

 

Alimentando-a do que realmente gosta,

de quando em quando receio dispepsia,

que fique obesa e larga:

e urgentes as dietas

 

Para já, a proporção peso-largura

está correcta, mas temo pelo resto:

uma ruptura stibita, ou fome

desmedida que a conduza sozinha

a procurar comida,

tornando-a viciada e vulnerável

 

Muito gorda, sem eficácia nenhuma,

prevejo-a, anti-bulímia,

mas em bruma,

tão sartreanamente

irrecuperável

 

ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso,  (2ª edição), Quetzal  Editores, Lisboa, 1998: 56

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRIMEIRA IMAGEM

 

Numa tarde de sol,

dispôs-se no bordado e a bordar.

É que a luz da varanda era tão forte

que os olhos se detinham,

implodindo.

“Um sonho”, desejara.

E alguém, sorrindo,

Ientamente afastou-se,

monte acima.

 

ANA LUÍSA AMARAL, Imagens, Campo das Letras, 2000: 11

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

A HORA MAIS EXACTA


Imagens

que voltavam devagar,

se encostavam a ela sem pudor.

E no silêncio, a esfinge impenetrável,

sabendo-lhe de cor o coração:

desistente dos barcos,

depondo pelo chão de outros palácios

as armas mais preciosas.

“Não posso”, acrescentara

sentindo aproximar-se a hora

exacta.

ANA LUÍSA AMARAL, Imagens, Campo das Letras, 2000: 47